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Günther Anders e a solução violenta (parte II)
Günther Anders, na verdade Günther Stern, judeu alemão exilado por anos no Estados Unidos, retornando à Europa em 1950, recusou a oferta de voltar a dar aulas na Universidade alemã, das tantas que o filósofo Ernst Bloch lhe fez. Horrorizado com o destino que os nazistas deram aos seus durante a Segunda Guerra Mundial, não se sentia mais à vontade em percorrer as mesmas ruas e locais de estudo da sua época quando era admirador da filosofia de Edmund Hüsserl e freqüentador dos seminários de Martin Heidegger. Fixou-se em Viena. Teórico ambientalista, irrequieto, escritor prodigioso, adotando a bandeira do não-conformismo e do pacifismo, com o avançar da idade, seguindo uma vertente mais extremada da Escola de Frankfurt, revelou-se cada vez mais radical nas suas proposições no afã em deter o mundo da técnica e do consumismo.
A violência contra a esperança
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As marchas antinucleares dos pacifistas eram inúteis.
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Anders estafado, enfim, cansou-se. Não viu mais sentido em participar das passeatas contra armas ou depósitos nucleares em solo europeu, como fizera nos anos 50 e 60 na companhia do seu mentor o octogenário Ernst Bloch, e de tantos outros nomes da esquerda pacifista. Menos ainda em assinar incontáveis manifestos em favor do meio ambiente, atitudes que não redundaram em coisa nenhuma, pois não retardaram ou fizeram retroceder um palmo sequer a expansão do poder-violência sobre o resto do mundo. Rompeu então com a essência do Principio Esperança de Bloch. Alimentar a esperança, concluiu, é um tanto que se resignar; é não agir eficazmente; é iludir-se de que no futuro as coisas de algum modo se ajeitarão para melhor.A verdade é que a via pacífica, os comícios, os panfletos, as arengas, o movimento antinuclear do qual ele foi um dos co-fundadores, em 1954, não protegera a natureza nem detivera aquela marcha da insensatez. Como assegurou no seu texto Gewalt – ja oder nein: Eine notwendige Diskussion , "Violência, sim ou não, uma discussão necessária", de 1987, o protesto não-violento mostrou-se-lhe ineficaz. Definiu-se pelo que denominou de Diskrepanzphilosophie , a Filosofia da Discrepância, chamando a atenção para a divergência entre o que era tecnicamente viável e o que a mente humana era capaz de imaginar. Radicalizou. Contra a prepotência do estado detentor do monopólio do poder-violência, estimulou uma ação contrária: uma reação de legitima defesa feita por indivíduos isolados em favor da vida e da humanidade. Não havia outro recurso para salvar o planeta. Aceitando-se como "filósofo da barbárie", o seu lema centrou-se em promover "a segurança por meio da destruição dos meios de segurança". Evidentemente que seus críticos apontaram-no então como um despudorado entusiasta das práticas do bando Baader-Meinhoff, os terroristas da ultra-esquerda alemã dos anos 70, re-dirigidas em função da proteção ambiental (*). Um outro o lembrou que ele seria apontado como o responsável moral por todos os possíveis atentados eco-terroristas que viessem a ocorrer no futuro. Anders, um tanto que exasperado com a pasmaceira do pacifismo europeu, quando faleceu em Viena aos 92 anos, convertera-se num apóstolo da violência. (*) Andréas Baader e Ulricke Meinhoff, militaram, entre 1968 e 1977, no grupo anarquista RAF (Rote Armee Fraktion), Facção do Exército Vermelho, formando a dupla mais famosa do terrorismo alemão da Geração de 1968, responsável por assaltos e explosões de bombas.Ambos apareceram mortos nas suas celas na prisão Stuttgart Stammheim: Ulrike, em 9 de maio de 1976, e Andréas em 18 de outubro de 1977.
Anders, Günther – L'obsolescence de l'Homme. Paris. Encyclopedie Nuisanc, 2002.Anders, Günther – Kafka, pró e contra. São Paulo: Editora Perspectiva, 1993. Wiesenberger, Berthold - Enzyklopädie der apokalyptischen Welt: Kulturphilosophie, Gesellschaftstheorie und Zeitdiagnose bei Günther Anders und Theodor W. Adorno. Munique: Herbert Utz Verlag, 2003. Wiggershaus, Rolf- A Escola de Frankfurt. São Paulo: Difel, 2002.
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