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O espelho estraçalhado
O desaparecimento do Império Romano provocou uma involução política na península. Todo o território itálico, a partir do século V, fragmentou-se como se fora um espelho caído, estraçalhado. Cada região, por minúscula que fosse, para desespero de tantos patriotas do futuro, tornou-se então um paese, um país, indiferente ou hostil ao que se passava com os seus vizinhos. A península inteira voltou assim aos tempos pré-romanos, reforçando ainda mais aquilo que chamaram “a mentalidade do campanário”, na não ser senão “uma expressão geográfica”, como a definiu o principe Metternich. Nem mesmo as agressões externas comandadas pelos sarracenos, normandos ou germanos, durante a Idade Média, nem mais tarde, no Renascimento, ocasião em que a Itália, desde 1494, na época da geração de Maquiavel, viu-se palco infeliz de disputas entre os poderosos reis da França e da Espanha, ela foi capaz de fazer uma frente nacional para expulsar os estrangeiros. Ao contrário. Cada célula que compunha aquele corpo político estraçalhado, cada comuna ou cidade, cada condado ou principado, procurava tirar proveito da presença dos estranhos para usá-los contra os seus rivais mais próximos. Milão opunha-se à Veneza, esta à Gênova, Florença estranhava-se com Pisa. Chegou-se por várias vezes ao extremo de algum tirano ou de uma família patrícia apoiar-se num invasor para fazê-lo agir contra seus próprios concidadãos, como, certa vez, foi o caso dos Médicis de Florença.
Palco de eternas rivalidades
Evidente que isso, esta instituição da cizânia, colaborou em muito para fazer da península a terra mais invadida da Europa, atraindo para dentro de si as forças da cobiça e da rapinagem internacional, que promoveram o vale do rio Pó como a região preferencial para que batalhas memoráveis fossem lá travadas. Nada mais fácil aos invasores do que penetrarem num território dividido entre 60 cidades que intrigavam-se sem parar umas contra as outras.Agravou-se ainda mais esta situação de fraqueza interna pelo fato de haver ainda, ao longo do Medievo, duas forças cosmopolitas tentando imperar sobre a Itália: o Sacro Império Romano-germano (fundado por Otão, o Grande, em 962) e a Igreja Católica (reconhecida como oficial por Teodósio, em 390), pois tanto o Imperador como o Papa da Igreja Universal rivalizavam-se na liderança da república da cristandade. A coroa e a mitra, o poder secular e o poder espiritual, ora em acordo, a maior parte em desacordo, travaram uma longa guerra nem sempre diplomática pela hegemonia da Itália e sobre o restante da cristandade européia. Rivalidade esta, tão intensa, que traduziu-se na formação dos dois grandes partidos dos tempos medievais: os guelfos ( a favor do Papa) e os gibelinos (seguidores do Imperador). Não só isso, fez inclusive que o Papado, na contramão da pregação de Cristo, se visse constrangido a recorrer às armas para defender o trono de São Pedro de usurpadores e aventureiros impostos de fora pelo imperador ou qualquer outro rei. Portanto, por séculos a fio, a Itália viu-se assim fragmentada, atomizada, não somente pelos pequenos corpos políticos – a rivalidade entre as cidades-estado – como também entre os grande corpos institucionais daquela época, o Império e o Papado.
O desespero da inteligência italiana
Evidente que tal situação causava desespero e desânimo entre os pensadores, artistas e intelectuais da Itália daqueles tempos. Dante, exilado e desconsolado com sua pátria natal, implorou por carta para que o imperador alemão Henrique IV, que marchava para a Itália , em 1314, estende-se suas operações até a Toscana para restabelecer o poder dos seus partidários. Chegou até a redigir um ensaio político, da Monarquia, escrito entre 1310-14, propondo o acerto entre o Império e o Papado para que, sob a hegemonia do poder secular, a Itália voltasse a gozar de paz e tranqüilidade sob um comando forte, ainda que fosse de um imperador estrangeiro. Tudo inútil.
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