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O mito da conspiração mundial
Modernamente foi o sucesso inicial da Revolução Francesa quem terminou por produzir um incessante fluxo das teorias conspirativas da história, tendo desde então grande voga. A possibilidade de existir um pequeno grupo de pessoas reunindo-se na clandestinidade para fins malignos – tal como se imaginava que os diabos faziam na Idade Média, excitando os hereges e as bruxas – é extremamente tentadora para a gente de pouco espírito ou para grupos, sociedades ou mesmo país submetido a forte tensão paranóica. No mundo contemporâneo, tanto a esquerda como a direita fizeram largo uso das teorias conspirativas (maquinadas pelo capitalismo, imperialismo, judaísmo ou pelo comunismo, etc...) para justificar suas políticas repressivas. Mesmo as democracias, com toda ampla liberdade de informação, não estão livres das teorias conspirativas, tanto sucesso elas continuam fazendo.
O abade Barruel e a conspiração franco-maçônica
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Uma força poderosa manipulando o mundo (gravura de A.Dürer)
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Uma dessas primeiras reações contra-revolucionárias deu-se no Império Habsburgo por ocasião da publicação, entre 1792-93, do jornal Wiener Zeitschrift, editado por Leopold Alois Hoffmann, que alcançou notoriedade e grande repercussão no mundo de fala alemã. A antiga e boa ordem européia, segundo o jornal, estavam gravemente ameaçadas por uma impressionante e muito difundida conspiração engendrada pelos filósofos iluministas. Reunidos em sociedades secretas, eram eles quem destilava junto a populaça idéias subversivas, estimulando entre ela a irreligiosidade e a descrença nas autoridades legítimas. Tratava-se de uma sabotagem consciente que visava corroer os fundamentos dos poderes legítimos das Casas Reais e das prerrogativas da Igreja Católica.A mais bem sucedida exposição da teoria conspirativa da história origina-se de uma obra surgida em 1797, intitulada Mémoire pour servir à l’histoire du Jacobinisme (“Memória para servir a história do jacobinismo”), do abade Augustine Barruel, segundo o qual a Revolução francesa de 1789 foi resultado de uma longa conspiração que deitava suas raízes ainda no tempo da Ordem dos Templários. Ordem esta que, segundo Barruel, só teria sido exterminada, em 1314, na aparência, sobrevivendo desde então como uma sociedade secreta. Desde aquela época essa cabala criminosa vinha dedicando-se a desprestigiar e tentando abolir a monarquia, derrubar o papado e propor uma liberdade sem limites a todos os povos para vir a fundar uma republica mundial sob seu controle. Além de envenenar vários monarcas, ela havia se infiltrado na maçonaria e por meio da criação de academias literárias dedicou-se a espalhar a descrença e o desprestigio das autoridades reais e religiosas Delas é que surgiram os ideólogos do jacobinismo que sepultaram a monarquia bourbônica na França. O próprio Barruel enriqueceu posteriormente sua teoria conspirativa com um adendo. Em 1806 ele teria recebido uma correspondência de um tal de J.B.Simonini que o alertava para o enorme numero de judeus em cargos influentes na Itália e sua estreita associação com os maçons – carta esta que efetivamente foi o embrião do mito da conspiração judeu-maçônica.
A teoria da conspiração judaica
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Reunião maçônica, momento da conspiração
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A moderna teoria conspirativa concentrada especificamente nos judeus surgiu um pouco mais tarde, em 1868, por obra de um funcionário prussiano Herman Goedsche que com o pseudônimo Sir John Retcliffe lançou uma novela, intitulada Biarritz, na qual narra um encontro secreto de judeus (representando as doze tribos) durante a Festa do Tabernáculo realizada no cemitério hebraico de Praga. Um por um os representantes lá reunidos vão fazendo o relato dos seus estragos feitos na sociedade cristã (Zebulon, por exemplo, é um instigador de revoluções, Simeon proclama a necessidade da reforma agrária e que as terras sejam entregues aos judeus, Judá manipula os operários, Manáses propõe o controle da imprensa, etc...) . Essa obra visava combater os direitos de cidadania que os judeus (eles eram 1.2% da população alemã) passaram a receber do governo prussiano naquela década. A unificação nacional e o apelo ao patriotismo desencadeado pelo processo de formação do IIº Reich (1866-1871) fez com que uma intensa literatura anti-semita aflorasse.
Os protocolos dos sábios de Sião
Basicamente ela afirmava o mito da conspiração judaica mundial e do governo secreto dos judeus cuja síntese foi exposta por Theodor Fritsch num livro intitulado “Manual da questão judaica” que apareceu em 1887 e que, depois de 1933, com os nazistas no poder, tornou-se um best-seller na Alemanha. Mas a verdadeira “obra-prima” do mito judaico da conspiração mundial foram os “Protocolos dos Sábios do Sião”, surgidos depois de 1897, por obra de um agente da Okhrana, a polícia secreta do czar da Rússia.Baseada na realização do primeiro Congresso Sionista realizado na Basiléia, Suíça, presidido por Theodor Herzen, que visava a criação de um estado judeu no futuro, o opúsculo partia da idéia de que aquela reunião de judeus europeus era uma cabala secreta voltada para instigar guerras, lutas de classes, e o ódio entre os povos para assim assegurar o domínio judaico sobre o mundo e fazer valer o império do ouro. Esse pequeno manual da difamação foi largamente distribuído na Rússia czarista em seguida a fracassada revolução de 1905, apresentada pelos agentes do governo russo como prova das intenções malignas do judeus contra o bom czar.
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