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POLÍTICA

A Casa da Liberdade e os desafios do futuro

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Ainda que existam favelas no Rio de Janeiro ou moradias sórdidas em Nova York, nunca tantos de nós foram tão livres. A Casa da Liberdade, isto é, o conjunto das nações democráticas, abriga hoje mais da metade da população da terra. Além dos países anglofônicos (EUA,GB,Canadá,Austrália, Nova Zelândia,África do Sul, e Índia), os habitantes da América Latina por igual estão acolhidos nela.

De um mundo livre ao outro

Estátua da Liberdade (Nova York)
A grande tarefa da humanidade para o futuro, assegura o historiador Timothy Garton Ash, de Oxford, é que precisa mover-se do mundo até agora livre para um outro mundo livre que nunca existiu. Esta onda de liberdade que parece alastrar-se para todos os cantos da terra, começou de fato com a Revolução dos Cravos em Portugal, no ano de 1974.

Naquela ocasião, enquanto o establishment norte-americano entendia a queda do neo-salazarismo (1968-1974), derrubado pelos jovens militares egressos das guerras colônias africanas, como uma "derrota do Ocidente", alguns poucos intelectuais, tal como foi o caso de Helmut Sonnenfeld, perceberam-na como o começo de uma nova era de liberdade. Fato que se confirmou quase em seguida com o fim da "ditadura dos coronéis" na Grécia (1967-1974), e do franquismo na Espanha (1936-1975).

Multipolaridade ou unipolaridade?

Neste mundo deslocando-se para cada vez mais liberdade, é importante situar a posição dos Estados Unidos. O fim da União Soviética fez por abalar a coesão Ocidental que enfrentava os russos via OTAN, abrindo espaço para um novo tipo de relacionamento entre os norte-americanos e seus aliados europeus que tendem a defender a idéia de que com o fim da bipolaridade (EUA versus URSS), o mundo agora marcharia para a multipolaridade, isto é para a existência de vários outros poderes (Europa, Rússia, China, por exemplo). Todavia não é esse o pensamento vigente hoje em Washington.

O atual governo republicano acha-se na posição de vencedor da Guerra Fria afirmando-se no fato de não haver no horizonte nenhuma outra potência que possa se equiparar ao potencial bélico e atômico dos Estados Unidos. Por conseguinte, a atual administração acredita que o cenário internacional está sob controle de uma só nação, de uma só potência que de fato é uma hiper-potência, com poder de vida e morte sobre todas os demais.(*)

(*) Posição que demonstrou sua fragilidade na medida em que os EUA, apesar de aprovarem um orçamento de U$ 600 bilhões, estarem atolado na Guerra do Iraque.

Os desafios da globalização:

a) a luta contra o terrorismo

O ponto de partida de Timothy Garton Ash são os interesses e as preocupações econômicas e estratégicas do Ocidente, particularmente do eixo formado pelos Estados-Unidos e a Grã-Bretanha. Isso é que explica ele colocar no topo da lista dos grandes desafios à globalização da GWOT (Global War on Terror), isto é a Guerra Global contra o Terror, liderada pela atual administração em aliança com o governo britânico.(*)

O terrorismo que ele faz referência é o de origem Jihadista (os "guerreiros santos"), que não possui agenda nacional nem defende um espaço nacional específico, mas parece-se a uma internacional do terror atacando os interesses anglo-saxãos e dos seus aliados em várias partes do mundo. Ash entende o Jihadismo como produto de um fracasso. O malogro das lideranças do Oriente Médio, particularmente dos regimes nacional-socialistas, em modernizarem seus países e integrarem as massas no mundo da política. É por igual produto da humilhação em que o mundo árabe se encontra depois de sucessivas derrotas frente a Israel e Estados Unidos.

Ao mesmo tempo aquela região conhece uma explosão demográfica que fará com que ao redor do ano de 2020, os 22 países que a formam abrigarão uma população de 410 a 460 milhões de habitantes, sendo que a grande maioria deles será de jovens com menos de 30 anos e que certamente desejarão emigrar para a Europa.

(*) Seguramente para o mundo muçulmano, composto por mais de um bilhão de pessoas, a maior ameaça a ele é a política externa dos Estados Unidos e não o terrorismo.

b)Como enfrentar a Renascença do Extremo-Oriente?

Está em andamento nos anos que correm um enorme deslocamento de poder. O Ocidente assiste o espantoso crescimento dos dois grandes países do Extremo-Oriente; a China e o Japão. Ambos formam com os Tigres Asiáticos (Taiwan,Coréia do Sul, Malásia e Cingapura), um novo complexo econômico cuja força gravitacional atrairá inevitavelmente tudo o mais.

A Índia, associada a eles, gradativamente se distancia ainda mais da hegemonia ocidental. Além disso, dando passos em direção a uma maior autonomia, surgiu o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), conjunto de enormes nações emergentes cujos interesses comuns fazem-nas se aproximar ainda mais, se apresentando como uma outra frente, compondo uma nova constelação de poder dentro do sistema internacional.

A questão que é colocada é como os Estados Unidos conviverão no futuro com a constante perda de influência sobre essas regiões extensíssimas, habitadas por mais de 3 bilhões de pessoas, e que parecem terem tomado o gosto pela vida melhor, mais confortável e próspera?

c) A crescente separação entre Norte e Sul

De certo modo foram os acordos antinucleares da década dos anos de 1970, e os subseqüentes tratados que tinham como meta aliviar a tensão da Guerra Fria, quem alteraram a pauta das preocupações internacionais. Foi a atenuação do confronto entre Leste-Oeste, entre a URSS e os EUA e seus aliados ocidentais, quem proporcionou o surgimento de uma outra simetria: aquela que opunha o Norte ao Sul.

O confronto ideológico entre capitalismo e comunismo, ou entre democracia liberal e ditadura do proletariado, deu espaço a um outro tipo de preocupação, a resultante da crescente diferença entre a parte Norte do hemisfério, rica, poderosa e altamente desenvolvida, e uma outra, a do Sul, assolada pela pobreza, enfraquecida pela miséria e praticamente desarmada.

Exemplo chocante disso, desta escandalosa disparidade entre os que têm e os que nada têm, pode-se verificar a olho nu em qualquer país do Terceiro Mundo, no qual os que são afortunados e prósperos tendem a viver isolados, enclausurados em condomínios privados, totalmente cercados pela miséria gritante, exposta do lado de fora dos altos muros ou cercas eletrificadas.

A diferença entre ambas partes é tão abismal que enquanto o Norte dedica-se à conquista do espaço, lançando ao cosmo naves com aparelhos sofisticadíssimos, o Sul, descalço, reduzido à enxada, mal consegue produzir alimentos e dar a mínima esperança de vida aos seus habitantes.

Se o aceleramento da globalização teria acentuado ainda mais tais diferenças, mesmo assim ela estaria longe de ser a única responsável pelo crescente desequilíbrio que se vê pelo mundo, visto que alguns grandes países do Terceiro Mundo mostraram sinais evidentes de prosperidade, como tem sido o caso do Brasil, da Índia e da China. Seja como for, esse fosso entre ricos e pobres é um dos grandes desafios futuros a serem resolvidos no longo caminhar da história da humanidade.

Timothy Ash
d) A ameaça humana a Terra.

Cedendo às preocupações dos ecologistas, Timothy Garton Ash coloca como uma das maiores preocupações futuras a questão da sobrevivência da humanidade num planeta com recursos cada vez mais escassos. As previsões feitas pelos demógrafos apontam para a existência de 8 bilhões de habitantes para o ano de 2025.

Como poderá tal massa de gente sobreviver num cenário de redução das condições gerais de vida,se já nos dias de hoje são alarmantes as emissões de CO2, ainda mais reforçadas pelo crescente desempenho industrial da Índia e da China?

Não se trata da sobrevivência do capitalismo mas sim de 8 bilhões de seres humanos que, evidentemente não poderá ter o padrão de vida que é comum entre os norte-americanos, pois o planeta não terá condições de sustenta-los. O grande desafio derradeiro, para ele, resulta em equilibrar a lógica do sistema capitalista com o crescimento sustentado num mundo cada vez mais interdependente e em meio à incontida explosão demográfica. (*)

(*) A preocupação com o aumento da população da terra parece ser um denominador comum entre os intelectuais ingleses. Tanto Paul Kennedy como Timothy Garton Ash manifestaram idêntica idéia fixa, o que entre outras coisas demonstra a persistência da doutrina malthusiana entre eles, sempre assustados com a expansão da natalidade entre os paises pobres. Entendem-na como uma ameaça aos países ricos, não somente pelo encarecimento dos alimentos, pois mais gente desejará se alimentar elevando assim o preço internacional dos grãos, como também pelos efeitos da imigração, visto que as maiores ondas de recém-chegados que atingem a Europa originam-se do Terceiro Mundo, região da terra que não demonstram ter as mínimas condições em mantê-los.

    
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