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Marxismo e ludismo
A literatura marxista a respeito do ludismo (Karl Marx, E.P.Taylor, E.Hobsbawn, e, mais recentemente, Kirkpatrick Sale) procurou retirar a pecha de analfabetos ignorantes que o restante da população inglesa havia lançado sobre os inimigos das máquinas (tornando desde então o termo ludita a algo pejorativo). Entenderam-no, o movimento, como um proto-sindicalismo, uma reação desculpável e natural da parte dos trabalhadores contra algo que provocava o desemprego e o rebaixamento salarial deles. Além, claro, de ser uma contestação ao capitalismo principiante, ainda que no quadro da grande transformação operada na transição do trabalho manual para o trabalho automatizado. Mesmo assim, não conseguiram evitar as óbvias associações do ludismo com o obscurantismo medieval, tão comuns a certos setores das classes populares. Marx, socorrendo-se de um tal de Andrew Ure (The Philosophy of the Manufactures, 1835), um teórico, defendeu a tese de que graças às ameaças dos trabalhadores é que os capitalistas, para reduzirem as pressões e as rebeldias, aceleravam as implementações tecnológicas, concluindo que a máquina era estruturalmente uma "potência hostil ao trabalhador" (O Capital, vol. I, cap. XIII, 5). O que nos leva à estranha dedução de que o progresso tecnológico deve muito aos destruidores de máquinas.
Estranheza ao mundo da técnica
Ocorre que na realidade, como é sabido, toda a inovação tecnológica realmente profunda excita inevitáveis efeitos fóbicos de toda a ordem. Ainda que tendente à razão, o homem é um animal conservador, rotineiro e assustadiço. Na história, até bem pouco tempo, eram minorias insignificantes que viviam em cidades, e um número reduzidíssimo de pessoas é ligado diretamente às coisas da técnica e da mecânica. Grande parte da humanidade, como ainda hoje no Terceiro Mundo, vive perto ou à beira dos matos, sofrendo-lhe a inevitável influencia psicológica.
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Condado industrial do interior da Inglaterra, cenário de "Shirley" de C.Brontë ( 1848)
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Lord Byron, o poeta, viu no ludismo a transgressão das normas. Entendeu-o como uma espécie de reforma religiosa – um luteranismo aplicado às fábricas. William Blake, outro poeta, viu-o como os instrumentos de uma rebelião sagrada contra os dark Satanic Mills, uma guerra travada para devastar os tenebrosos moinhos satânicos ( o clima geral dentro das fábricas daquela época), nos quais as mulheres e crianças inglesas eram obrigadas a trabalhar em condições deprimentes, quando não subumanas. A romancista Charlote Brontë, no seu livro Shirley, de 1849, entretanto, não devotou-lhes simpatia. Além de assegurar a um master (um patrão), de nome Cartwright (nome de um inventor) o papel de herói resistente frente ao assalto de uma turba armada, disse que os chefes luditas "não vinham das classes operosas", vendo-os como gente "fracassada, decaída, um bando de endividados e desocupados, muitos deles entregues à bebida". Todavia, o pavor às máquinas não partiu só de gente iletrada.
O filósofo Martin Heidegger, o mais significativo pensador alemão do século XX, oriundo da Floresta Negra, atuando como se fora um dos últimos românticos alemães, de certo modo, ainda que tardiamente, irmanou-se a eles na sua tecnofobia, denunciado a mecanização da produção em geral como vil, interesseira, inclinada ao lucro e, pior, desumanizante. Aliou-se aos nazistas em 1933 na expectativa de que Hitler cumprisse o programa Blut und BodenO pensador via a tecnologia como algo pertinente exclusivamente ao mundo moderno, levando-o à devastação da natureza, à massificação sufocadora da criatividade, à estandardização do comportamento e da cultura, à banalização da existência, provocando na sociedade inteira uma doença quase que incurável.
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