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O Raskol
Deu-se então o Raskol, o cisma. Se bem que não chegou a atingir os resultados sangrentos da Reforma Protestante, ocorrida na Europa Ocidental, a Reforma Nikon provocou um racha na Igreja russo-ortodoxa. Um número impressionante de fiéis, primeiramente apoiados pelo arcipreste Avakum Petrov, ( que terminou desterrado) simplesmente negou-se a cumprir com as novas regras e a ler pelos livros revisados(que, além de tudo, eram impressos no Ocidente). O patriarca agiu com rigor contra eles, espalhando-os em penitência por mosteiros distantes. Assumindo-se como cristãos fundamentalistas, os Velhos Crentes, passaram a formar uma igreja separada, mantendo seus ancestrais ritos à margem da vigilância do clero oficial e das demais autoridades. Para os olhos do regime eles ameaçavam a integridade espiritual do império, sendo considerados como um tipo especial de subversivos. Comportamentos coletivos patológicos tornaram-se comuns entre os Velhos Crentes. Divididos entre os popovtsy e os bespopovtsy, mais ardorosos, muitas vezes, em protesto, estimularam o suicídio de comunidades inteiras, como ocorreu em Zaonezhje na Karélia, quando 200 beatos se jogaram no fogo indignados contra a fé oficial. E muitos outros, de menor monta, ocorreram desde então. Ressalte-se que algumas seitas derivadas deles, assumiram posturas radicais, tais como a dos skoptzy ( que recomendavam a castração dos seus integrantes), a dos beguny, que não aceitavam tocar em nenhum documento oficial por virem marcados pelo selo do demônio. Seguramente foram esses efeitos colaterais de inesperada rebeldia, somados à intrigas outras, que levaram Nikon a ser afastado do patriarcado de Moscou em 1658, terminando seu dias muitos anos depois, em Iaroslav, em 1681, quando retornava do mosteiro de Kirilov, situado no norte da Rússia. Por igual pesou sobre ele a suspeita de que tinha intenções de sobrepor-se ao czar, bem como inaugurar uma espécie de patriarcado privado sobre a Rússia, algo como a implantação de uma autocracia teocrática. Contudo, a obra reformista dele perdurou pelos tempos, colocando-o entre os homens-fortes da história da Rússia.
O ódio ao czar Pedro, o Grande
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Pedro, o Grande, o czar ocidentalizador (1672-1725)
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Todavia, nenhum czar mereceu um ódio tão concentrado da parte dos Velhos Crentes do que Pedro, o Grande ( 1672 – 1725). E não foi para menos. O czar ordenou, em 1685, medidas radicais contra eles, tais como queimá-los em praça pública, bem como condenar á morte quem ousasse rebatizar os filhos na velha fé, exilando e degredando os que se mantinham apegados aos antigos ritos. O fato de ele ainda ter efetivado a transferência da sede do czarado de Moscou, da Santa Moscou, para uma metrópole ocidentalizada como São Petersburgo, em 1712, situada mais próxima da Europa, foi o suficiente para que o demonizassem: Pedro era o Anticristo! Aquele Romanov grandalhão atentara contra os sentimentos mais profundos do país ao trocar o Kremlin e a catedral de São Basílio na Praça Vermelha pelo Palácio Constantinovski e outros novíssimos prédios barrocos da capital projetados por urbanistas e arquitetos italianos. Pedro, para esvaziar ainda mais o poder da Igreja, inspirando-se nos príncipes protestantes da Alemanha e da Suécia, dissolvera o patriarcado, em 1721, substituindo-o por um órgão colegiado: o Santo Sínodo. Deste modo o czar não teria nunca um alto prelado, com toda a corporação sacerdotal por detrás de si, disposto da desafiá-lo. Os Velhos Crentes, por sua vez, terminaram por servir como reserva espiritual e ideológica aos eslavófilos, movimento chauvinista e reacionário, que cresceu, mais tarde, ao longo do século 19, sendo que Dostoievski os percebeu como representantes mais autênticos do que poderia chamar-se de a verdadeira essência russa. Para ele, os staroveri corporificavam a alma eslava em estado puro(*). Catarina, a Grande, todavia, não quis saber daqueles fanáticos por perto. Adepta da Era das Luzes, amiga dos filósofos franceses, viu-os como prova da testaçudice e ignorância russa, hostil ao mundo esclarecido. Considerando incompatível a coexistência no reinado dela de uma burocracia com pretensões racionalistas com aqueles turrões fundamentalistas, ordenou o banimento deles todos para as distantes aldeias da Sibéria. Uma longa fila de carroças, carregando os Velhos Crentes com todos os seus familiares, policiada pelos guardas cossacos, marchou então para os confins da Ásia Central e para os pontos extremos da Sibéria oriental. Os poucos que de algum modo conseguiram permanecer nos centros urbanos, paradoxalmente tornaram-se por vezes grandes empreendedores, burgueses ricos, e alguns viraram milionários como foi o caso de Savva Morozov, um poderoso mecenas apoiador da arte russa.
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Procissão (tela de M.Nesterov)
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Somente durante o reinado de Nicolau II ( 1896-1917), quando este se viu seriamente pressionado pelas forças democráticas e socialistas a abrir o regime durante os episódios decorrentes da revolução de 1905, é que os Velhos Crentes voltaram a receber uma atenção do autocrata.Precisando contar em seu apoio com as forças da tradição e do reacionarismo para deter seus opositores, o czar determinou, na Páscoa de 1905, a abertura do antigo santuário de Rogozhskoye, para com tal ato de indulto e simpatia atrair os Velhos Crentes para a sustentação do trono então abalado. O que de nada adiantou, visto que a revolução de 1917, sepultou para sempre o czar e os fundamentalistas. Stalin, por sua vez, não os deixou em paz. Quando a onda de expurgos e punições varreu a União Soviética nos anos de 1930, os mais afastados rincões dos Velhos Crentes também foram alcançados pela dura mão dos comissários comunistas. Para manterem os ritos, eles tiveram que se refugiar na fria taiga, fazendo seu sinal da cruz com dois dedos quase que congelados. (*) O pensamento de Dostoievski centrou-se na percepção de que a Rússia do século 19 estava ameaçada por um novo cisma, um outro Raskol. Desta feita a reforma proposta era uma revolução social que visava por fim ao czarismo e à ortodoxia, estimulada por idéias subversivas importadas do ocidente pela juventude estudantil aliadas à intelligentsia. Ambas seduzidas pelo socialismo ateu. Dai um dos seus personagens mais famosos da novela Crime e Castigo, chamar-se de Raskolnikov, o cismático.
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