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O imperialismo e a plebe
As modernas teorias políticas dos finais do século 19 e começos do século 20 que tentaram explicar o imperialismo, as teses de Hobson, Rosa Luxemburgo, Lenin e tantos outros mais, quase todos de filiação marxista, responsabilizam exclusivamente os grandes grupos econômicos pela expansão e agressão contra os povos mais fracos. Era o capital grosso, voraz e cobiçoso, asseguraram eles, quem arrastava seus países às guerras e às operações de conquista na África e na Ásia e onde mais desse. Coube à Hanna Arendt, cientista politica germano-americana, falecida em 1975, chamar a atenção para a existência de outros componentes no receituário do imperialismo. Entre eles, a atração popular que ele exerce.
"Nada caracteriza melhor a política de poder da era imperialista do que a transformação de objetivos de interesse nacional localizados, limitados, e, portanto, previsíveis, em busca ilimitada de poder, que ameaça devastar e varrer o mundo inteiro sem qualquer finalidade, sem alvo nacional e territorialmente delimitado e, portanto, sem nenhuma direção previsível." Hannah Arendt - As origens do totalitarismo, v.II, 1951 Bastaram apenas 50 soldados para o general inglês Reginald Dyer fazer o serviço. O povo pacifico do Punjab, que se agrupava jardim Jallian Wallah, em Amritsar - a sagrada cidade dos shiks na Índia dominada pelos britânicos -, lá se encontrava num protesto contra a continuidade da presença estrangeira no país deles. A Grande Guerra terminara em 1918, e eles, os indianos, embalados pelas promessas a favor da autodeterminação das nações do presidente Woodrow Wilson, saíram em massa para reclamar o seu quinhão. Era um domingo, dia 13 de abril de 1919, ocasião em que inauguravam o festival hindu Baisakhi, o começo da Primavera. Formigavam peregrinos em visita ao Darbar Sahib, o magnífico Templo Dourado de Amritsar. Foi então que Dyer ordenou os disparos. Que os guardas atirassem livremente sobre a gente amontoada no jardim, homens, mulheres e crianças. Conforme os cartuchos eram gastos, o general gritava que recarregassem e não parassem de despejar chumbo quente sobre o povo.
O resultado foi pavoroso. Emparedados no local, a multidão apavorada não tinha como escapar nem para onde correr. O massacre somente cessou porque esgotaram-se as cartucheiras. Na contagem sinistra das vítimas, verificaram-se 379 mortos e 1.200 feridos indianos. Foi o Bloody Sunday, o Domingo Sangrento da história da Índia. Enquanto Churchill, em julho de 1920, indignava-se no Parlamento com a estupidez do ocorrido, censurando Dyer por ter disparado naquela pobre gente, a reação da opinião pública foi outra. Em Londres acolheram o general-açougueiro de Amritsar como se fora um herói. Destituído do comando por "erro de julgamento" , Dyer alegara em sua defesa que sua intenção era provocar um "efeito moral exemplar", uma versão mais moderada do pretendido "Choque e Pavor" do secretário Donald Rumsfeld que recentemente desabou sobre os civis de Bagdá. O diário popular Morning Post, expressão jornalística do jingoísmo, angariou uma bolsa de 3 mil libras esterlinas para consolar Dyer pela reserva forçada, enquanto que o povaréu de Londres, inclusive os sindicatos operários, recolheram dinheiro para presenteá-lo com uma estupenda espada cravejada de jóias onde inscreveram "Ao Salvador do Punjab".
A aliança entre o patacão e o tostão
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H. Arendt, uma outra visão do imperialismo
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Hannah Arendt, num livro clássico (The Origins of Totalitarism, 1951) , foi a primeira intelectual contemporânea a entender que o imperialismo não se limitava ao expansionismo dos grande grupos econômicos, tal como antes entenderam Hobson, Rosa Luxemburgo e Lenin. As corporações graúdas, por mais poderosas e ambiciosas que possam ser, não têm densidade suficiente para mover uma nação inteira a favor de uma guerra de conquista ou ocupação se não contassem com a simpatia e o ardor da multidão local. O imperialismo, segundo Arendt, em qualquer tempo da história, resulta dessa esdrúxula aliança entre o patacão de ouro e o réis de cobre, entre o comandante atrás de glórias e o pé rapado em busca do saque. Fato, aliás, que qualquer historiador da Roma Antiga sabia. Quando os vencidos por Roma, trazidos em cativeiro pelos césares em triunfo, eram arrastados pelas vias da cidade, quem mais os apupava e fazia mofa dos caídos era o populacho. Psicologicamente, parece não existir nada mais compensador para quem ocupa as posições sociais mais subalternas e miseráveis do que sadicamente compensar-se humilhando e fazendo sofrer o vencido, o fraco, o prostrado que não tem mais como reagir. É uma das tantas razões dos conquistadores serem tão admirados pelo povo miúdo e nunca ter havido uma greve em toda a história contra uma campanha imperialista. De certo modo, é o que explica a impressionante adesão de americanos e ingleses à campanha militar de arrasa-Iraque desencadeada pela dupla Bush-Blair a partir de 2002. O fato dos seus pilotos e soldados destruírem as cidades árabes e boa parte da infra-estrutura delas, além de deixarem campear a pilhagem não os comove nem os demove. Todavia, ao invés deles postarem-se nas calçadas como o esbravejante vulgo romano fazia, os bons cidadãos anglo-saxãos estão em casa, bem longe do fronte assistindo tudo pela televisão. Indiferentes ou deliciados com o empenho dos seus soldados, vendo uma nação inteira batida e humilhada, celebrando a guerra com a bandeirinha da pátria na mão. Recomendamos a leitura de: Arendt, Hanna – Origens do Totalitarismo, São Paulo, Cia. das Letras, 1989,
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