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História - Século XX
Século XX

A esquerda revolucionária entra em cena

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Seguramente foi a entrada em cena da esquerda revolucionária – seja em seu viés marxista ou neoperonista - quem fez por precipitar a catástrofe que engolfou a Argentina entre os anos de 1970 e 1980. Para explicar o surgimento dela é preciso recompor, ainda que brevemente, o clima da época. Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana de 1959-1961, era argentino. A aventura em que ele se envolvera, auxiliando a Fidel Castro na derrubada da tirania de Fulgêncio Batista, deu-lhe uma aura de herói continental.

Como era de se esperar, milhares de jovens buscaram inspiração nele aderindo à luta pela revolução social latino-americana e pela "autodeterminação dos povos". Desprezando a democracia e os partidos tradicionais, tanto os democráticos como os comunistas, muitos deles ainda estudando nas universidades, ou recém egressos delas, acreditavam que a transformação da sociedade somente poderia vir por meios extremados, radicais. Pela "ponta do fuzil", como se dizia na época. Somente através da luta armada, tal como se dera em Cuba e como ainda ocorria no Vietnã, e não pelos procedimentos parlamentares, é que a América Latina se veria livre do atraso social e do subdesenvolvimento, representando pela aliança da Oligarquia (interna) com o Imperialismo (externo). Como então diziam: "Las revoluciones no se hacen con votos".

Acreditavam, pois, que deviam seguir "os passos de Che" e criar "focos revolucionários", rurais ou urbanos, de onde partiriam para a luta final contra as forças do capitalismo monopolista, apoiadas pelas Forças Armadas. Além disso, o mundo ocidental viu-se profundamente abalado pela rebelião estudantil dos anos 60 que se alastrou para grande parte dos países da Europa e da América Latina.(*)

(*) Na França a rebelião dos jovens desencadeada em maio de 1968 chegou a forçar a saída do presidente Charles De Gaulle do poder, no anos seguinte. No Brasil, provocou o fechamento do regime militar por meio do Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968. No México, por obra do governo, deu-se uma matança de 352 estudante na praça de Tlatelolco, em outubro de 1968.

A geração engajada de 1968 tinha certeza de que o país em que viviam perdera a independência – se é que algum dia havia-na alcançado – e que cabia a eles, aos autênticos revolucionários (e não aos inoperantes quadros do partido comunista), resgatar a soberania humilhada pela presença da potência norte-americana. Era pela pólvora e pelo sangue que as coisas então se dariam.

A Terceira Guerra Mundial

Encruzilhada: tanques e caminhões( tela de G.Gargano, 1989)
No entender das Forças Armadas, formadas nos quadros fixos da Guerra Fria, a retórica revolucionária e os grupos de ação, ainda que não tivessem ciência, estavam a serviço do poder soviético. O cenário mundial encontrava-se dividido entre o Mundo Livre, composto pelas nações ocidentais e cristãs, e o Totalitarismo Ateu, predominante no Leste Europeu e na Ásia. Os jovens nada mais eram do que peças teleguiadas da subversão internacional, força maligna manipulada por Moscou ou por Pequim, que já deitara mãos sobre a ilha de Cuba, de onde pretendia saltar para dentro do restante da América Latina. Além disso, utópicos e irresponsáveis, desejavam um projeto de transformação social "contrário ao ser nacional e à ordem social natural".

Afinal, não fora o próprio Che Guevara quem insuflara a juventude de esquerda a criar "dois, três Vietnãs", para levar a guerra de guerrilhas para todas as partes e fazer assim os Estados Unidos se desgastarem num combate mundial? Para a maioria dos comandos militares, não só argentinos, mas latino-americanos em geral, essa subversão não seria detida pelos pruridos de um Estado de Direito, mas exatamente pela supressão dele. Como circulou por um dos comunicados da época era preciso realizar "La destrucción total..., inmisericorde y completa" do inimigo.

A democracia latino-americana, planta de natureza fragilíssima, viu-se assim, nos anos 60 e 70, impugnada tanto pelos revolucionários da extrema esquerda como pela corporação militar que lhe deu combate. A tal ponto chegou a irrelevância dela na América do Sul que, por volta de 1973-6, somente a Colômbia e a Venezuela mantinham-se obedientes a constituições liberais. Todos os demais paises passaram a ser governados por regimes militares, mais ou menos discricionários.

Marxistas e peronistas

Escudo dos Montoneros
A primeira organização extremista com proposta de travar um combate até as suas derradeiras conseqüências foi o PRT (Partido Revolucionário de los Trabajadores), fundado em 1965 por Mário Santucho, Rodolfo Matarollo e Enrique Gorriaran Merlo. O trio que iriam compor a futura Junta de Coordinación Revolucionária. Tratava-se de uma agremiação trotsquista, filiada à IV Internacional. Todavia, após algumas tentativas frustradas de ação guerrilheira, foi somente em 1970, na esteira dos violentos eventos sucedidos em Córdoba contra a ditadura do general Ongania, que o PRT decidiu lançar mão do seu braço armado, o ERP (Ejercito Revolucionário del Pueblo). Esse era uma versão platina dos grupos radicais de extrema esquerda que então proliferava na Europa e na América Latina (*), cuja fundação deu-se no V Congresso do PRT realizado em 1970, como "uma organização de massas para a guerra civil... dirigida contra o Estado burguês e seu exército", os odiados "gorilas".

(*) Brigadas Vermelhas, na Itália; os Tupamaros, no Uruguai, grupo Baader-Meinhoff, na Alemanha Ocidental; Var-Palmares, no Brasil, etc...

A radicalização do peronismo

Aproveitando-se da fragilização da ditadura militar, abalada pelo El Cordobazo (levante de metalúrgicos e estudantes que se estendeu de 14 a 29 de maio de 1969 numa cidade do interior que acolhia as grandes industrias de automóveis) foi a vez da juventude peronista decidir-se pelas armas. A inspiração ideológica veio-lhes de um ex-deputado chamado John William Cooke (que apesar do nome era argentino), um teórico dos anos 60 ligado a Che Guevara, que colocara o justicialismo ("fato maldito dentro do país burguês") no mesmo patamar de outros movimentos de emancipação nacional daquela época, tal como o fidelismo em Cuba ou os vietcongs no Vietnã, exigindo que se convocasse as massas para a insurgência. Cooke, num abuso teórico, cometera a proeza de reorientar uma organização política aparentada com o fascismo e o populismo no sentido de alinhá-la com a esquerda revolucionária.

Atendendo-lhe o chamamento, vários bandos guerrilheiros formaram-se na ocasião. Entre eles as Fuerzas Armadas Peronistas (FAP); Fuerzas Armadas Revolucionarias (FAR); e o mais famoso de todos: Los Montoneros, fundada por Mário Firmenich e Hugo Vaca Narvaja.(*).

(*) O termo "montonero" deriva dos tempos da Argentina crioula, quando um caudilho, nas épocas de guerra civil, era seguido por um "montón" de gaúchos. Em síntese, significa aqueles que são os seguidores do caudilho, no caso Juan Domingo Perón, que se encontrava exilado na Espanha.

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