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POLÍTICA

Hobbes e o autômato arruinado

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» Hobbes e o autômato arruinado - A tarefa do Estado
 
Há três séculos e meio atrás, o filósofo e político inglês Thomas Hobbes, morto em 1679, um filósofo conservador afirmou que o Estado era um “animal artificial” criado pelos homens com a função precisa de defender a sociedade contra a violência. Ao contrário de Aristóteles, que via ser o Estado resultado da sociabilidade humana, Hobbes apontava o medo como a base da sua formação. Tendo uma visão geral negativa do ser humano, ele sempre temeu que o enfraquecimento do Estado pudesse estimular o despertar dos impulsos primitivos, selvagens, incontrolados, comuns tanto à natureza humana como à animal, fazendo assim periclitar os próprios esteios da civilização.

A artes mecânicas

“pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado, ou Cidade, que nada mais é senão um homem artificial, de maior estatura e força que o homem natural, para cuja proteção e defesa foi projetado.”

Thomas Hobbes, O Leviatã, 1651

Atribui-se à má vontade das sociedades antigas, quase todas elas baseadas no trabalho escravo, o fato de existirem raros exemplos extraídos das artes mecânicas entre as obras dos filósofos daqueles tempos. Platão, no “A República”, apesar de ser geômetra consagrado, quando lançou-se na aventura da construção de um Estado Perfeito, o mais justo de todos, recorreu aos mitos gregos antigos e para os seus prodigiosos recursos dialéticos, mas não a modelos que pudessem lembrar uma máquina ou algo equivalente. Passaram-se séculos para que as coisas mudassem. Somente na Idade Clássica da Razão, o século 17, ocorreu uma revolução. Uma verdadeira explosão de máquinas, de autômatos, de fontes que espirravam água, de relógios cada vez mais precisos, de cronômetros, de lunetas e telescópios, construídos a rodo por toda a Europa, fez com que os pensadores mudassem de idéia. Não podiam mais ignorar a importância e a crescente influência das artes mecânicas.

Hobbes e a mecânica

Thomas Hobbes (1588-1679)
Foi um passo curto para que Descartes, no seu Traité de l´homme (O Tratado do Homem, 1662) descrevesse o corpo humano como se fosse uma máquina, ainda que dotada de alma, funcionado inteiramente sincronizada. Para Baglivi, um seguidor dele, era evidente que o estômago parecia uma retorta, as veias, as artérias, todo o sistema de canais eram tubos hidráulicos, sendo o coração uma mola e as vísceras filtros, enquanto que o pulmão nada mais imitava do que um fole. “Que são os músculos”, perguntou ele, “ senão que cordas?”. Portanto, estavam lançadas, já no século 17, as bases da idéia do homem-máquina, matriz da medicina positivista dos dias de hoje.

Quem, porém, levou as lições da mecânica para a ciência política foi o inglês Thomas Hobbes. Fascinado pelos autômatos, seguindo as pegadas de Galileu e de Descartes, supôs que o Estado não passava de “um animal artificial” (prefácio de “O Leviatã”, 1651)., para quem a Soberania cumpria a função de alma artificial. Ativada, sem inibições , era ela quem dava “vida e movimento” a toda aquela maquinaria imensa. Mas qual a razão que levava os homens, e esta era a interrogação de Hobbes, a erguerem aquele colosso artificial? Porque eles trabalhavam cada uma das suas partes para que pudesse movimentar-se e começar a andar? Para que servia o Estado afinal? Salus Populi, respondeu ele, para “ a Segurança do Povo!”

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