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Velhos Crentes, os fundamentalistas russos

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Tudo teria começado por causa de três dedos e de três aleluias. Há quase três séculos e meio, a Igreja Russa Ortodoxa sofreu um gravíssimo cisma em razão da dissidência que a reforma religiosa proposta pelo patriarca Nikon, aprovada entre 1666 e 1667, provocou entre seus fiéis.

Parte respeitável deles, chamados desde então de Velhos Crentes, staroveri em russo, negaram-se a fazer o sinal da cruz com três dedos ao invés de dois como haviam aprendido bem antes, assim como rejeitaram pronunciar por três vezes na hora da prece a palavra aleluia. Desta revolta nasceu o fundamentalismo cristão-ortodoxo russo.

O czar e o patriarca

Descendo ao inferno (ícone do século 14, Pskov)
Como em tantas outras ocasiões da história, uma vitória militar conduziu a uma reforma religiosa. Na Rússia do século 17 não foi diferente. Tendo vencido o Império Otomano e anexado ao Czarado de Moscou enormes extensões de território da Ucrânia ocidental, o czar Alexei Mikahilovich pôs-se a sonhar em ser um novo César. Porque não vir ele a sagrar-se - a cavaleiro de mais algumas conquistas sobre os turcos - como imperador de Bizâncio?

Se era certo que o antigo império cristão-oriental havia há muito desaparecido, visto que caíra nas mãos do sultão Maomé II em 1453, não custava imaginar a possibilidade de um príncipe russo, algum dia próximo, vir a ser coroado basileu na catedral de Santa Sofia numa Constantinopla (rebatizada de Istambul pelos turcos) recuperada para a cristandade pela força das armas.

A majestade desse basileu, todavia, deveria ser exercida sobre um rebanho com a fé unificada: gregos e russos tinham que obedecer à mesma liturgia e ao mesmo missal, bem como às mesmas escrituras sagradas. Foi então que Nikon, patriarca de Moscou, o enérgico chefe da igreja russa entre 1652 e 1658, entrou com sua parte, forjando o mito de Moscou ser a Terceira Roma, "depósito da ortodoxia".

Afinado com os interesses estratégicos do czar, o grão- sacerdote tratou de promover uma reforma religiosa que equiparasse as duas igrejas, para deste modo aplainar o caminho de Alexei Mikhailovich em direção ao trono de um Império Bizantino restaurado.

A Reforma de Nikon

Patriarca Nikon (1605-1681)
Para efetivá-la, Nikon, sob os auspícios do czar Alexei, convocou um sínodo a ser reunido em Moscou, em 1666-7. Alegou que o cristianismo russo (introduzido no século X pelo monge bizantino Cirilo), sofrera significativas distorções com o passar dos séculos. Os livros santos, o catecismo, os missais, e outros documentos canônicos, de tanto serem copiados e recopiados pelo país afora, apresentavam adulterações profundas, muitas delas mudando inteiramente o seu sentido original.

Para tal diagnóstico contou com o avalizado parecer de Epifânio Slavinetsky, um renomado teólogo ortodoxo, erudito nas escrituras, que o estimulou a dar um fim naquela anarquia. Era, pois, de bom alvitre, o restabelecimento da pureza dos livros santos escritos originalmente em grego bizantino e vertidos para o alfabeto cirílico, impondo um padrão comum ao vasto universo da literatura sacra do império. O patriarca Nikon assumiria assim a função de único revisor e grande editor, ao tempo em que fazia da Igreja russa-ortodoxa uma sede do pensamento teológico, promovendo-se como o czar inconteste dos assuntos religiosos.

Além disso, em complemento à reforma unificadora, era preciso que certos sinais da liturgia fossem alterados, voltando-se à costumeira prática grega-ortodoxa de se fazer o sinal da cruz com três dedos (união do Pai, do Filho e do Espírito Santo) e não com dois com era comum entre os russos. Insistiu ele ainda, por meio de um ucase de 1653, que toda a prece devia ser encerrada com três aleluias e não mais com duas como comumente os russos faziam.

Alertaram-no ainda que até os estimadíssimos e apreciados ícones que se encontravam aos milhares nos altares das igrejas e das capelas russas haviam se afastado do modelo original de Constantinopla, sofrendo, isso sim, influências do barroco polonês. Era preciso, pois, que uma nova série de pinturas santas fossem então encomendadas. No geral, os integrantes da comissão da reforma recomendaram que "os gregos deveriam ser mais seguidos do que nossos antigos patriarcas".

Por detrás disso tudo, ressalte-se que Nikon, igual ao czar Alexei, tinha fortes ambições. Queria tornar-se patriarca da Igreja Greco-Ortodoxa, o Papa do Cristianismo Oriental, colocando sob o mesmo báculo as suas capitais da cristandade-ortodoxa oriental: Moscou e Constantinopla.

A revolta dos beatos

O anúncio seguido da implementação da reforma, produto da aliança entre o patriarcado e o czarado todo-poderoso, atingiu em cheio o sentimento de milhares de russos. Desde os poderosos que moravam nos palácios até os aldeões que viviam espalhados na estepe, sentiram-se tocados nos seus hábitos religiosos. Os mais beatos, desconfiados, não viam nenhum sentido muito claro naquilo. Por que mudar o dia-a-dia dos crentes? Isto só poderia ter sido soprado ao patriarca Nikon pelo próprio Maligno. A reforma, para os santarrões que assumiram abertamente a dissidência, era uma prova de que a Rússia caíra no controle do Anticristo.

Insistiram os revniteli, os "zeladores apoiadores da piedade", como se autodesignavam, em permanecerem fiéis aos tradicionais e antiquados costumes, daí serem logo chamados de Velhos Crentes( staroveri, em russo). Além disso, o episódio todo tocou nos brios russófilos deles. Equiparar-se à Igreja Ortodoxa Grega, como era o propósito de Nikon, significava de algum modo aceitar a infiltração do Catolicismo Romano, visto que, bem antes, a Igreja Grega e a Igreja Romana haviam afinado suas posições dogmáticas durante o Concilio de Florença de 1439.

Além disso, feria a singularidade da Igreja Russa. Ameaçava a autocéfalos – isto é, a sua prerrogativa de ser independente ( situação que ela gozava desde 1448, ocasião em que o patriarca russo-ortodoxo passou a ser escolhido pelos bispos, sem precisar da anuência do clero do Constantinopla).

Nenhum russo de sã consciência, pensavam os beatos, educado na desconfiança ao Ocidente, poderia aceitar que o papa católico romano, assim sem mais nem menos, colocasse um pé no solo ortodoxo por meio da adoção de um catecismo em comum. Para os Velhos Crentes, Moscou era a nova capital da redenção da cristandade, enquanto a Igreja Romana era a sede do luxo e da concupiscência. Viam Roma como a moderna Babilônia pecadora, enquanto Moscou era a imaculada Nova Jerusalém.

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