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História - Século XX
SÉCULO XX

Mussolini dá os sinais

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» Estranha Aliança
» Mussolini dá os sinais
 
Como sinal da sua estratégia de consolidação do poder fascista o duce ordena, em 1923, que o ensino religioso seja implantado nas escolas públicas de toda a Itália, bem como se agravaram as sanções judiciárias para quem ofender a religião e os padres. Os sinais de simpatia estavam dados. Mussolini foi hábil, pois, ao adotar parte do programa do Partido Popolare, deixou-o sem razão de ser e, em 1926, ele foi extinto. O seu líder, Don Sturzo, emigrou, amargurado, para o exterior, pois o Vaticano, cada vez mais simpático a Mussolini, não se mostrou muito interessado em assegurar sua continuidade.

Aliança do César fascista com o Sumo Pontífice

Pio XI em colóquio com Mussolini ( fevereiro de 1929)
Os motivos dessa aproximação, cada vez mais intensa, são simples: o ditador via na Igreja Católica a última representante do imperialismo romano e, como desejava reviver o espírito expansionista dos Césares, nada melhor do que contar com o apoio do Catolicismo. O novo César queria ocupar o espaço espiritual já estabelecido há séculos pelo trabalho de catequese da Igreja, logo bastava fazer algumas concessões ao Papado para que o sacerdote católico estendesse a mão ao legionário fascista para assim, em conjunto, realizarem um projeto de restauração: com isso o antigo totalitarismo teocrático aliava-se ao novo totalitarismo laico para fazer reviver as glórias da Roma Imperial. Provavelmente também seduziu Mussolini a idéia romântica de que ele fosse um Cola di Renzo (1313-1354) ressurgido do passado. Um aventureiro que, em nome do papa Clemente VI, de quem fora notário e tribuno, implantara uma ditadura em Roma, a partir de 1344, na tentativa de reerguer a grandeza do antigo império.

As razões de Pio XI para buscar uma aliança também são claras. O fascismo, de certo modo, era a última oportunidade da Igreja Católica para voltar a exercer influência sobre a sociedade civil. Desde a adoção universal da política liberal de separação do Estado e da Igreja, nenhuma outra oportunidade para o restabelecimento do poder religioso havia surgido.

A isso se somou o arraigado anticomunismo da Igreja Católica. Pio XI, quando era núncio na Polônia, mobilizara-se junto ao general Pilsudski para repelir os soviéticos das portas de Varsóvia em 1920. Desde então, o papa entendeu ser o fascismo uma "barreira contra o comunismo" e, portanto, um aliado tático da Igreja Católica em curto prazo e um instrumento estratégico em longo prazo.

As negociações finais foram encabeçadas pelo próprio duce. A Concordata estabeleceu os seguintes pontos fundamentais: 1) o Estado Fascista reconhecia a autonomia da hierarquia eclesiástica como uma sociedade auto-regulada e privilegia¬da dentro da sociedade nacional; 2) transferia do Estado para a Igreja o controle dos casamentos entre católicos; 3) Impunha o ensino obrigatório da dou¬trina católica em todos os centros de ensino secundários e nas escolas elemen¬tares. Além disso, o Estado reconhecia todas as organizações relacionadas com a Azione Cattolica - a principal instituição católica a atuar na sociedade civil.

O Vaticano ainda foi beneficiado com 750 milhões de liras a título de indenização pela perda dos estados pontifícios, ocorrida em 1861-2, bem como teve direito a usufruir de títulos de renda correspondentes a um bilhão de liras ao interesse de 5%.

Os resultados imediatos foram tão satisfatórios que Pio XI exultou e não se conteve em afirmar que o duce havia sido enviado pela Providência, segundo suas próprias palavras "siamo stati anche dall'altra parte nobilmente asseccondati. E forse ci volveva anche um uomo comme quello cheia providenza chi a fatto incontrare". Aos olhos do povo italiano e dos católicos do mundo inteiro, Mussolini, mesmo sendo um ditador, fora legitimado pelo Papa.

Críticas e resultados dos Tratados de Latrão

B.Croce, o grande liberal crítico do Tratado de Latrão
Críticas também surgiram. No Senado, que ainda funcionava com relativa liberdade, ergueu-se a voz de Benedetto Croce, o representante máximo da inteligência liberal italiana que condenou a situação esdrúxula de existir dentro do Estado Italiano, uma casta sacerdotal dotada de privilégios especiais. Igual manifestou-se o pensador marxista Antonio Gramsci, que cumpria uma pena de vinte anos na Penitenciária de Turi. De maneira contundente registrou ele em seus cadernos a seguinte observação: "Para compreender bem a posi¬ção da Igreja na sociedade moderna, é preciso compreender que ela está dis¬posta a lutar só para defender as suas liberdades corporativas particulares, os privilégios que proclama como ligados à própria essência divina (...) não muito mais; ela reconhece qualquer podestá de fato, e desde que ele[Mussolini] não toque nos seus privilégios, legitima-o: se, depois, os seus privilégios crescem, exalta-o e proclama-o providencial".

Os próprios fascistas não aceitaram unanimemente os Tratados de Latrão, o que levou Mussolini a fazer um discurso grosseiro da Câmara Nacional para mostrar que suas razões eram outras. "Nello Stato, la Chiesa non é soverana e non é nemmeno libera." (No Estado, a Igreja não é soberana nem muito menos livre. . .) e para aclamar seus radicais foi peremptório: "Non abbiamo rususcitado il potere temporale dei Papi; lo abbiamo sepolto". (Não ressuscitamos o poder temporal dos Papas: nós o sepultamos.)

Outros incidentes, de maior ou menor proporção, marcaram desde então as relações da Igreja com o Estado Fascista, mas a concordância papal, em conviver harmonicamente com o ditador, retirou qualquer capacidade dos grupos católicos antifascistas de resistirem ao regime. E, assim, lentamente, a Igreja Católica se viu sitiada pelo Estado Fascista.

Primeiro perdeu seu braço político laico, o Partido deI Popolo, depois foi a vez da supressão das juventudes católicas integradas pelos balilas fascistas [juventude fascista], e, finalmente, até a Azione Cattolica, deixou de ter razão de ser.


O Papa Pio XI ainda esboçou um protesto contra a submissão cada vez maior de Mussolini a Hitler, a quem criticara pela encíclica Mit Brennender Sorge, em 1937, por seus excessos pagãos. Mas aquela altura o ditador já tinha decidido então, com seus próprios pés, marchar com a Itália ombro a ombro com o Führer nazista para o desastre.

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