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A marcha da morte do general Sherman (parte IV)
Uma das maiores máculas da Guerra de Secessão norte-americana (1861-65) foi a campanha de devastação realizada pelo general William Tecumseh Sherman contra os estados rebelados do Sul. Arrasando preferencialmente os campos, as fazendas, as fábricas, as ferrovias, as cidades dos confederados, encurtou a guerra mas encheu os americanos de pavor: “A mais monstruosamente bárbara das marchas dos bárbaros”.
Para Lidddel Hart, os famosos líderes das divisões blindadas alemãs da Segunda Guerra Mundial, como os generais Guderian e Rommel, se abeberaram nos ensinamentos de Sherman, estrategista que privilegiou o movimento e não a cautela, o avanço constante, ininterrupto, e não a ocupação do terreno.Antecipou a todos porque ampliou o leque dos inimigos colocando a população civil como alvo e não somente as formações militares do inimigo, travando contra ela um escancarado vandalismo com fins de atingir o moral da tropa adversária. O efeito psicológico disso era tão eficaz quanto uma barragem de artilharia ou uma carga de cavalaria. Assediou as famílias para desmoralizar o pai ou o filho que lutavam distantes, bem longe de casa. Abertamente valeu-se do terror para quebrar o espírito de resistência e o orgulho dos confederados. Sempre que possível evitou o enfrentamento direto para poupar seus homens, escolhendo uma saída que evitasse mais baixas sem com isso atrapalhar o destino e a rapidez da marcha. Quanto aos seus temidos forrageadores, os brummers, eles os viu como um poder de pressão sobre os inimigos e não hesitou em usá-los. Para a gente do Sul ele foi "o primeiro general terrorista", "um açougueiro", um general dos mudsills ( expressão pejorativa que significava "os debaixo"). Como sempre ocorre em torno de personagens como Sherman, um historiador de Ohio, do mesmo estado do general, Mark Grimsley (in The Hard Hand of War, 1997) procurou atenuar a violência da campanha contra o Sul, assegurando que ele travou uma "guerra dura" mas não uma "guerra total" contra os confederados, e que em momento algum se desviou dos alvos militares, assediando a população civil apenas como parte da guerra psicológica movida contra os rebeldes. Ele não era um monstro mas um estrategista metódico que procurou quebrar a espinha da resistência dos inimigos da União. Nas Memórias dele, aparecidas somente em 1875, dez anos depois da derrota do Sul, não demonstrou nenhum arrependimento com o estrago que promoveu com sua bem sucedida investida. Para ele ela abreviou a tragédia. Nunca foi, todavia, um entusiasta da guerra em si, tanto assim que registrou: "Eu confesso sem nenhuma vergonha que eu estou doente e cansado de lutar – a glória é um brilho de luar: mesmo o sucesso o mais brilhante é obtido sobre uma massa de corpos, acompanhado da angústia e lamentação das famílias distantes, apelando para mim atrás dos seus filhos, maridos e pais...somente aqueles que nunca ouviram um tiro, nunca escutaram os gritos e gemidos dos feridos e dos mutilados...é que gritam alto querendo mais sangue, mais vingança, mais desolação." (citado por Liddel Hart).
Glatthaar, Joseph T . -The March to the Sea and Beyond: Sherman's Troops in the Savannah and Carolinas Campaigns. Louisiana State University Press, 1995. Grimsley, Mark – The Hard Hand of Ward: Union Military Policy toward Southern Civilians, 1861-65. Cambridge University Press, 1997. Marszaleck, John F. – Sherman´s march to the sea. Texas. Texas University Press, 2005. Liddel, Hart B.H. – As grandes guerras da história.São Paulo: IBRASA, 1967. Liddel Hart, B.H - Sherman: Soldier, Realist, American. Westview Press, 1993. McPherson, James M., Battle Cry of Freedom: The Civil War Era. Oxford University Press, 2003. Osborn, Thomas. The Fiery Trail - A Union Officer's Account of Sherman's Last Campaigns. Knoxville. Tennesse: The University of Tennessee Press. 1986. Royster, Charles, The Destructive War: William Tecumseh Sherman, Stonewall Jackson, and the Americans. Nova York: Alfred A. Knopf, 1991 Sherman. William T. - Memoirs of General W.T. Sherman, . Reimprensa pela Library of America, 1990.
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