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Cipião, o Africano, como modelo
O paradigma dele, o exemplo maior de varão ilustre, foi Públio Cornélio Cipião, o Africano (236-184 a.C.), o vencedor de Aníbal e conquistador de Cartago (202 a.C.). Herdeiro de distinta família do patriciado romano, Cipião unia as atribuições de um audaz comandante de armas com as sutilezas de um refinado homem culto, íntimo das artes gregas. Era destro com a espada e com a pena. Mesmo quando Cipião, desiludido com a vida pública, retirou-se para sua propriedade de Liternum, próxima à Nápoles, lembrou Cícero, ele continuou seus estudos, encontrando neles, num ócio proveitoso, o melhor caminho para ajudar a construir o Império. De nada servia à República, enfatizava Cícero, um homem de qualidades entregue à solidão da sua propriedade, cercado pelo bucólico e pelo gado, mas ausente do resto do mundo, apartado dos debates do Senado e das querelas do Fórum. O interesse público reclama gente ativa, participante das paixões sociais e políticas do seu tempo. Como ele pôs na boca do próprio Cipião "...na defesa da república, deves saber que todos os que socorrem, salvam e engrandecem a pátria têm no céu um lugar marcado e certo, no qual desfrutarão felicidade e beatitude sempiternas; porque nada é mais grato a Deus, a esse Deus que a todos governa, do que essas sociedades de homens formadas sob o império do direito, que se chamam estados, cujos legisladores , como os que a governam e conservam, partem daquele lugar a que hão de voltar um dia mais próximo ou remoto."(Da República, Livro VI, VI)
Mesmo ele tendo estudado na Grécia, entre 79-77 a.C. e, mais tarde, enviado um dos seus filhos para aperfeiçoar-se em Atenas, Cícero não deixou de posicionar-se entre os romanos como um contraponto aos gregos. Para ele a grande falha dos povos da Hélade foi a falta de espírito cívico das suas elites. Após o desaparecimento de Platão e de Aristóteles no século IV a.C., os dois últimos grandes nomes da filosofia politica ativa, o que predominou entre os gregos, submetidos pelo poder dos diádocos a serviço da Macedônia, foi o escapismo. O ceticismo, o estoicismo e o epicurismo, nada mais eram do que, usando a terminologia moderna, ideologias que procuravam justificativas para consolar os mais esclarecidos do afastamento deles das coisas públicas, da ausência de civismo. Celebravam o recolhimento, a desconfiança, a altivez solitária ou o prazer, por estarem desesperançados da vida ativa politica. Ao darem as costas às lutas pelo poder, deixaram a política entregue aos déspotas, aos tiranos e aos demagogos, que terminaram por perder a Grécia, deixando-a ser dominada por Roma. De certo modo, não fossem os fados, é possível que Cícero cumprisse um destino igual aos quem criticava. Quando em Atenas, fugido da ditadura de Sila (82-79 a.C.), visto que desaforara um acólito do ditador ao defender um tal de Roscio, ele empolgou-se com as aulas de Antícoco de Ascalão, um filosofo dissidente da escola estóica, cogitando então levar a sua vida em meio aos gregos, meditando e escrevendo. Todavia, no ano de 79 a.C., chega-lhe a noticia de Roma: Sila morrera! Chamado de volta pelos amigos e instado a assumir a vida ativa pelo próprio Antíoco, Cícero embarca para Roma. Mas antes disso, cumpriu um circuito que o levou à Rodes, à Adramitio, à Magnésia e à Caria, visitando e assistindo os notáveis oradores daquelas cidades da Grécia Jônia. Diz-se que seu mestre Antíoco, ao ver o resultado daquela aprendizagem de Cícero, teria ficado acabrunhado com o fato de que as poucas virtudes que haviam restado à Grécia, a ilustração e a oratória, estavam agora sendo transladadas definitivamente para Roma. Doeu-lhe ver que nada mais sobrava aos gregos (Plutarco – Vidas paralelas, Cícero, IV).
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