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A Bolsa de Valores e o Caos

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Em seu exílio em Londres, onde se refugiara em 1726, depois de ter sido solto da Bastilha, Voltaire deslumbrou-se com as liberdades civis inglesas. Admirou-se ainda mais quando freqüentou a bolsa de valores da City. Viu nela um microcosmo onde se faziam presentes “deputados de todas as nações”. Lá muçulmanos, judeus e cristãos irmanavam-se na arte de ganhar dinheiro. Podiam, ao sair, celebrar Alá, Jeová ou Deus, porém o que realmente temiam não era nenhuma força sobrenatural. Apenas era a falência que os assombrava.

O papel do comércio

O tumulto do mercado especulativo em Londres (quadro de E.M.Ward)
É possível que Voltaire, um tanto como herdeiro do humanista florentino Calucio Salutati, fosse um dos primeiros intelectuais modernos a associar a expansão das atividades comerciais com as liberdades gerais, o que levou Kant, muitos anos depois, a confiar, no seu A Paz Perpétua, numa integração pacífica da humanidade através da universalização das práticas mercantis.

É interessante observar que esses dois cérebros do iluminismo, Voltaire e Kant, não perceberam que a especulação com ações, muitas vezes, podia gerar também desastres irremediáveis. O filósofo francês, por exemplo, foi contemporâneo com ao primeiro desastre especulativo que se conhece, provocado pelo aventureiro e financista escocês John Law (1671-1729), que, aliás, se refugiou em Londres, justo quando o escritor retornava à França.

O Sistema Law

O financista John Law (1671-1729)
Law foi um gênio que se perdeu. Quando na época da Regência de Filipe duque de Orleãs (1715-1723) fora encarregado das finanças francesas , nomeado Controlier General des Finances, tratou de abandonar a utilização dos dois ícones da economia mercantilista, o ouro e a prata. Segundo ele deduziu na sua aguda visão antecipatória, a economia futura não poderia expandir-se baseada apenas no montante de metais preciosos que um reino tinha ao seu dispor. O dinheiro em si não era riqueza mas sim um meio de obtê-la. Arquitetou então um sistema, o Sistema Law, que gradativamente levaria a adoção do papel-moeda emitida por um banco confiável no lugar dos metais preciosos, como hoje é corrente na grande maioria das nações. Enquanto o ouro e a prata eram escassos, constrangendo a produção e a extensão do comércio às quantidades disponíveis de metal nobre, o papel-moeda, desde que emitido na perspectiva de negócios futuros, parecia-lhe gerar riquezas e possibilidades infinitas. Para dar conteúdo a sua política, atraiu investidores para a futura exploração da Louisiana, enorme território na América do Norte que havia caído sob controle da França em 1699.

Quando pôs a venda um lote de ações da sua Compagnie des Indes (ou do Mississipi), com sede na rua Vivienne, em Paris, empresa essa que detinha o monopólio comercial com meio mundo, os arredores dela se democratizaram. Pareciam a entrada de um circo ou de uma arena. Foi um deus-nos-acuda. Todos num repente queriam enriquecer com a notícia que a Louisiana, ainda por ser explorada, era uma terra formada por montanhas de ouro e prata e tudo o mais que a imaginação comporta. Quem adquirisse ações da companhia de Law tinha a convicção de ter recebido o beijo da fortuna. Em plena rua, nobres disputavam-nas a bofetões e palavrões com lacaios; sapateiros e duques, soldados e marqueses, damas e mulheres suspeitas, se acotovelavam na bolsa da Rua Quincampoix, para tentar a sorte tentando mudar suas vidas num só lance de audácia especulativa. Pela primeira vez na história das castas francesas, naquele curto período da chamada "Bolha do Mississipi" (principal rio da Louisiana) chegou admitir-se casamentos entre nobres e plebeus – les mariages réméré –, desde que fossem os novos ricos quem aportassem o lado fidalgo com um substancial dote em dinheiro para especular.

O Colapso da Bolsa de Paris

Caricatura da febre de especulação da bolsa de 1720
Paris foi tomada de febre pelo tráfico acionário. Law parecia ter arrancado a França do marasmo e da mesmice econômica em que o reino se encontrava depois das custosas guerras travadas por Luís XIV, falecido em 1715. A garantia dada para quem adquirisse as ações que ele vendia aos lotes lastrava-se no monopólio comercial que o regente lhe dera em 1719, para a exploração mercantil de meio mundo, da "Guiné ao Japão" e, inclusive, das terras da Louisiana a serem ainda colonizadas. O financista alimentava com papel pintado a ganância, a cobiça e a esperança humanas. Em troca embolsava-lhes o sonante. O mundo aprecia ser enganado. No inverno de 1720-1 tudo acabou. A partir de outubro de 1720 milhões de libras volatilizaram-se, pois ocorrera uma supervalorização das riquezas do novo território, que afinal nem fora ainda desbravado. A indignação varreu o país. Os negócios da bolsa viraram um caos. O Regente viu-se constrangido a chamar um regimento dos dragões para poder conter a fúria dos que haviam perdido tudo.

O escocês Law, que chegou a ser nobilitado como Duque de Arkansas, do dia para noite deixou de ser o homem-mago capaz do milagre de multiplicar as fortunas para ser apontado como um demônio vindo à França para trazer ruína e desolação. (*) O pânico financeiro da Bolsa de Paris tornou-se o primeiro crash do moderno mercado de ações, visto que arrastou consigo a bolsa de Londres no conhecido caso da Bolha dos Mares do Sul.

Hoje o mercado acionário atinge a fabulosa cifra de mais de 50 trilhões de dólares, abrange o universo e parece que faz tudo faz para provar o tão celebrado Efeito Borboleta, apresentado, em 1979, por Lorenz, um dos divulgadores da Teoria do Caos, para quem o bater asas de uma borboleta no centro de Nova York vira um furacão na Malásia.

(*) Nos dias correntes, a maioria dos historiadores econômicos tais como Galbraith ou Kindleberger, consideram Law um visionário capaz de perceber as tendências futuras do mundo econômico e não apenas como um mal-intencionado especulador fracassado.A resistência ao Sistema Law teria partido da aristocracia que não desejava perder seu prestígio com o surgimento da moeda-papel, veículo da expansão da burguesia (que afinal começou a ser adotada na Revolução Francesa com a emissão dos assignants).

Bibliografia

Dale, Richard - The First Crash: The First Crash:
Lessons from the South Sea Bubble
. Princeton University Press, 2004.

Galbraith, John K. – A Era da Incerteza. Brasília: Pioneira - Editora UnB, 1979.

Kindleberger, Charles - Manias, Panics, and Crashes, Nova York:Wiley, 1996.

Kindleberger, Charles - A Financial History of Western Europe, Nova York: Oxford University Press: New York,1993.

    
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