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História - Século XX
Século XX

Irlanda, a Páscoa Sangrenta de 1916

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Ensina a história que os povos dominados ou as nações invadidas e submetidas a uma longa ocupação, sempre ficam no aguardo a espera de que o opressor veja-se em dificuldades no exterior, para então se insurgirem. A crônica dos irlandeses, desde os tempos remotos, foi pródiga em episódios nos quais os que lutavam pela independência da Ilha Esmeralda - apelido carinhoso que davam à pátria -, procuravam aproximar-se dos inimigos do Império Britânico em busca de auxilio. Queriam apoio em homens e armas para que eles pudessem se ver livres da presença da Coroa Inglesa. O alçamento ocorrido em Dublin em abril de 1916 não foi diferente, passando à historia como a Irish Uprise, ou ainda o Levante da Páscoa.

Atrás da Alemanha

Cartaz irlandês a favor da independência
Recém a Primeira Guerra Mundial eclodira em agosto de 1914 quando um mês depois um pequeno grupo de irlandeses influentes liderados por Sir Roger Casment tratou de estabelecer algum tipo de estratégia visando tirar proveito da situação. Com o Império Britânico envolvido num confronto de proporções internacionais contra as Potências Centrais (que iria se arrastar ainda pelos quatro anos seguintes), parecia ter chegado a vez dos que lutavam pela independência da Irlanda, a mais antiga colônia dos reis ingleses, ocupada havia 800 anos.

Oportunidades outras, no passado, de buscar apoio fora para lutar contra a Coroa Britânica, por igual houvera. No século XVI, por exemplo, quando no trono da Inglaterra estava Elizabeth I, uma rainha protestante em guerra contra a Espanha católica de Filipe II, os irlandeses se aproximaram tanto do partido católico existente na Inglaterra como dos espanhóis que planejavam invadir as ilhas brtiãnicas.

Por ocasião do desastre da Invencível Armada, ocorrido em 1588, muitos do barcos da esquadra de Filipe II, que devido às tormentas vieram dar com os costados na Irlanda, foram lá recebidos como salvadores. E se a operação tivesse sido bem sucedida é certo que os irlandeses se alinhariam ao lado dos espanhóis para dar combate aos odiados ingleses.

O mesmo repetiu-se depois, no século XVIII, durante a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas (1789-1815), ocasião em que vários grupos de patriotas irlandeses procuraram apoio primeiro junto aos comissários jacobinos, e, em seguida, aos generais de Bonaparte, os verdadeiros inspiradores das rebeliões anti-britânicas de 1798 e de 1803.

Naquela ocasião, os ingleses tiveram que desviar suas forças da frente antifrancesa para irem sufocar os intentos irlandeses em prol da independência. Assim é que quando novamente Sua Majestade Britânica estava em guerra em 1914, as lideranças nacionalistas reunidas em Dublin apressaram-se em arquitetar uma aliança contra “os inimigos do rei”, isto é, com o regime do Kaiser.

A atuação de sir Roger Casement

Sir R. Casement ( 1864-1916)
Quem teve naquela ocasião um papel de ativo articulador na aproximação do movimento nacionalista irlandês com o governo do IIº Reich alemão foi sir Roger Casement. Como ex-integrante do English Foreign Service, nascido em Sandy Cove, na Irlanda, em 1864, ainda que de pai inglês, ele foi visto como o homem certo para a missão que então empreenderam. Sir Roger, um ativo defensor dos direitos humanos, tornou-se célebre, quando cônsul, por ter denunciado as atrocidades cometidas pelos colonialistas contra os nativos, tanto no Estado Livre do Congo como na Amazônia peruana (na zona de extração da borracha), o que lhe valeu notoriedade internacional e o próprio titulo de sir.

De volta a Dublin quando aposentado por razões de saúde em 1912, depois de servir no Rio de Janeiro, Casement logo deixou-se envolver pelos grupos nacionalistas irlandeses engajados na causa da independência.

Irlandeses estavam divididos

Todavia a tese de buscar apoio junto a Guilherme II estava longe de ser consensual entre eles. Tanto assim que John Redmond, um outro eminente líder, chefe do histórico Irish Nationalist Party, a agremiação fundada pelo celebrado parlamentar Charles Parnell, além de aceitar transferir a luta pela independência para depois da guerra, conclamara os seus compatriotas a que se apresentassem para lutar ao lado dos britânicos. Para tanto já haviam formado os Irish Volunteers, os Voluntários Irlandeses (uns 200 mil inscritos), todos sensibilizados por uma promessa que lhes fora feita.

O motivo disto, dessa inesperada adesão irlandesa ao secular inimigo, é que o governo britânico, já escaldado, havia concordado em sentar-se numa mesa de negociações logo que a guerra contra as Potencias Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia) fosse vencida para, então, resolver definitivamente a questão do Home Rule (o governo irlandês independente). Nem todos porém acreditaram na promessa britânica. Deduziram que ocorreria bem o contrário. Qual razão, suspeitaram eles, levaria o Império vitorioso numa guerra mundial a ceder frente aos patriotas irlandeses? Não fazia sentido.

Entre os desconfiados das juras inglesas estava uma pequena organização clandestina denominada Irish Republican Blotherhood, a Irmandade Republicana Irlandesa, fundada em 1858, da qual Casement fazia parte. Justamente por suas qualificações, o desembaraço que desenvolvera nas funções de diplomata, é que decidiram que ele seria o representante deles junto à Alemanha Guilhermina.

Iniciado o conflito, não tardou a que ele partisse em outubro de 1914 para uma longa viagem à Berlim, tendo antes passar por Nova York, visto que naquelas alturas, com a guerra em andamento, as ligações normais com a Alemanha estavam rompidos. O contanto inicial com a diplomacia germânica fora promovido através de uma organização de irlandeses norte-americanos, a Clan na Gael, cujo chefe era um tal de John Devoy.

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