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Maquiavel: o estoicismo e a política
Por outro lado, é exatamente entre os antigos que vamos encontrar as primeiras sementes do desapreço da política ao emergir a escola de Epicuro, que viveu entre os séculos 4-3 a.C. Recomendava o filósofo aos sábios, isto é aos cidadãos cultivados, que se afastassem das coisas públicas e buscassem um espaço próprio íntimo, voltado ao usufruto do prazer pessoal. Apelo que teve aceitação justamente porque os cidadãos, mesmo a contragosto, começaram a ser alijados das decisões. Na civilização helenística, que sucedeu a clássica, o poder gradativamente concentrou-se no monarca esvaziando a autonomia das cidades fazendo com que os cidadãos se des interessassem pela política. Os reis foram apelidados de "salvadores', "benfeitores", e até de nómos émpsukhos, isto é "a lei que respira", centralizando todas as decisões importantes, encaminhando -se assim aqueles regimes, em grande parte influenciados pelos costumes orientais, à política da divinização do soberano. No Império Romano tardio, sob influência crescente dos estóicos, que desde os tempos de Lucrécio orientavam ideologicamente o patriciado romano, verifica-se uma nítida separação entre o espaço privado e o público. O privado era o reino do humanitas, composto pelo civitas romano, pelo patriarca e sua família organizado em torno do seu domus - o lar - onde se encontrava protegida a sua clientela. Local aprazível, calmo, que ele mantinha em completo controle, afastado das tormentas sociais a quem ele deveria manifestar sua indiferença. Lá fora, no espaço público, era o seu oposto quem imperava: Regnum Caesaris Regnum Diaboli, tratava-se do mundo das feras, dominado pelo Imperador, pelos comandantes e pela soldadesca da guarda pretoriana , que, com armas nas mãos, punham e depunham os governantes. Espaço do diabo a quem um homem virtuoso e honesto devia guardar a devida distância. Com a emergência do cristianismo a partir do século 4, esta tendência de apartar-se das coisas publicas acentuou-se ainda mais, escorando-se então, os cristãos daquela época, no dito de Jesus Cristo, " daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". O fato da nova religião afirmar que sua preocupação maior era com o Reino dos Céus, escancarou ainda mais a distância do cristão com a política.
A política como a arte da astúcia
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Epicuro (341-270 a.C.)
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Mas a pá de cal, a difamação definitiva da política - tornando-a quase maldita - ocorreu no Renascimento com Maquiavel. Ninguém até então a descrevera de uma forma tão ordinária e baixa como o florentino o fez. Reduziu-a a um astuto exercício de alcançar e manter-se no poder, caracterizando como modelo do político exemplar um ser meio homem meio animal (entre o leão e a raposa) , que , para atingir ou manter-se no leme do estado ele podia recorrer a qualquer tipo de prática (à fraude, à mentira, ao engano, à corrupção) porque todas, desde que utilizadas com eficácia, se justificavam pelo seu fim. Aquilo que parecia ao homem comum, ao cidadão íntegro, como desonesto e velhaco, recebeu da parte dele sanção e validade porque estava a serviço de algo superior que era o interesse da segurança do estado e da sociedade. Desta forma, as imprecações que diariamente ouvem-se lançadas contra os políticos do nosso tempos nada mais são de ecos tardios desse antigo rancor provocado pelo desinteresse dos estóicos e dos cristãos pela política que se somam à inconveniência verbal de Maquiavel, contribuindo negativamente para que muita gente honesta e capaz se alienasse da coisa pública, e, pior, desacreditassem nos seus legítimos representantes dentro de uma ordem democrática.
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