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Um reino em guerra
Por conseguinte, o reino da Espanha estava em guerra permanente. Os conquistadores, com seus arcabuzes, cavalos e seus ferozes cães labregos, submetiam as tribos pagãs lá do outro lado do Mar Oceano, nas terras da América; os soldados-apóstolos do Duque de Alba, por sua vez, tentavam estancar a heresia na Holanda, enquanto que no Mediterrâneo os marinheiros iberos faziam as vezes de cruzados lutando contra os infiéis que seguiam a bandeira do Crescente. Daí entender-se o porque do sucesso da literatura de cavalaria, o motivo dos espanhóis serem fascinados pelos relatos fantásticos dos feitos daqueles personagens super-homens, de Amadis de Gaula, de Rolando, ou de qualquer outro herói daqueles célebres romances medievais que tanto Cervantes logo iria fazer mofa. Meter-se em aventuras, fazer um nome, assombrar as gentes com feitos impensáveis, tornar-se um campeão, passou a fazer parte do imaginário deles todos, inclusive do rei Filipe II que também era admirador de tal literatura de gesta.
Os três monumentos do Século de Ouro
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Real Monasterio de San Lorenzo de El Escorial, o palácio-mosteiro de São Lourenço do Escorial
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Dos três monumentos mais evidentes que nos restaram daquela época do Século de Ouro da Espanha, o primeiro deles foi um monumento religioso-corporativo: a Ordem de Jesus Cristo, a Companhia de Jesus. Fundada em Paris, em 1534, por Inácio de Loyola, um nobre basco que, quando se recuperando de um gravíssimo ferimento que sofreu na batalha de Pamplona de 1516, teve uma súbita conversão a um catolicismo fervoroso, a Companhia de Jesus aspirou unir a disciplina dos militares e o fanatismo sagrado dos monges agindo sob o signo da Cruz para poder melhor combater a heresia e os infiéis assim como lançar-se a converter os pagãos em todas as latitudes da Terra. A meta da Ordem era dotar o cristianismo ameaçado de uma coluna vertebral inquebrantável, tornar os seus seguidores na espada da milícia de Cristo diretamente ligada ao papa. Ainda que bem poucos numa Espanha de muitos padres (os jesuítas uniformizados com a roupeta negra mal perfaziam mil em meio as outras corporações com mais de 70 mil sacerdotes e freiras), eles conseguiram logo se impor como educadores das elites e extraordinários amansadores de índios no Novo Mundo, onde estenderam, entre 1540 a 1740, uma vasta rede de reduções e missões que iam da Califórnia, na América do Norte, à Grande Guaíra, no coração da América do Sul. Graças ao espirito tenaz deles, treinados que eram nos Exercícios Espirituais, o manual de ascese de Inácio de Loyola, e o forte embasamento cultural e senso prático que possuíam, logo ocuparam posições estratégicas nos aparelhos de estado das monarquias absolutistas católicas. Muito deles formados no Colégio Romano ou no Colégio Germânico, ambos fundados por Loyola em Roma, ascendidos a confessores de suas altezas, tornaram-se peças-chave nos jogos de poder da Espanha e de Portugal. Não demorou em que, com o seguir dos séculos, a Ordem de Jesus Cristo se tornasse um estado dentro do estado. O outro monumento, este sim um edifício arquitetônico de grande porte, foi o Real Monasterio de San Lorenzo de El Escorial, o palácio-mosteiro de São Lourenço do Escorial, mandando erguer por Filipe II, a partir de 1562, nas proximidades de Madri. Ergueram-no na Sierra de Guadarrama, na altitude de 1055 metros, distante 49 km da capital, por obra do arquiteto Juan de Herrera auxiliado por um verdadeiro exército de operários, carpinteiros e artesãos vindos de vários locais da península. A construção, uma antecipação do palácio de Versalhes de Luís XIV, financiada largamente pelo ouro e a prata das Américas, estendeu-se por quase um quarto de século até que finalmente aprontaram-na em 1586, tornado-se então na sede da monarquia espanhola. Os soberanos da Espanha que não tinham uma residência fixa, ocupando por vezes os palácios de Valladolid (a maior cidade de Castela então, com 38 mil habitantes), ora os de Madri, tornada capital oficial em 1560, fizeram do El Escorial o centro do seu domínio imperial, domínio que se estendia por muitos oceanos e continentes. A intenção inicial era fazer dele um mausoléu erguido por um filho agradecido ao poderoso pai falecido. Os restos mortais de Carlos V, afinal ele fora o imperador do mundo, não podiam descansar um local modesto como sob o altar mor da Igreja do Mosteiro de Yuste, para onde ele se retirara um pouco antes de morrer em 1558. Todavia Filipe II acrescentou-lhe um edifício para abrigar uns 300 monges, além de incorporar toda a burocracia real e a gente da corte na parte palaciana propriamente dita. A simbiose entre o mosteiro e a sede real foi simbólica e intencional: a monarquia fundia-se inteiramente com o catolicismo. O rei era o protetor da Espanha e o defensor da fé. Enquanto o Santo Ofício mantinha a heresia interna sob o garrote, o rei erguia sua lança para combater os desvios da fé ao redor do mundo. Dotou-o ainda, o Escorial, de uma preciosa biblioteca de 4 mil volumes raros e de valiosa coleção de pintura composta pelos mestres italianos e espanhóis (Ticiano, Tintoretto, Veronesi, Ribera e Zurbarán, entre outros tantos). Naquela época o conjunto de edifícios e torres altas que formavam a maravilhosa construção destacava-se na paisagem agreste da Sierra de Guadarrama, sendo o Escorial com toda justiça chamado pelos espanhóis como a "oitava maravilha do mundo". Por último, como terceiro monumento, este literário, destacou-se o Don Quijote de La Mancha, o livro de Miguel de Cervantes, aparecido em janeiro de 1605, talvez um dos maiores sucessos da ficção ocidental em todos os tempos. Todavia, para melhor perceber-se a dimensão da obra cervantina, contemporânea com o que de melhor a língua castelhana produziu naqueles tempos, é preciso fazer-se uma pequena digressão sobre a história do idioma espanhol.
O castelhano como idioma oficial
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Reprodução de imagem
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Tal como o catalão ou o galego, o castelhano foi um dos tantos legados culturais deixados pela ocupação romana da península Ibérica, derivado do latim vulgar falado pelos legionários de Cipião e de César Augusto. Tornou-se o idioma dos espanhóis por razões geográficas e políticas. A meseta castelhana, situada estrategicamente no centro da península Ibérica, fora a base estratégica da Reconquista, isto é, da política de expansão dos príncipes cristãos no sentido de por fim ao domínio dos mouros sobre a Espanha. Como conseqüência, os reis de Castela (na etapa derradeira graças ao casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão) encabeçaram o processo de unificação nacional que conduziu a vitoria em Granada, em 1492, e ao fim da Al-Andaluz, isto é, do califado mourisco. Ciente desta sua posição de ser a cabeça mais saliente e importante dos reinos da península, já nos tempos medievais o rei Afonso o Sábio havia tornado, desde 1260, o idioma castelhano na língua oficial do reino e não mais o latim. Situação que se viu reforçada pela obsessão da fidalguia castelhana com as questões de pureza de sangue (diziam-se "cristãos velhos" para distinguir-se dos conversos, os desprezados "cristãos novos", judeus ou mouros que foram obrigados a mudar de fé para permanecer na Espanha), pois também insistiram em afirmar que o castelhano, ao contrário das outras falas e dialetos da Ibéria, era castiço, era puro, o menos contaminado pelos estrangeirismos, como era o caso do andaluz (pela presença árabe) e o catalão (por sua proximidade com o francês). O passo seguinte para fazer dele a escrita hegemônica da gente ibera foi a publicação da gramática de Antonio Nebrija, grande filólogo de Salamanca que editou a histórica obra no mesmo ano da descoberta do Novo Mundo, em 1492, dedicando-a à rainha Isabel. O intento dele era fazer com que os funcionários reais e os fidalgos redigissem as coisas de modo uniforme e não de acordo com a veneta de cada um como até então era o costume. A oficialização do idioma e as regras da gramática serviram como os pilares de onde a escrita castelhana partirá para conquistar boa parte do mundo (hoje, o espanhol é o idioma neolatino mais falado no mundo ocidental).
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