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A utopia do abade Saint-Pierre
Com a consolidação da Unidade Européia na entrada deste terceiro milênio, projeto idealizado por inúmeros políticos e pensadores europeus, assiste-se a revigoração de antigas obras que trataram desse tema. Como e de que modo os estados e os povos europeus deveriam organizar-se no futuro para vir constituir-se um só corpo político? Entre essas obras, consideradas até então como utópicas, destacou-se a do abade Saint-Pierre trazida à luz, em 1756, pelos méritos de Jean-Jacques Rousseau, que defendia instituição do governo de um república européia. "Verei, pelo menos idealmente, os homens unirem-se e amarem-se; pensarei numa doce e sossegada sociedade de irmãos, vivendo em concórdia eterna, todos conduzidos pelas mesmas máximas, todos felizes com a felicidade comum. Compondo dentro de mim um quadro tão comovente, a imagem de uma felicidade que não existe far-me-á por alguns instantes experimentar uma felicidade verdadeira." J.J.Rousseau – Extrato do projeto de paz perpétua, 1756 Jean-Jacques Rousseau, sempre sem dinheiro, apesar de autor consagrado, famoso como pensador original em boa parte da Europa, aceitou a incumbência que a Sra. Dupin lhe passou em 1756. Arrumar, selecionar e mandar editar uma seleta dos originais do Padre Saint-Pierre, falecido uns anos antes em 1743, quase nonagenário. Coisa fácil, pensou. Quase caiu de costas quando o sobrinho do pensador, o conde de Saint-Pierre, descarregou no seu escritório 23 volumes de manuscritos. Uma papelada capaz de assustar um Hércules. Havia de tudo neles, mas Rousseau com paciência não tardou por encontrar naquele mar de garatujas algo que realmente valesse a pena: nada menos do que um grande projeto para integrar a Europa por inteiro. Ainda que publicados entre 1717-18, com os títulos de Tornar a Paz Perpétua na Europa e o Discurso sobre a Polissinodia (regime em que os conselhos substituem os ministros)os dois ensaios estavam esquecidos de todos. Paz permanente e um bom governo coletivo era a sua mensagem. Fora à sombra do Tratado de Utrecht de 1713 que o Padre Saint-Pierre entusiasmara-se em traçar uma perspectiva generosa para com o futuro do Velho Mundo. Mas o mérito do renascimento das suas teses deve-se exclusivamente a releitura e a síntese feita por Rousseau. Os estados europeus, pregou o bom homem - lembrando o sonho da república cristã defendido por primeiro por Henrique IV no século XVI -, deviam renunciar à guerra.
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A fonte da paz (escultura de Greg Wyatt)
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Que instituíssem uma Sociedade das Nações para apartar ou impedir as brigas dos príncipes. Quem deles erguesse agressivamente a adaga se veria sitiado pelas lanças e bombardas da segurança coletiva. Tudo muito interessante e bem intencionado pensou Rousseau, mas porque os príncipes europeus iriam aceitá-lo? Porque as esperanças na Razão, responderia o Padre Saint-Pierre, eram ilimitadas. Com o decorrer do trabalho o filósofo mais e mais foi se envolvendo com o apaixonante tema de fazer os estados europeus pararem de dilacerarem-se em guerras sem fim. O desacordo de Rousseau com o que lia aumentou quando preparou o “ extrato” do que chamou o governo da republica européia. Para dirigir todo o continente, o Padre Saint-Pierre sugeriu um corpo superior, uma academia política que lembrava um tanto o antigo senado romano, composto por 40 especialistas indicados pelo rei. Abaixo delas, no papel de uma câmara baixa, haveriam nove conselhos - a Polissinodia - responsáveis pelas principais desinteligências entre os estados. Rousseau, desconfiado, sentiu neste governo um ranço conservador, uma confederação de aristocratas, quiçá um clube de déspotas, aceitando fazer uma grande reforma apenas para azeitar melhor os seus mecanismos de domínio. Como Rousseau constatara, o sistema da república européia para funcionar implicava na abdicação dos príncipes das suas prerrogativas locais, o que levaria ao esvaziamento da sua autoridade. Era dar um tiro no próprio pé, ferir-se com a própria espada. Mas era o que deveriam ter feito. Talvez, houvessem eles se confederado há tempo poderiam ter evitado a guilhotina e o Terror de 1793, ou ainda o belicoso império burguês do general Bonaparte.
O novo ordenamento europeu
Pois agora, neste caminhar inicial do segundo milênio, quase três séculos depois, um projeto similar ao do Padre Saint-Pierre voltou a ser apresentado. Só que desta vez pelas mãos de Gerard Schroeder, chefe ilustrado da social-democracia alemã. Pelo proposta do atual chanceler germânico, o futuro governo pan-europeu teria na atual Comissão Européia, sediada em Bruxelas, o seu poder executivo. A Câmara Alta composta pelos ministros e presidentes da União Européia formaria uma espécie de senado, enquanto o Parlamento Europeu de Estrasburgo ampliaria suas atribuições responsabilizando-se pelo orçamento. Tudo isso será, assim dá entender Schroeder, submetido à consultas eleitorais e legitimado junto à opinião pública. Uma república européia a ser erguida pelo braço do homem comum já que os sangue azul dos príncipes de nada serviu. É de se esperar que os estadistas de hoje tenham o bom censo que faltou aos líderes de outrora (os imperialistas em 1914, e os caudilhos fascistas em 1939), que quase levaram a destruírem a civilização ocidental por duas vezes neste século. Que doravante as desordens e arruaças dos europeus limitem-se aos estádios esportivos ou aos campos de touros. E que o exemplo da Europa em formar em breve um só corpo político possa frutificar e iluminar fazendo com que aos poucos, mas sempre perseverante, a humanidade possa algum dia vir a unir-se num só governo global. O site recomenda a leitura de: Saint-Pierre, Abbé – Projeto para tornar a perpétua a paz na Europa, Brasília, UnB, 2002.
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