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História - Século XX
SÉCULO XX

Europa, o Império do Centro

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Peter Sloterdijk, o mais original e irreverente pensador alemão da atualidade, assegura que a Europa está para deixa de lado a Era da Letargia. O período de meio século em que, de 1945 a 1995, em que foi dominada pelas duas potências extra-européias, os Estados Unidos e a ex-União Soviética. Finalmente livre, a Europa tem como tarefa maior romper com o legado imperialista que a Roma dos Césares lhe deixou.

A sua façanha agora, no momento em que se aprova a constituição da União Européia, é “desconstruir” a herança expansionista e guerreira para vir a transformar-se numa entidade pacífica de estados-membros federados que formarão algo novo, uma Europa que se afirme como um não-império.

O Império do Centro

O Círculo Imperial Carolíngeo
Durante mil e quinhentos anos os europeus acreditavam pertencer ao Império do Centro (denominação usada pelos chineses de outrora para definir sua posição hegemônica na Terra), um promontório à cavaleiro do hemisfério norte destinado a reger as coisas do mundo. De Colombo a Hitler acreditavam-se “representar o foco geopolítico e ideopolítico do globo terrestre” (Peter Sloterdijk – Se a Europa despertar, SP., 2002, pág. 9).

Viam-se como um “povo eleito” atarefado em levar à civilização e o cristianismo às maiores distâncias do planeta. Ser europeu, para o pensador alemão, era acima de tudo sentir-se herdeiro de Roma, ser um imperialista.

O desaparecimento oficial do Domínio dos Césares no século V não havia soterrado neles a idéia de império. Os europeus, em diversos outros momentos, sempre tentaram restaurar o cetro de César Augusto. Fosse como Império Carolíngeo, como Sacro Império Romano-Germano, como o Império Universal de Carlos V e seus descendentes do ramo espanhol ou austríaco, fosse como Império Britânico, Napoleônico, ou ainda como o império fascista de Mussolini ou o desastroso Terceiro Reich de Hitler. O desejo deles sempre foi o ressuscitar o poder da Magna Roma.

Neste tempo todo Aachen, Frankfurt, Madri, Londres, Viena, Paris ou Berlim, capitais imperiais, rivalizaram entre si para ver qual delas era a Nova Roma, qual delas daria abrigo ao trono do César redivivo. O símbolo dos impérios europeus era sempre o mesmo: estilizações da águia romana. Na bandeira da católica Polônia e da modesta Albânia, o pássaro imperial se faz presente como símbolo nacional. Até mesmo o fascio que os antigos lictores de Roma carregavam, reapareceu no século 20 no estandarte das legiões de Mussolini. Igual se dava na Europa Oriental, onde a ave negro bicéfalo de Bizâncio ressurgia para engalanar o escudo do czar no Kremlin de Moscou.

Os eleitos de Deus

Viam-se, os europeus, como a elite do mundo: o creme do creme. Um pequeno grupo humano selecionado pelo destino divino ou pela história para dominar os oceanos e os outros continentes, determinando com seus costumes, seu comércio e seus canhões, como o restante da humanidade avassalada a eles deveria se comportar.

A cartografia do planeta era feita pela Europa. Nada em estranhar-se, pois quando, mal encerrada a viagem de Colombo, o papa Alexandre VI, pelo Tratado de Tordesilhas, assinado em 4 de maio de 1493, dividiu o globo entre os príncipes de Portugal e de Espanha, ou ainda que a divisa do Império de Carlos V fosse plus ultra (“sempre mais”), palavras com que suas fragatas enfrentavam os mares do mundo.

Todavia este Império do Centro destoava do chinês num aspecto fundamental. O Reino Celestial era estático, vivia na Cidade Proibida de Pequim como se fora um planeta isolado do restante do cosmo. O Império do Centro europeu, bem ao contrário, queria abraçar e tomar para si o mundo inteiro. Era um planeta que se transfigurou em centro do cosmo, tornando-se a Estrela Magna do mundo. De Dom Manoel o Venturoso à rainha Vitória ou ao rei Leopoldo da Bélgica, milhões de seres humanos espalhados pela Terra viraram súditos de monarcas europeus.

Milhões nasceram e morreram dando o seu suor e seus frutos a soberanos longínquos que habitavam palácios em Lisboa, Londres ou Bruxelas. Tudo isso fazia com que até o mais humilde cidadão europeu, mesmo o mais pobre deles, andasse pelas ruas com a sensação de ser senhor de tudo e que os seus imperadores se deixassem ser retratados como Carlos V o foi certa vez: com um Atlas carregando a imensa esfera nas costas.

Justamente isso, esta “predisposição genética” da Europa querer sempre ser conquistadora, foi a sua perdição. Por todos lados e há qualquer momentos da História brotava um novo império querendo submeter a si o universo por inteiro. O resultado disso, dessa incontida ambição, gerou uma guerra interminável entre os estados-nacionais europeus rivais cujo clímax foram as duas catástrofes mundiais, a de 1914-1918 e a de 1939-1945, ocasião em que os europeus experimentaram do seu próprio veneno, visto que o gene agressivo do imperialismo voltou-se contra eles mesmos quase os levando a auto-destruição, ou a “ auto-mutilação” como prefere Sloterdijk.

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