|
Crise de consciência
Eis que num repente a pacata rotina dele mudou. Saindo de casa para trabalhar no começo de 1917 - ano em que ferozes e sangrentas batalhas continuavam a ser travadas no fronte ocidental entre os aliados anglo-franceses contra as forças alemãs - ele acompanhou da calçada uma ruidosa manifestação de irlandeses. Protestavam contra a execução de sir Roger Steward Casement, acusado pelo tribunal de Sua Majestade de traição e sabotagem contra a Coroa por ter ido até a Alemanha Imperial, em 1914, na busca de recursos para libertar a Irlanda do domínio britânico (em abril de 1916, dera-se o fracassado Levante antibritânico da Páscoa, em Dublin). Subitamente Yakov, em plena rua, sentiu um choque. O que fizera da sua vida? Como pudera ele, assim no mais, ter-se descartado dos seus ideais da juventude? Tempos antes, na prisão londrina, esperando a hora de ser enforcado, estivera um homem, um ex-diplomata, alguém da elite, que não se importara em entregar-se ao carrasco em nome da causa que abraçara. Parecia que o fantasma de Casement saíra, com o pescoço quebrado pela corda, pelos ares para vir espicaçá-lo, ferindo-lhe a consciência. Estonteado, passou o dia zanzando pelas ruas de Londres como se fora um zumbi, lamentado a existência de filisteu acomodado que estava levando. Na volta, abriu-se para a mulher. Tinha que retornar a ativa. Acontecimentos sensacionais estavam por vir e ele, em nome dos seus ideais, não poderia ficar de fora. De fato, quando a revolução russa de fevereiro de 1917, a que derrubou o czar Nicolau II, espalhou esperanças para todos os lados, Yakov, tomado de profunda nostalgia, despediu-se da mulher e da filha e jogou-se para dentro do furacão. Antecedera Lênin em Petrogrado em pouco menos de duas semanas. Este, em seguida ao saltar na Estação Finlândia, lançara as famosas Teses de Abril: os verdadeiros revolucionários não deviam colaborar com o governo provisório do príncipe Lvov recém implantado, moderado e excessivamente burguês. A guerra deveria ser encerrada logo. A revolução que estava na sua etapa burguesa devia encaminhar-se para a fase socialista. O proletariado chegaria ao poder não através de uma República Parlamentar, mas pelos sovietes, os conselhos de deputados operários e soldados. Tudo isso acompanhado pela exigência da reforma agrária, nacionalização das industrias e minas e pela unificação bancária nas mãos do estado. Era uma declaração de guerra ao trôpego governo que estava emergindo dos escombros do regime czarista e um chamamento à revolução radical. Enquanto Lênin reunia-se no Palácio Smolny com o comitê central do seu pequeno partido, Yakov apresentou-se ao soviete do regimento da sua terra natal, a Letônia, que ficaria famoso como o Krasnie Datbscskie Strelki, os Fuzileiros Vermelhos Letões, ou simplesmente strelnieki. Não tardou em desempenhar-se como bom orador. Dotado de certa cultura e boa voz, apesar da sua pequena estatura, ele embalava os soldados com sua oratória cada dia mais extremada. Impondo férrea disciplina aos seus, logo o seu trabalho destacou-se naquele caos em que a Rússia inteira havia mergulhado. A Guarda Letoniana deitou fama como fiel devota dos bolcheviques e um dos poucos corpos militares de confiança à disposição integral de Lenin.
|
|
|
|
Yakov Peters (1886 – 1838)
|
Alguns dias depois de ter capitaneado o levante de 25 de outubro de 1917 (segundo o antigo calendário pré-revolucionário), que derrubou o governo provisório, Lenin, que não conservava nenhuma ilusão de que a revolução que agora ele liderava seria aceita por todos, determinou a criação da VCHEKA. Abreviatura de Vserossiiskaia chrezvychainaia komissiia po borbe s kontrrevoliutsiei i sabotazhem, ou "Comitê extraordinário pan-russo de combate à contra-revolução e sabotagem", logo simplificado para CHEKA, que começou a entrar em ação no dia 20 de dezembro de 1917. O motivo daquela decisão extrema, de inesperadas conseqüências históricas, fora um relatório de um companheiro dele Vladimir Bonch-Bruyevich, secretário-executivo do Conselho dos Comissários do Povo. Denunciava-o a crescente confusão e inicio de pânico entre as fileiras do partido, bem como a generalizada insatisfação popular com o regime recém instalado no poder. Lenin então teria perguntado; onde esta o nosso Fouquier-Tinville? (o tristemente famoso acusador público do tribunal revolucionário, um implacável guilhotinador, símbolo do terror na Revolução Francesa, executado em 1795). Num documento interno escrito em 7 de dezembro, ele justificara a criação da polícia política com as seguintes considerações: "Nós estamos para organizar o Terror...o Terror é uma absoluta necessidade durante os tempos de revolução...A CHEKA esta obrigada a defender a revolução e a conquistar os inimigos mesmo que sua espada eventualmente caia sobre a cabeça de um inocente."
|
|
|
|
Félix Dzerzinski (1877-1926)
|
Para dirigi-la ele convocou Félix Edmondovich Dzerzinski (1877-1926), um dos mais íntegros quadros do partido bolchevique. Um homem a lá Robespierre, isto é, alguém considerado como incorruptível. Chegaram até a compará-lo ao monge Jerônimo Savonarola, o tirano puritano da Florença medieval, outros com o Grande Inquisidor de Dostoievski. Seja como for, o nome de Dzerzinski, apelidado de "Félix de ferro" (apesar da saúde debilitada pela tuberculose), passou a provocar medo por onde circulava. Certamente, naquele momento dramático, Lênin não pôde ter consciência de que estava lançando as bases de um dos mais terríveis pilares do Estado Soviético. Uma instituição policial tão poderosa e atemorizante que a estátua do seu primeiro diretor foi uma das últimas a ser removida da frente da praça Lubyanka, onde fica o edifício do antigo QG da KGB (última designação da policia política soviética antes da sua supressão) em Moscou, quando o regime, depois de mais de 70 anos de existência, caiu em 1991.
Para fazer parte da comissão dirigente da CHEKA, Dzerzinski selecionou aqueles que lhe pareciam mais dedicados à causa. Viriam da elite do partido. Integrantes que, além de corretos e muito trabalhadores, somavam fanatismo e fidelidade absoluta a Lênin: tais como Vyacheslav Menzhinski (um aristocrata de origem polonesa tal como era Dzerzinski), Genrikh Yagoda (um ex-farmacêutico que se especializara no uso de venenos), o ex-comandante dos strelnieki, Yakov Peters, “o pequeno Peters”, e um outro conterrâneo dele chamado Martin Latsis. Cada um deles ficou encarregado de uma das cinco seções em que a organização viu-se dividida: a de investigação, a especial, a operacional, a de comando e a de subsistência. Estes homens seriam os mais temidos carrascos da revolução de 1917. A partir de março de 1918, a contra-revolução encabeçada por ex-generais do regime czarista (Denikin, Yudenich e o barão Wrangel) começou a se espalhar pela Rússia inteira. Leon Trotski, um ex-integrante do partido menchevique que aderira a Lênin um ano antes, foi nomeado pelo Comitê Central em janeiro de 1918 como comandante-em-chefe do Krasnaya Armiya, o Exército Vermelho, para lhes dar combate. Todavia as maiores ameaças diretas à vida que os chefes bolcheviques passaram a sofrer vieram da própria esquerda.
|