|
O Vermelho e o Negro: Europa no após Iª Guerra Mundial
O historiador alemão Ernst Nolte classificou o sangrento enfrentamento entre comunistas e fascistas, na primeira metade do século 20, como a mais longa guerra civil européia de todos os tempos. Iniciado com a Revolução Russa de 1917, somente terminou no fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Os Vermelhos (os comunistas, os socialistas radicais e os anarquistas) e os Negros (os fascistas, os nazistas, os falangistas, e outros), aproveitando-se das ruínas da sociedade aristocrático-burguesa européia, destruída física e moralmente pela Grande Guerra de 1914-18, travaram uma luta de vida e morte pelo controle do coração e das mentes das massas. Na verdade não foi somente uma guerra civil européia, mas sim, por seu envolvimento multicontinental, a primeira guerra civil da humanidade.
Revolução e contra-revolução
De certo modo, entende-se o choque aberto entre as ideologias da esquerda e da direita européia como uma retomada da "Guerra das cabanas contra os palácios" decretada à epoca da Revolução Francesa de 1789 e que ficara adormecida por quase um século. Ou, quando não, uma revivência secularizada das sanguinárias guerras religiosas da época da Reforma, caracterizadas pela destruição, intolerância e fanatismo. Os povos europeus, libertados dos seculares elos hierárquicos e psicológicos que os prendiam às antigas dinastias derrubadas pelas revoluções de 1917-18, estavam entregues à sedução dos líderes dos Vermelhos ou dos Negros. O ponto de partida dela, da Onda Vermelha, deu-se com o colapso do império czarista, quando os bolcheviques liderados por V.I. Lenin tomaram o poder em Petrogrado em 25 de outubro de 1917. Foi o sinal para uma série de insurreições que explodiram nas principais praças da Europa de então. O término da Grande Guerra de 1914-18, ocorrida finalmente com a assinatura do Armistício de Compiège, em novembro de 1918, somada à intranqüilidade política e econômica que veio no seu rastro, abriu caminho para que pequenas agrupações de extrema esquerda, em geral apoiadas por soldados e marinheiros rebelados, resolvessem também seguir os bolcheviques e fazer-se governo em diversas cidades (Berlim, Munique, Budapeste). Nos centros mais afastados da guerra, como Barcelona, Turim e Bologna, uma onda de greves violentas anunciava os novos tempos de tumultos. De Berlim a Pequim, o mundo inteiro entrava em convulsão. O embate entre a Revolução e a Contra-revolução, ao contrário da época da Revolução Francesa de 1789, espalhou-se pelo planeta inteiro.
A crise da Social-democracia alemã
Os partidos socialistas europeus tradicionais, desgastados com o apoio que deram à guerra, viram-se impotentes em impedir o cisma provocado por facções mais radicais que, entusiasmados pelo bolchevismo, queriam a revolução social e política para já. O caso da social-democracia alemã foi exemplar.Até 1914, a Alemanha, o mais estratégico dos países europeus, possuía o mais bem organizado e poderoso partido socialista do Ocidente inteiro. Ligado a Marx, e mais ainda a Engels, o SPD (Sozialdemokratischen Partei Deutchlands), fundado em 1875, contando com um quadro exemplar de teóricos e intelectuais (August Bebel, Eduard Berstein, Karl Kautsky, Franz Mehring, Rosa Luxemburgo, etc..,) concentrava a esperança de liderar no futuro a tão almejada sociedade socialista. O SPD não só era a "vanguarda" da Segunda Internacional Socialista, fundada em 1889, como agia dentro do IIº Reich alemão como se fora um Estado à parte. Controlando uma enorme rede de publicações de livros, jornais e de revistas, dirigindo uma série de escolas para filhos de operários, chegou até mesmo a fundar uma universidade: a Universidade do Trabalho, em Berlim. Todavia, apesar de seus compromissos em favor do pacifismo e dos seus propósitos anti-belicistas, não conseguiu resistir a maré chovinista e patriótica que inundou a Alemanha no verão de 1914 em apoiou a entrada do IIº Reich na Grande Guerra. Perante o desafio da história, o partido "ruiu de maneira completa e ignominiosa" (E.Etinger – Rosa Luxemburgo, p. 221). Para espanto dos partidos congêneres de todo o mundo, os deputados socialistas presentes no Reichtag, o parlamento alemão, além de cancelarem um apelo em favor de uma Militärstreik, a greve militar, liderados por Hugo Haase (que disse que eles não podiam abandonar a mãe-pátria naquele momento, ameaçada pela "horda bárbara" vinda da Rússia), votaram pelas verbas de guerra. Deixaram-se levar pelo "mortífero senso de obediência dos alemães". Os poucos representantes que se opuseram a isto, como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, foram encarcerados, acusados de alta traição à pátria.
A grande desavença anterior que separara os sociais-democratas em dois bandos, ocorrera durante a polêmica sobre o revisionismo, desencadeada anos antes, na década de 1890, ocasião em que Berstein, afastando-se do apelo subversivo de Karl Marx, propôs o abandono da revolução social futura em nome de conquistas concretas e efetivas para os trabalhadores e para o povo em geral, como o voto universal e leis sociais conseguidas dentro da luta parlamentar. A situação criada pelos acontecimentos de 1914 foi bem pior, visto que a posição oficial e convicta dos sociais-democratas fora sempre de "Guerra à guerra". O Estado de Beligerância, o apelo ao sentimento nacional feito pelos governos europeus, o rufar dos tambores de guerra rapidamente sufocou a defesa do Estado de Paz e as veleidades internacionalistas dos socialistas europeus. Converteram-se, pois, ao Sozial-Chauvinismus, como o patriotismo extremado deles foi chamado pelos socialistas mais à esquerda e que em seguida romperam com o SPD. Num piscar de olhos, os lideres socialistas europeus tornaram-se massa de manobra do militarismo e da guerra imperialista, joguetes da vontade dos generais. Como escrevera Rosa Luxemburgo, num tom sarcástico, "Trabalhadores de todos os países uni-vos em tempo de paz, mas na guerra cortai vossas gargantas" ("A Reconstrução da Internacional", in Die Internationale, abril de 1915). Quando a guerra começou a ir mal para o IIº Reich, a partir de 1916, a Social-democracia rachou-se, formando a facção do Partido Independente dos Sociais-democratas alemães, USPD (Unabhängigen Sozialdemokratischen Partei Deutschlands) e uma outra, mais extremada, a Liga Espártaco (Spartakusbund), sob liderança de Rosa Luxemburgo e Karl Liebcknecht. Deste modo, o "partido potência" de antes da guerra, dividira-se em três partes: os que seguiam fiéis à direção tradicional, os "independentes", e os "espartaquistas".
|