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A dominação ocidental
"A Inglaterra tem de cumprir na Índia uma dupla missão: destruidora, por um lado, e regeneradora, por outro. Tem que destruir a velha sociedade asiática e assentar as bases da sociedade ocidental na Ásia." Karl Marx - Futuros resultados do domínio britânico na Índia, 1853
Desde a chegada de Vasco da Gama a Calicute em 1498 até a metade do século XVIII, durante os primeiros 250 anos da expansão colonialista sobre a Ásia, os mercadores portugueses, holandeses, franceses e ingleses, estabeleceram-se em modestas feitorias comerciais nas costas da Índia. Nenhum deles tinha recursos financeiros e humanos para empreender a conquista do subcontinente. Por volta de 1750 a Companhia Inglesa das Índias Orientais (British East Índia Company), determinou-se a ampliar sua influência na região de Bengala, no nordeste da Índia. Explorando as divisões internas dos indianos, “um país”, como disse Marx, “onde não só lutam muçulmanos contra hindus, mas também tribo contra tribo, casta contra casta; uma sociedade cujo entrelaçamento se baseia numa espécie de equilíbrio resultante da repulsão geral e do exclusivismo constitucional de todos os seus membros” , a Índia estava condenada a ser presa fácil dos conquistadores europeus. Em 1757 o tenente Robert Clive teve uma vitória decisiva na batalha de Plassey (Palãshi), contra o nababo Sirãj-ud-Dawlah, governador de Bengala, fazendo com que a Cia. Inglesa se tornasse um poder hegemônico sobre boa parte da Índia. Nos cem anos que se seguiram, a empresa britânica através de pequenas guerras, acordos com marajás e estimulo a governos locais colaboracionistas (indirect rule), terminou por dominar a quase totalidade do país. O domínio da Cia das Índias durou até a Revolta dos Cipaios (Sepoy Mutim) de 1857-8, quando o controle sobre o Hindustão passou a ser exercido diretamente por funcionários públicos ingleses e não mais pelos agentes da companhia. O antigo sistema de produção artesanal aldeã indiano foi posto abaixo pelos modernos processos de transporte, produção fabril e consumo introduzidos de fora. Para abalar a propriedade comunal tradicional os ingleses criaram uma nova classe de proprietários rurais os zamindars que possuíam-nas, as terras, em caráter privado e arrendavam-nas aos ryots, os camponeses. Não deixa de ser impressionante, e ao mesmo tempo revelador da fragmentação e atomização da sociedade indiana, o fato dos colonialistas conseguirem a submissão de uma população de quase 400 milhões de indianos com apenas 1500 funcionários do Indian Civil Service. Graças as suas inúmeras e diversificadas riquezas, a Índia foi considerada a “jóia do império” pelos comerciantes e altos funcionários de Londres, cabendo a Rainha Vitória, depois da dissolução da companhia monopolista tornou-se, a partir de 1858, assumir o título de Imperatriz das Índias, governando-a por meio de um vice-rei com sede em Calcutá.
O movimento pela independência
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Explosão de ódio religioso entre hindus e muçulmanos, 1948
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"Na luta justa que estalou desejamos combater/ Segundo o costume antigo/Que só se lute com palavras, que só se combata com palavras." Mahãbhãrata, epopéia hindu
O movimento pela independência da Índia no século XX centralizou-se na personalidade de Mohandas Karamchand Gandhi, chamado de Mahatma (o iluminado) por seus seguidores. Gandhi, um advogado de formação britânica que nascera no lugarejo de Porbander, no Gujarat, no dia 2 de outubro de 1869, iniciou a mobilização do seu povo em favor da svaraj, a autonomia indiana, depois da 1ª Guerra Mundial, em 1919. Inspirado nas doutrinas orientais e em alguns escritores ocidentais como León Tolstoi e Henry Thoreau, Gandhi optou por lutar contra o colonialismo por meios não violentos (satyagraha), apelando para a desobediência civil, para as greves, jejuns e ações de impacto, como sua marcha contra o imposto do sal realizada em 1930. Gandhi foi o único estadista do nosso século que andando apenas com um cajado, lutou somente com palavras e atos de desobediência e não com balas e canhões. A Liga muçulmana, por sua vez, liderada por M.A. Jinnah, fundada em 1906, aceitou assinar um acordo - o Tratado de Lucknow, de 1916 - com o Partido do Congresso indiano (fundado em 1885) , para somar esforços junto com a maioria hindu para por igual engajar-se na luta pela independência. O tratado de 1920 pavimentou o caminho para que o Movimento do Califado dos muçulmanos se unisse ao Movimento de Não-cooperação de Gandhi (*). Todavia, as relações entre muçulmanos e hindus sempre foram de desconfiança. Com a aproximação da independência ao final da 2ª Guerra Mundial, os muçulmanos passaram a temer cada vez mais pelo seu destino como minoria religiosa numa Índia majoritariamente povoada pelos hindus. Solidificou-se então entre eles a idéia inspirada pelo poeta islâmico Iqbar nos anos 30 de formarem um país separado, o Paquistão. Jallianwallah Bagh (*) O fato trágico que aproximou muçulmanos e hindus foi o Massacre de Amritsar ocorrido em 13 de abril de 1919, ocasião em que o exército britânico, comandado pelo general Dyer, atirou numa multidão de 10 mil pessoas que se concentrava no templo sagrado dos siks no Jallianwallah Bagh , naquela cidade, causando 400 mortes e 1200 feridos. A tragédia do Tempo Dourado de Amristsar foi o trauma nacional que, além de marcar a ruptura psicológica dos indianos com os britânicos, forjou a aliança entre os nativos das mais diversas crenças no sentido de unirem-se a favor da independência.
"onde o conhecimento é livre/ onde o mundo não partiu-se fragmentado por loucos muro/ onde a límpida corrente da razão não perdeu-se no árido deserto de areia habitado pela morte/ deixai-me despertar, meu Pai, neste lugar, neste céu de liberdade". R. Tagore - Gitãnjali, 1912.
O governo trabalhista inglês, vitorioso nas eleições de 1945, acreditou ter chegado a hora de encerrar com o período imperial da Grã-Bretanha. Para tanto enviou à Índia Lord Mountbatten como vice-rei autorizado a negociar uma transição pacífica do domínio colonial com os representantes do povo indiano. O anúncio de que os britânicos estavam enfim de partida e a excitação com que foi tomada a liderança muçulmana em logo conseguir a autonomia do Paquistão fez com que se desencadeasse grandes matanças entre os seguidores das fés rivais. As cidades das regiões do Noroeste e do Nordeste encheram suas ruas de gente chacinada. Trens inteiros que se deslocavam para o Paquistão ou dele voltavam, carregavam mortos. Estima-se em mais de um milhão de vítimas na curta mas mortífera guerra religiosa de 1947-8. Isto convenceu os próprios líderes indianos como Nehru, Patel e mesmo Gandhi, considerado o “pai da nação”, da necessidade de aceitar a partilha da Índia. A matança que muçulmanos e hindus promoveram mostrou ser impossível deles viverem sob a mesma bandeira. Iniciou então o que alguns chamaram de “o maior divórcio da história”. No próprio dia da independência, em 17 de agosto de 1947, deu-se a divisão. Os muçulmanos ficaram com duas regiões para si. Uma no noroeste e outra no nordeste do subcontinente. No vale do Indo formou-se o atual Paquistão, e no vale do Ganges, próximo da sua embocadura, quando o rio sagrado desemboca no Golfo de Bengala, fundou-se o Paquistão Oriental (hoje Bangladesh). Foi uma infelicidade histórica, pois justo no momento em que a Índia tão infelicitada conquistava arduamente a autonomia ocorria a sua secessão. Confirmou-se, indiretamente, os antigos temores do poeta e místico Rabidranath Tagore, morto em 1941, de que os “loucos muros internos” poderiam vir também a desgraçar o seu país. Por ter aceitado a partilha, Gandhi foi assassinado em Deli em janeiro de 1948 por um fanático nacionalista hindu, chamada Nathuram Godse. Acordou-se em que 20% dos bens nacionais ficariam com o Paquistão e os 80% restantes para a Índia. Nas bibliotecas dividiram até os volumes da Enciclopédia Britânica. Artilharam até mesmo os instrumentos das bandas marciais. Muçulmanos radicais exigiram que o palácio de Taj Mahal, construído por um rei mongol de fé islâmica, fosse levado pedra por pedra para o Paquistão. Brâmanes indianos, por seu lado, queriam que se desviasse o rio Ido, que banhava o Paquistão muçulmano, porque os sagrados Vedas surgiram nas suas margens 2.500 anos antes. Foi um acontecimento incomum na história, um divórcio monstro que envolveu o patrimônio de milhares de anos e que pertencia a uma das mais antigas culturas da terra, com 400 milhões de proprietários.
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