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POLÍTICA

Günther Anders e a solução violenta

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» Günther Anders e a solução violenta (parte II)
 
Günther Anders, na verdade Günther Stern, judeu alemão exilado por anos no Estados Unidos, retornando à Europa em 1950, recusou a oferta de voltar a dar aulas na Universidade alemã, das tantas que o filósofo Ernst Bloch lhe fez. Horrorizado com o destino que os nazistas deram aos seus durante a Segunda Guerra Mundial, não se sentia mais à vontade em percorrer as mesmas ruas e locais de estudo da sua época quando era admirador da filosofia de Edmund Hüsserl e freqüentador dos seminários de Martin Heidegger. Fixou-se em Viena. Teórico ambientalista, irrequieto, escritor prodigioso, adotando a bandeira do não-conformismo e do pacifismo, com o avançar da idade, seguindo uma vertente mais extremada da Escola de Frankfurt, revelou-se cada vez mais radical nas suas proposições no afã em deter o mundo da técnica e do consumismo.

Hollywood e Herbert Marcuse

G.Anders e H. Arendt, 1929
Como tantos outros emigrados que atravessaram o Atlântico depois da ascensão de Hitler ao poder, não foi fácil a aclimatação nos Estados Unidos. O casamento com a então jovem pensadora Hannah Arendt, tal como ele uma ex-discipula de Martin Heidegger que se refugiara em Nova York, naufragou em 1937 depois de quase dez anos de convívio. Divorciado, Anders tentou a vida como roteirista de cinema em Hollywood. Fracassou totalmente. Ele, que antes chegara até a trabalhar nas fábricas, virou ascensorista para sobreviver. Foi por aquela época que, um tanto sem jeito, passou a freqüentar a casa de Herbert Marcuse, conterrâneo seu que desde 1942-3 trabalhava para o OSS (Office of Secret Services), ligado ao Departamento de Estado. Este, ao contrário de Anders, estava totalmente adaptado à vida americana.

A decisão dele de retornar à Europa foi acelerada pelo clima de perseguição maccartista desencadeado pelo Comitê de Atividades Antiamericanas nos começos da Guerra Fria. Em 1950, fixou-se em Viena não tardando em se empenhar como ativista nos movimentos pacifistas e antinucleares que se espalhavam pela Europa de então, submetida às crescentes tensões entre as duas superpotências.(*)

Em 1956, aos 54 anos, publica, finalmente, o livro que o projetou como um dos nomes de frente da literatura filosófica da contestação: Der Antiquiertheit des Mensch, “A obsolescência do homem”, livro premiadíssimo e que rapidamente atingiu sete edições. Fazendo eco do seu antigo mestre Heidegger e um tanto próximo às observações que Walter Benjamin fizera sobre a desumanização provocada pelo processo produtivo moderno, teórico com quem Anders confraternizou por um tempo em Paris à época da primeira fase do seu exílio, ele arremete contra a técnica, contra a tecnologia, entendendo-a como um novo processo de opressão.

(*) Anders nascera em Breslau, no dia 12 de julho de 1902, cidade que na época pertencia ao Império Austro-hungaro, mas sua formação intelectual foi toda ela completada na Alemanha, freqüentando o círculo Hüsserl-Heidegger.

Auschwitz- Hiroxima – Chernobyl

O templo de Genbaku, o que restou da bomba atômica de 1945.
O resultado concreto da emergência do Gewalt, o poder-violência, (associação da política com a tecnologia, acentuada no século XX), foi a racionalização da morte em massa: o campo de extermínio de Auschwitz, a bomba atômica sobre Hiroxima e, depois, a explosão acidental da usina de Chernobyl, nada mais eram do que faces diferentes do mesmo problema. A colossal e inédita concentração de forças nas mãos dos políticos e dos estados-nacionais que, num repente, intencionalmente, fazem desabar sobre os inocentes os raios e trovões de desgraças inimaginadas. Estes três macro-desastres produzidos pela ciência contemporânea (com a bomba atômica aparecendo como um instrumento todo-poderoso), somados à devastação ambiental, marcaram um rompimento histórico com tudo o que havia e se conhecia antes. Eram catástrofes-marco, erupções devastadoras que assinalavam o declínio final do homem, os cavaleiros do apocalipse da modernidade.

Além disso, com a expansão da sociedade de consumo, acelerou-se a velocidade para o caos apocalíptico embalado pela poluição dos ares e dos mares, das matas e reservas naturais outras que, envenenadas ou depredadas pelo furor consumista, lançam uma perigosa sombra sobre o devir da humanidade. Faminta, insaciável, recorrendo a energia atômica para fabricar mais automóveis e outros bens duráveis, contribui ainda mais para a "idiotização de produtos supérfluos". O resultado é que a brecha entre nações ricas e as nações pobres não cessa nunca de se ampliar, formando um quadro onde ao lado da opulência espantosa de uma parte do hemisfério, na outra, na subdesenvolvida, prolifera uma miséria obscena, escandalosa.

Técnica e Destruição

O homem contemporâneo, ao dotar a si próprio com poderes crescentemente destrutivos, ampliando sem parar o espaço da técnica, reduzia ainda mais o que sobra para o humano. E isso se deu em função de um processo histórico inaugurado pela Revolução Industrial que, priorizando a produção, provocou o deslocamento permanente do sujeito, do homem, invertendo completamente os propósitos humanistas. No nosso tempo a história encontra-se totalmente subordinada à técnica, tanto quanto o individuo se vê dominado pela máquina. É a técnica quem determina o nosso modo de ser e não ao contrário. Prometeu, que roubara o fogo dos céus para emancipar os homens, ficaria envergonhado com o resultado final do seu intento.

Um tanto como os veneráveis profetas bíblicos que arengavam contra os atos de soberba dos mortais, denunciando os delírios que os levavam à perdição e à ruína, Anders arrolou três teses fundamentais sobre a situação presente:

1)O homem não está à altura dos seus produtos; 2) produz bem mais do que pode imaginar responsabilizar-se; 3) aferra-se ao propósito de que é capaz de produzir de tudo e que portanto deve fazê-lo sem peias ou medições sobre as conseqüências disso.

O pior é que não havia alternativas no horizonte, pois o Socialismo Real, imperante por todo o leste europeu, aceitando o desafio fáustico do Capitalismo Ocidental, havia por igual entregue a alma ao diabo, aceitando a corrida nuclear e a obsessão pela produção a todo custo. Tudo anuncia um suicídio coletivo provocado pelas sociedades tecnológicas que, insanas e cegas, destroem o espaço natural sem ter nada para por no seu lugar. Estas posições dele, fizeram por que merecesse o premio Theodor Adorno da Cidade de Frankfurt-no-Meno, em 1983 (havia um traço de doce vingança neste premio visto que Adorno, que aquela altura já morrera, rejeitara 60 anos antes a habilitação de Anders na Universidade de Frankfurt quando ele concluíra sua dissertação em 1923).

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