Educação História por Voltaire Schilling Século XX
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História - Século XX
SÉCULO XX

Estranha Aliança

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» Mussolini dá os sinais
 
Como foi possível que duas doutrinas tão opostas conciliarem-se entre si? Quem poderia imaginar o sacerdócio cristão associando-se aos milicianos do nazi-fascismo? Como o culto à força, à guerra e à pratica generalizada de violência pregada pelos direitistas em geral poderia harmonizar-se com o "Não matarás" dos Mandamentos e com o princípio ético de perdoar os agressores? Acontece que essa aparentemente estranha aliança resultou da lógica aversão que tanto o Catolicismo como o Nazi-Fascismo devotavam ao Liberalismo burguês e ao Comunismo proletário. Ao terem os mesmos inimigos, tornou-se mais fácil a concórdia entre eles - era a aplicação da conhecido dito de Maquiavel de que o "inimigo do meu inimigo é o meu amigo".

Por isso entende-se a declaração feita por Pio XII, Sumo Pontífice a partir de 1939, sobre Mussolini; "Il più grande uomo da me conosciuto, e senz’altro tra i più profondamente buoni (Me foi dado a conhecer um grande homem sem reparos e profundamente bom)".

Modernidade hostil à Igreja

Marcha de sacerdotes católicos em favor do acordo de Latrão
Pelo menos do ponto de vista da Igreja Católica não havia nenhuma dúvida de que as "doutrinas modernas" eram-lhe odiosas. Desde a Revolução Francesa de 1789, ela viu-se assaltada em seus milenares poderes, tanto espirituais como temporais. Ao promover o Estado Laico, os liberais não só lhes seqüestraram os bens como afastaram-na da cerimônia dos casamentos, das inumações dos mortos, da educação dos meninos e meninas e dos registros gerais de nascimento e óbito.

A sociedade burguesa, liberal e agnóstica, que começou a vingar pelo século 19 afora, considerava o Poder Papal como símbolo medieval do atraso e da mistificação das massas por meio do fanatismo religioso. Era necessário delimitá-lo retirando da Igreja suas funções de estado, confinando-a apenas a prestar-se ao consolo das almas (para que assim, como disse Napoleão, "os pobres evitem de matar os ricos").

Desesperada pelo avanço das forças do liberalismo e do progressismo - que se materializou na Itália por meio da política unificadora de Cavour - o Papado tomou por princípio lançar um anátema sobre tudo o que lembrasse a modernidade. Pio IX, em 1864, tornou público o Syllabus, documento pelo qual condenava o racionalismo, o naturalismo, o panteísmo, o indiferentismo, o socialismo, o comunismo, a maçonaria e o liberalismo. Tudo isso, para Sua Santidade, nada mais era senão que máscaras diferentes do Diabo.

Tendo sido Roma ocupada pelas forças da Itália unificada, em 20 de setembro de 1870, o Papa IX, injuriado, perdendo o controle sobre os Estados Pontifícios, considerou-se "constituito sotto dominazione ostile" isto é, prisioneiro do Estado Liberal italiano, a quem devotou um ódio de morte. De nada adiantaram as legge delle guarantigie, as leis de garantia, pelas quais o Reino da Itália assegurava ao pontífice não só as honras de soberano como também a garantia de imunidade na gestão do Estado do Vaticano, proporcionando-lhe uma dotação anual e a promessa de plena li¬berdade no seu afazer espiritual.

Em protesto contra a unificação nacional, os papas ficaram por cinqüenta anos (de 1870 a 1920) ausentes do balcão do Palácio de São Pedro, negando-se a dar a benção ao povo católico que por lá se concentrava.
O irônico desta singular situação é que exatamente no momento em que a Igreja perdia seus direitos temporais sobre uma série de regiões da Itália, o Concílio do Vaticano I (1869-1870) resolveu dotar o papa de infalibilidade (Sessão IV, cap. IV- O Magistério Infalível do Romano Pontífice).

As conseqüências da infabilidade

Fato que terminou carreando mais água para o moinho da discórdia entre o Vaticano e o Estado-Nacional, pois a afirmação da infalibilidade papal, ao colocar o Sumo Pontífice acima dos Chefes de Estado, era uma ameaça não só aos estados liberais, como foi considerada uma provocação à unidade nacional recentemente obtida a ferro e fogo por Bismarck na Alemanha (o IIº Reich fora fundado em 1871). O que foi entendida pelo Estado Germânico como um perigoso elemento de cisão, pois os católicos alemães ficariam divididos entre sua lealdade ao Kaiser, mortal e falível, e o Papado, eterno e infalível.

Em represália ao Vaticano, o chanceler imperial não demorou a deflagrar uma campanha contra os papistas alemães: a Kulturkampf, a luta pela cultura. Esta tinha por objetivo enfraquecer o poder da Igreja na Baviera, o estado su¬lista majoritariamente católico e que recém havia sido integrado ao IIº Reich Alemão.

De 1872 a 1886, o IIº Reich conflitou-se com o catolicismo, situação que somente se normalizou porque Bismarck desejava o apoio do Zentrum (o partido católico alemão) para que aprovasse a sua política do plano militar de sete anos (que colocava o exército sob controle do Imperador e não do reichstag, o parlamento, fazendo assim com que as armas ficassem sob o controle do monarca e não dos deputados eleitos pelo povo).

Mas não foram apenas essas as ameaças mais conseqüentes ou perigosas com as quais a Igreja Católica teve de se deparar naquela ocasião. Não devemos esquecer que o século 19 foi, não apenas o século da ascensão do liberalismo e do desenvolvimento cientifico, como o do aparecimento do socialismo e da luta sindical.

Em 1859 editou-se a "Origem das Espécies" de Charles Darwin que popularizou uma visão não-religiosa da criação e da vida biológica em geral e, uns oito anos de¬pois, em 1867, apareceu o volume I de "O Capital" de Karl Marx, apresentando uma radical crítica à sociedade burguesa, baseada no capitalismo e na propriedade privada. Ao longo do século, muitos outros tratados científicos se somaram aos de Darwin e Marx para vir a abalar o poder religioso.

Na Alemanha, o socialismo deixava de ser uma pequena seita de inconformistas radicais, concretizando-se num sólido movimento de intelectuais e trabalhadores: o Partido Social-Democrata Alemão, fundado em 1869.

A atitude política da Igreja, perante isso tudo, foi ambígua. Se na Alemanha ela apoiava o desenvolvimento de um partido católico, na Itália, ao contrário, desde 1874 ela vedara aos católicos italianos qualquer participação ativa na vida partidária do reino. Mas essa postura de voltar as costas ao mundo político não poderia durar eternamente. A Revolução Russa de 1917 e a subseqüente implantação de um Estado Ateu faria a Igreja Católica estremecer ainda mais, pois movimentos comunistas começaram a pipocar por todos os lados da Europa. Nas fábricas de Milão multiplicavam os conselhos operários e na Sicília os camponeses assediavam os latifúndios. A revolta social estava por assim dizer às portas da Santa Sé.

Finalmente o Papado foi convencido a romper com seu isolamento. A Cúria percebera a necessidade de apoiar um partido católico de massas que fizesse com que as classes populares tivessem uma alternativa aos partidos de esquerda. Para que elas fugissem às tentações de apoiarem o socialismo ou ao liberalismo, afastando-se ainda mais da Igreja.

Para cumprir com essa função surge, em 1919, o PPI (Partito Popolare Italiano), fundado pelo padre siciliano Don Sturzo, que pregava a volta do ensino religioso nas escolas bem como a supressão do ma¬trimônio civil e o retorno do casamento religioso. Simultaneamente à fundação e apoio ao PPI, a Igreja, por meio da Azione Cattolica, lançou-se no controle do movimento sindical italiano através da formação dos sindicatos "brancos", para contrapor aos "vermelhos" controlados pelo Partido Socialista Italiano. Todavia, a Igreja chegava tarde. A revolução subversiva que se expandia pelo mundo depois do colapso geral promovido pelo fim da Primeira Guerra Mundial, requeria métodos extraordinários para ser contida. De bem pouco adiantariam a água benta e as rezas para deter a nova fé do proletariado no sucesso de uma revolução mundial e na implantação futura de um Estado Proletário. Foram nessas circunstâncias extremas, de intensa luta de classes - com revoluções e contra-revoluções engalfinhando-se nas ruas de São Petersburgo, Moscou, Budapeste, Berlim, Munique, Viena e em Milão - que emergiu o fascismo como uma doutrina contra-revo¬lucionária por excelência e disposta a tudo para suprimir a subversão e a democracia.

(*) O partido Fascista foi fundado por Benito Mussolini em Milão, em 1919. No mesmo ano um sapateiro de nome Anton Drexter lançou o nacional-socialismo em Munique.

Da crítica à Igreja à aliança com o Papado

É interessante observar que a aliança entre o fascismo e o catolicismo não surgiu nos primeiros instantes. Ainda durante o Iº Congresso Nacional Fascista, realizado em Florença, em agosto de 1919, o poeta futurista Marinetti clamou pela "desvaticanização" da Itália, exigindo a conseqüente apropriação dos bens das ordens religiosas e a expulsão do Papa do país. Mussolini, por igual, iniciou-se na política como um anticlerical fervoroso, sendo que nos seus tempos de militante socialista havia afirmado, "quer à testa da Igreja esteja o jesuíta ou o modernista, sempre vemos nela a típica organização para exploração das consciências, o constante aliado do patrão, o núcleo de todas as forças reacionárias".

Pouco mais tarde, líder dos squadristi e caudilho de uma poderosa contra-revolução nacional, a situação se alterava. Em maio de 1920, antes de desencadear a Marcha sobre Roma, disse a um espantado IIº Congresso Nacional Fascista que o Vaticano representava "quatrocentos milhões de homens espalhados pelo mundo" e que uma política inteligente deveria usar essa "colossal força" para nossos próprios fins em vez de antagonizá-la!

Naquela ocasião deu-se o início da política fascista de aproximação com a Igreja Católica, que se consolidaria nove anos depois com a assinatura do Tratado e da Concordata no Palácio de Latrão.

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