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Ofendido pelo advogado do rei

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Benjamin Franklin
» O construtor de uma nova nação
» O relâmpago e o pára-raio
» A controvérsia imperialista
» Ofendido pelo advogado do rei
 
O delegado das colônias sabia qual era o clima dominante na América. Ainda quando ele assumira uma função de Postmaster, a chefia do correio na Filadélfia, em 1737, podendo viajar para vários pontos, sentira por toda a parte uma enorme insatisfação contra a metrópole. Por conseguinte a tese oficial, de que os sons ruins que vinham lá do outro lado do Oceano eram apenas ecos de grupelhos de radicais antimonárquicos, não era verdadeira.

Coube a Franklin apresentar em fevereiro de 1774 as queixas dos colonos junto ao Conselho Privado do Rei, composto por nove pares do reino, para que Sua Majestade removesse da colônia os governadores Hutchinson e Oliver. Paralelo a isso algo muito desagradável aguardava-o naquela sessão especial.

Tempos antes, em junho de 1773, a Boston Gazette publicara cartas pessoais de Thomas Hutchinson, ex-governador de Massachusetts, aconselhando ao rei que agisse com energia frente a crescente rebeldia da gente da colônia, enviado para lá mais tropas. A solução dele, pois, era a favor de mais derramamento de sangue. As autoridades inglesas encontraram a mão de Franklin por detrás daquilo, considerando o episódio da publicação não autorizada das cartas (que chegaram a ele num pacote anônimo) uma grave violação da privacidade de uma alta autoridade real, quando não uma ofensa ao soberano. Ele assumiu a responsabilidade.

Fato que serviu de motivo para que o advogado-geral do governo, um tal de Alexander Wedderburn, não somente desqualificasse a petição dos colonos como acusasse Franklin de ser um ladrão da correspondência alheia. Apontou-o ainda como um agitador disfarçado de bom súdito, pedindo ao pares presentes que, se possível, "o marcassem com ferro em brasa", porque ele pousava como se fora "um ministro das relações exteriores de uma Grande República Americana".

Frente aquela saraivada de desaforos, ele que quase estava chegando aos 70 anos, resolveu calar. Ao final da sessão, com evidente negativa à demanda dos americanos, Franklin sentiu que o seu tempo na Inglaterra tinha terminado. Dadas suas estreitas e amplas relações com a elite britânica ainda tentou por todos os meios encontrar uma saída que reconciliasse seus conterrâneos com a Coroa. Constatou que era inútil atar o Novo Mundo ao Velho Mundo e que perdia o seu tempo por lá.

De volta à América

Embarcou de volta para a América em abril de 1775 com a certeza de que o governo britânico tinha trocado os pés pelas mãos ao tratar da questão colonial, comentando então que "A Divina providência enche de orgulho o poder que pretende arruinar". Desesperançara-se em manter o império ainda unido. "Quando penso na extrema corrupção que predomina entre todas as classes deste velho e apodrecido Estado (o britânico) e nas gloriosas virtudes públicas que florescem no nosso país, não posso deixar de ficar apreensivo ao pensar em uma união mais íntima, de que talvez resulte mais mal do que benefícios".

De imperialista e súdito leal, Franklin tinha se convertido num republicano. Para não perder a forma, durante a viagem veio estudando a corrente do Golfo do México, na tentativa de ajudar os comandantes a fazerem o percurso transoceânico em tempo mais curto. Para tanto, por uma semana, ele usou um termômetro colocado no oceano para calcular a temperatura da água para colher dados mais precisos para a sua pesquisa.

Sagrando-se estadista

Franklin na corte de Luis XVI
Quando ele, por fim, chegou à Filadélfia nos começos de maio de 1775, as colônias estavam em pé de guerra. Graves escaramuças entre tropas britânicas e os minute mam, os milicianos americanos, com muitos mortos de ambos os lados, já haviam ocorrido em Lexington e Concord, nas proximidades de Boston. Não havia mais espaço para a reconciliação. Dali em diante a família anglo-saxã dividiu-se. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América seguiriam por caminhos distintos.

Mal desfeitos os baús, elegeram-no para fazer parte do Segundo Congresso Continental (ele perdera o Primeiro por estar em Londres). Ele foi o único dos lideres da independência, o único estadista entre os Pais Fundadores da República que assinou todos os quatro primeiros documentos que ajudaram a erguer a nova nação: a Declaração de Independência (1776), o Tratado de Aliança com a França (1778), o Tratado de Paris que firmou a paz definitiva com a Grã-Bretanha (1783) e, por fim, participou da aprovação da Constituição (1787).

De certo modo, a acusação que lhe fizeram por ocasião daquele infeliz audiência de fevereiro de 1774, terminou por se confirmar. Franklin tendo voltado à Europa, na corte de Luís XVI, acabou por desempenhar de fato o papel de ministro dos negócios exteriores da jovem república americana. Certamente os norte-americanos, povo que endeusou o dinheiro, não encontrou meio melhor de homenageá-lo do que colocar o rosto dele impresso no centro da maior nota de dólar que emitiram a de US$ 100.

Bibliografia

Doren, Carl van - Benjamin Franklin. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1943.

Franklin, Benjamín - Autobiografía. São Paulo, Ibrasa, 1963.

Franklin, Benjamin - Writings. Library of America, 1987

Isaacson, Walter - Benjamin Franklin: an American life. Nova York: Simon&Schuster, 2003.

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