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POLÍTICA

O sistema de denúncia e espionagem

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Chigáliev
» A sociedade totalitária
» Sistema de denúncia e espionagem
 
- Chigáliev - é Vierkhoviénski quem fala - é um homem de gênio! Sabe você que é ele um gênio no gênero de Fourier, mas mais ousado que Fourier, mais forte? Reservo-lhe um papel. Foi ele quem descobriu a "igualdade"!

"Está com febre e delira; aconteceu-lhe algo de extraordinário" pensou Stavróguin, olhando-o uma vez mais. Ambos caminhavam sem parar.

- Seu manuscrito contém coisas boas — continuou Vierkhoviénski. — Inventou novo sistema de espionagem. Na sua sociedade, cada membro espiona o vizinho e é obrigado a denunciá-lo. Cada qual pertence a todos e todos são propriedade de cada qual. Todos escravos e todos iguais na calúnia e no assassínio, mas antes de tudo: igualdade

Para começar, o nível da educação das ciências e das artes será rebaixado. Um nível elevado nas ciências e nas artes é acessível aos espíritos superiores e nós nada temos que fazer com espíritos superiores! Os espíritos superiores são naturalmente despóticos e sempre causaram mais mal que bem. Será preciso bani-los ou condená-los à morte. Arrancar a língua a Cícero, furar os olhos de Copérnico, lapidar Shakespeare, eis o chigalievismo! Os escravos devem ser iguais: sem despotismo jamais houve algum dia nem liberdade, nem igualdade, mas a igualdade é boa para o rebanho, eis o chigalievismo! Ah! ah! ah! isto parece-lhe estranho? Eu sou pelo chigalievismo.

Stavróguin apressava o passo, querendo entrar em casa o mais cedo possível. "Se esse indivíduo está bêbedo, onde teria podido embebedar-se?", veio-lhe ao espírito. "Teria sido com o conhaque de ainda há pouco?".

A supressão da instrução , das ciência e das artes

Escute, Stavróguin: nivelar as montanhas é uma boa idéia, que não tem em si nada de ridículo. Sou por Chigáliev! Nenhuma necessidade de educação, temos ciência de sobra! Mesmo sem ela temos para um milhar de anos, mas precisamos de docilidade. O que importa mais ao mundo, veja você, é a docilidade. A sede de instrução não é ainda senão uma sede aristocrática. Basta ter uma família com alguma afeição, para que logo nasça na gente o desejo da propriedade. Destruiremos esse desejo: incitaremos à bebedeira, à calúnia, à delação; autorizaremos uma licença desenfreada; sufocaremos no ovo todo gênio. Reduziremos tudo ao mesmo denominador: a igualdade absoluta.

"Aprendemos um ofício, e somos homens de bem, não temos necessidade de nada mais". Eis o que responderam em recentemente os proletários ingleses. "Somente o necessário nos é necessário", tal será doravante a divisa do género humano.

Mas precisamos de agitações, e nós, os chefes, as forneceremos. São precisos chefes para os escravos. Obediência completa. impersonalidade completa; mas uma vez a cada trinta anos um Chigáliev provocará agitações e todos começarão a entredevorar-se, até certo ponto, todavia, e com o único fim de evitar o tédio. O tédio é também uma sensação aristocrática; no chigalievismo não haverá mais desejos. Para nós o desejo e o sofrimento, para os escravos o chigalievismo... .

- Escute, Stavróguin: nivelar as montanhas é uma boa idéia, que não tem em si nada de ridículo. Sou por Chigáliev! Nenhuma necessidade de educação, temos ciência de sobra! Mesmo sem ela temos para um milhar de anos, mas precisamos de docilidade. O que importa mais ao mundo, veja você, é a docilidade. A sede de instrução não é ainda senão uma sede aristocrática. Basta ter uma família com alguma afeição, para que logo nasça na gente o desejo da propriedade. Destruiremos esse desejo: incitaremos à bebedeira, à calúnia, à delação; autorizaremos uma licença desenfreada; sufocaremos no ovo todo gênio. Reduziremos tudo ao mesmo denominador: a igualdade absoluta.

- "Aprendemos um ofício, e somos homens de bem, não temos necessidade de nada mais". Eis o que responderam em recentemente os proletários ingleses. "Somente o necessário nos é necessário", tal será doravante a divisa do género humano.

- Mas precisamos de agitações, e nós, os chefes, as forneceremos. São precisos chefes para os escravos. Obediência completa. impersonalidade completa; mas uma vez a cada trinta anos um Chigáliev provocará agitações e todos começarão a entredevorar-se, até certo ponto, todavia, e com o único fim de evitar o tédio. O tédio é também uma sensação aristocrática; no chigalievismo não haverá mais desejos. Para nós o desejo e o sofrimento, para os escravos o chigalievismo... .

Imóvel, Stavróguin fitava-o atentamente, directamente nos olhos alucinados.
- Escute, desencadearemos em primeiro lugar agitações — prosseguiu com uma precipitação desesperada Vierkhoviénski. puxando a todo instante Stavróguin pela manga esquerda de sua roupa.

- Já lho disse: penetraremos até o povo. Sabe você que já somos demasiado fortes? Nossos partidários não são somente aqueles que matam e incendeiam, os que atiram com pistolas segundo a maneira clássica ou então mordem seus oficiais. Esses quando muito nos incomodam.

"Não compreendo nada sem disciplina. Sou um tratante, eu, e não um socialista ;ah! ah! ah! Escute: contei-os todos: o mestre-escola que se ri com seus alunos de seu deus e de sua pátria é dos nossos. O advogado que advoga a causa do assassino instruindo, porque este tem cultura superior à da sua vítima e que para arranjar dinheiro não podia deixar de matar, esse é dos nossos. Os escolares que assassinam um mujique para experimentar sensações são dos nossos. Os jurados que absolvem um criminoso confesso são dos nossos. O promotor que, no seu pretório. treme ao pensar que talvez não seja suficientemente liberal, esse é também dos nossos".

"Quanto aos administradores, aos homens de letras, contamos com muitos. enormemente, e sem que eles próprios suspeitem disso. Além disso, a docilidade dos escolares e dos tolos atingiu o derradeiro grau: mais professores estão cheios de amargor e de bílis; por toda parte a vaidade se exibe sem limites, por toda parte apetites monstruosos, inauditos. Sabe você, sabe você por quantas pequeninas idéias já feitas somos conduzidos? Por ocasião da minha partida. para o estrangeiro lavrava a tese de Littré(*) que pretende que o crime não é senão uma anomalia do cérebro. Chego à Rússia e já o crime não é mais uma anomalia, mas precisamente uma idéia feita normal, um dever quase, ou pelo menos, um generoso protesto. "Como um assassino poderia deixar de matar, desde o instante em que tem necessidade de dinheiro?”"

Mas isto é apenas una primeiro fruto. Já o deus russo apagou-se diante da aguardente a bom preço. O povo se embriaga, as mães de família se embriagam, as crianças se embriagam, as igrejas estão desertas, e nos tribunais não se ouvem mais senão estas palavras: "duzentas varadas ou paga um canjirão de aguardente". Oh! dai somente a esta geração o tempo de crescer. Ê pena todavia que não se possa mais esperar: teriam podido tornar-se ainda mais bêbados! Ah! sim, que pena que não haja proletários! Mas haverá, haverá, é para isto que tendemos."

(*) Littré, Maxilien (1801-1881) filósofo francês, dicionarista e grande filólogo de formação positivista, um ex-seguidor de Comte cujas idéias geraram sempre muita polemica.

(trecho extraído de OS DEMÔNIOS / II PARTE VIII, pag. 1.137-9, da edição da Obra Completa de Fédor Dostoievski, Rio de Janeiro, José Aguilar Editora, 1975).

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