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Portugal em 1807, entre o mar e o rochedo (parte II)

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Pequeno reino situado à beira do Oceano Atlântico, Portugal dos começos do século XIX sentia-se como um molusco aturdido entre a violência do mar e a solidez do rochedo. Era uma "orelha de terra" premida de um lado, do lado do mar, pelo Império Britânico, senhor das águas do mundo de então, do outro, o do rochedo, pelo Império Napoleônico, comandado pelo mais brilhante general da história européia. Qual seria o seu destino?

Transferir o trono de lugar

Todavia, mostrou-se suficiente hábil em conseguir protelar ao máximo o momento em que Napoleão daria sumiço no seu reino, conseguindo evacuar da capital em tempo curto a maior parte dos integrantes da corte e da fidalguia lusitana, junto com as louças e a prataria, quando chegou a hora derradeira.

O plano de levar o trono para a outra beira longínqua do Atlântico Sul não era novo entre os portugueses. Em ocasiões outras, monarcas premidos pelas circunstâncias infelizes, como foi o caso de d.João IV (1604-1656), na época do padre Vieira, já haviam cogitado em transferir-se para os trópicos, pelo menos como uma solução transitória no intuito de escapar ao sufoco de algum invasor.

Na época do regente D.João, a mais clara exposição de motivos para realizar a operação foi dada pelo Marquês de Alorna num arrazoado escrito seis anos antes da retirada, por ocasião da Guerra das Laranjas, em que dizia:

"A balança na Europa está tão mudada que os cálculos de há dez anos saem todos errados na era presente.Em todo caso o que é preciso é Vossa Alteza Real continue a reinar, e que não suceda à sua coroa, o que sucedeu à da Sardenha, à de Nápoles e o que entra no projeto das grandes potências que sucede a todas as coroas de segunda ordem na Europa.

V A .R. tem um grande império no Brasil, e o mesmo inimigo que o ataca agora com tanta vantagem, talvez trema e mude de projeto, se V.A .R. o ameaçar de que se dispõe a ir ser imperador naquele vasto território adonte facilmente pode conquistar as colônias espanholas e aterrar em pouco tempo as de todas as potências da Europa.

Portanto é preciso que V. A .R. mande armar com toda a pressa todos os seus navios de guerra, e todos os de transporte, que se acharem na Praça de Lisboa – que meta neles a princesa, os seus filhos,e os seus tesouros, e que ponha tudo isto pronto a partir sobre a Barra de Lisboa(...) (carta de 30 de maio de 1801, citada por Oliveira Lima- D.João VI e o Brasil)

Sem alternativas

O general Junot entrando em Lisboa (27/12/07)
Sabendo-o um indeciso crônico e medroso, não deixa de ser significativo que a determinação dele, acatando o ponto de vista do ministro D.Rodrigo de Souza Coutinho, dos Negócios da Marinha e do Ultramar, em deixar Lisboa, foi a melhor solução encontrada. No seu jornal Hipólito da Costa já recomendara "...se não tivesse o vasta império do Brasil, deveria ir para for, ainda que fosse para as Berlengas, ainda que se conservasse no mar sobre a vela, em suas esquadras..."

O exército português, reduzido a uns 10 ou 12 mil homens mal armados e pior adestrados, não era páreo para nenhuma das divisões de Napoleão (independente do fato de observadores terem apontado o estado lastimável dos regimentos franceses que chegaram à capital). Por conseguinte, o príncipe que se sabia pouco talhado a ser herói, não podia enfrentá-lo. D.João não tinha inclinação em se fazer de Davi para abater o Golias napoleônico. Ficar e resistir era perder o trono e a liberdade. Dele, da sua família e do reino inteiro.

Escafeder-se pelo oceano com tudo o que pudesse carregar pareceu-lhe o mais sensato, e de fato o foi. Pouco importa que chamassem isso de "fuga", ou de "ato covarde", pois o que imperou foi o bom senso. Quando, por fim, as vanguardas esfaimadas do exército o general Junot adentraram em Lisboa em 30 de novembro de 1807, vindos de uma campanha rápida e sem resistências, o comboio naval lusitano já inflara as velas. Levando umas 15 mil pessoas expremidas a bordo de 35 embarcações, apoiado por reforços ingleses da esquadra do almirante Sidney Smith, já fazia três dias que se desferrara do cais de Belém. O preço desse amparo à corte em retirada era a abertura dos portos do Brasil ao comércio britânico.

Somente na manhã do dia 29 de novembro conseguiu os ventos necessários rumando então para o alto mar, emproado em direção ao Brasil. Era o estado português inteiro, fundado 664 antes por D.Afonso Henriques, que se transladava para o exílio. Deixava atrás de si um povo pasmo e indignado com aquele abandono do que chamaram de "rei fujão".

Da barra do Tejo, qualquer francês com lunetas podia vislumbrar alguns mastros ao longe se indo embora; impotentes, outros viram-nos de cima dos morros da capital.

Bibliografia

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