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O Império Britânico contra a Argentina (Parte II)

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O Império Britânico contra a Argentina (Parte I)
 
Americanos versus Argentinos


A resposta não demorou a vir. Com a natural truculência da diplomacia ianque da época, o cônsul americano em Buenos Aires, chamado George Washington Slacum, reclamou a vinda de uma fragata americana para pôr fim às disposições de Vernet. A tese americana era de que as ilhas Malvinas eram uma terra-de-ninguém, não cabendo aos pescadores obedecer às imposições do governador indicado por Buenos Aires.

A recém chegada fragata Lexington não tardou em capturar Porto Luis e além de se apropriar de uma partida de pêlos de foca, levou para seus porões agrilhoados os principais moradores da Ilha. Seu destino seria responder à acusação de pratica de pirataria. Formou-se uma confusão pois um lado acusava o outro de crimes. Esse infeliz incidente ocorrido em 1831 fez com que a Argentina rompesse relações diplomáticas com os Estados Unidos pelos onze anos seguintes.

Impossibilitado de obter proteção dos argentinos e acossado pelos americanos, Vernet se insinuou junto ao governo britânico narrando-lhes as vantagens estratégicas e comerciais do arquipélago. Na verdade seu empreendimento havia falido e aqueles poucos habitantes que restaram ficaram reduzidos a uma vida semivegetativa. As Malvinas, de fato, estavam ao desabrigo, sujeitas ao primeiro aventureiro que a desejasse ocupar.

A operação de captura e aprisionamento praticada pelos americanos em 1831, avivou o interesse britânico. O Foreign Office recebeu estimulantes sugestões por parte de dois observadores, Beckington e Langton, que procuraram demonstrar a importância das Ilhas, tanto como base militar como oferecer uma rota alternativa no caminho para a Austrália.

Malvinas se tornam Falklands

O capitão mercenário Jewit retoma as Malvinas para os argentinos (1820)

Exatamente no espaço de tempo que vai da ação americana à ocupação definitiva por parte dos ingleses, isto é, entre 1831 a 1833, os argentinos resolveram restabelecer sua soberania sobre elas. Uma embarcação foi enviada de Buenos Aires com a missão de fundar um presídio na região. Lá chegando, o infeliz comandante argentino teve a infelicidade de se deparar com uma poderosa fragata britânica, que o obrigou não só a arriar a bandeira azul e branca criada por Manuel Belgrano como zarpar imediatamente o local.

Com aquela medida o almirante Onslow, em nome do rei Guilherme IV, deu inicio em definitivo da posse das ilhas, rebatizadas como Falklands (em homenagem ao quinto visconde de Falkland, tesoureiro da esquadra real britânica). Os Estados Unidos não manifestaram maior oposição desde que seus pesqueiros continuassem tendo os mesmos direitos de antes. Oficialmente elas tinham sido argentinas por um período pouco maior do que dez anos. Todavia, nunca deixaram de estar presentes em quaisquer dos mapas territoriais feitos nos últimos cento e cinqüenta anos como extensão territorial da república Argentina.

O impacto da ocupação britânica teve uma reação imediata. Juan Ramón Balcarce, lugar tenente de Rosas que ocupava a governadoria de Buenos Aires, foi obrigado a renunciar ao seu mandato por não ter feito nada em evitá-la. O país, na verdade, não se encontrava em condições de enfrentar o Império Britânico e retomar o arquipélago. As cisões internas entre federalistas e unitaristas, envolvidos em suas tradicionais chacinas e fuzilamentos que tanto tipificam a política platina, impediam qualquer ação neste sentido.

Rosas enfrenta os europeus

Selo argentino comemorativo a Vernet

Chefiando uma confederação de caudilhos Juan Manoel Rosas não se preocupou com aquelas ilhas austrais, inclusive propôs aos ingleses, sem sucesso, sua permuta por um empréstimo tomado em 1824 e ainda não pago.

Ainda ao longo exercício do seu regime autoritário, Rosas teve que enfrentar dois bloqueios contra o seu porto: um levado a efeito pelos franceses em 1838, que foi suspenso pelo acordo Aranda-Mackau dois anos depois, e outro pelas esquadras conjuntas da Inglaterra e França entre 1845- 1848, sempre na tentativa de vir a controlarem a embocadura do rio da Prata.

Durante o século e meio seguinte a grande república sul-americana se tornaria virtualmente uma "parte não-oficial do Império comercial Britânico", como educadamente classificou-a o historiador H.S. Fern, atuando como uma economia complementar aos interesses ingleses espalhados pelo mundo.

D.M.C.Platt, pesquisador das relações comerciais britânicas com a América Latina, assegurou, por sua vez, que foi somente a partir da segunda metade do século XIX que de fato intensificaram-se as procuras européias por matérias-primas de origem agrícola e pastoril vindas da antiga América Ibérica, mercado que passou a crescer devido a crescente chegada de imigrantes.

A integração com a " economia transatlântica", somente se deu entre 1870 e 1900, sendo que até então os novos países mantiveram uma ligação puramente marginal com os centros econômicos mundiais. (ver D.M.C.Platt - Latin América and British Trade: 1806-1914, pág.3)

O episódio de 1833, a expulsão dos argentinos das ilhas, um território legítimo que haviam herdado do vice-reino espanhol, nunca foi assimilado pela população platina e muito menos pelos ideólogos do nacionalismo argentino.

Era um espinho encravado na garganta do sentimento nacional que 150 anos depois terminou por conduzir à infeliz e desastrada Guerra das Malvinas de 1982, que culminou em nova humilhação nacional.

Bibliografia

Azambuja, Péricles - Falkland ou Malvinas, o arquipélago contestado. Caxias do Sul: EDUCS, 1988.

Ferns, H.S. - Gran Bretaña y Argentina en el sigo XIX. Buenos Aires: Solar/Hachette, 1968.

Luna, Felix - Las Invasiones inglesas. Buenos Aires: Editorial taeda, 2006.

Ortiz, Raúl Scalabrini - Política Británica en el Rio de la Plata.Buenos Aires: Editorial Plus Ultra, 1973.

Platt, D.C. - Latin America and British Trade: 1806-1914. Londres: Adam& Charles Black, 1972.

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