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Petrarca, Cola e Maquiavel
Tempos depois, em 1347, foi a vez de Petrarca aproximar-se do tribuno romano Cola di Rienzo na expectativa que o plano dele da formação de uma confederação de tiranos, viesse a dar uma forma qualquer de unidade à península. Petrarca, imbuído pelo patriotismo, propôs-se a celebrar a grandeza romana passada, como uma emulação para presente infeliz, escolhendo como personagem símbolo de um possível renascer italiano, o general romano Cipião, o africano (poema “África”), desaparecido no século II a.C., o homem que afastara o perigo de Roma cair em mãos inimigas e que derrubara Anibal na batalha de Zama, em 202 a.C., como , por igual, enalteceu a pátria na “Canzone all´Italia” , de 1346. A mesma preocupação moveu Maquiavel, o vigoroso e tido por amoral escritor florentino, na sua expectativa, exposta no derradeiro capitulo do Il Principe, o XXVI, (O Príncipe, de 1513), de que surgisse na Itália invadida e humilhada da sua época, um principe resoluto, um líder corajoso e varonil que a unisse para resgatá-la dos “ barbari”, como ele denominava os reis vindos de fora que faziam da sua pátria um palco de destruições, rapinagens, saques e atrocidades sem fim. Segundo suas próprias palavras: “Não se deve, pois, deixar passar essa ocasião, a fim de que a Itália conheça, depois de tanto tempo, um seu redentor. Nem posso exprimir com que amor ele seria recebido em todas aquelas províncias que têm sofrido por essas invasões estrangeiras, com que sede de vingança, com que obstinada fé, com que piedade e com que lágrimas...Que italiano lhe negaria um favor? A todos repugna este bárbaro domínio." Encerrando o célebre texto com a chave de ouro de um patriótico verso de Petrarca que dizia: “Virtude contra Furor/Tomará armas; e Faça o Combater Curto/ Que o Antigo Valor/ Nos itálicos Corações Inda não é morto”.
A falta do renascimento político
Todavia todos eles, esses impressionantes nomes das letras itálicas, se frustraram porque a unificação, a tão esperada reintegração italiana clamada em prosa e verso somente terminou por ocorrer séculos depois do desaparecimento deles. O melancólico Giacomo Leopardi, ainda em 1818 (canto All´ Itália), em tom de desconsolo, dizia ver “o muros, o arco, a coluna, a estátua e o ermo/ as torres dos antepassados” - os visíveis símbolos da magnitude da Roma antiga -, “mas não via mais a glória nem os louros e os ferros em que tinham sido forjados os nossos antigos antepassados”. Os tempo se passaram e a Itália que, segundo Francesco Fiorentino, filósofo falecido em 1884, esboçara o seu primeiro Risorgimento no século 15 pelas artes (Botticelli, Leonardo, Alberdi, Miguel Ângelo, etc..) e, depois, no século 16, pela ciência (Bruno, Telésio e Galileu), estava ainda bem distante de chegar à unificação visto que este Risorgimento dei Umanismo, não conseguiu ser alcançado na política.
A Revolução Francesa e a idéia nacional
Precisou a Itália esperar pelos efeitos da Revolução Francesa de 1789 para que seus anseios de liberdade e unificação se vissem renascidos. Adormecido por séculos, sonho de poetas, o legítimo sentimento de voltar a formar uma pátria foi reavivado pelos feitos espetaculares de um jovem general republicano de apenas 27 anos, nascido na Córsega de família italiana, Napoleone Buonaparte (que mais tarde, ao estudar em Paris, ele afrancesou para Napoleon Bonaparte), que se tornara o comandante em chefe dos exércitos franceses do fronte da Itália. Derrotando os austríacos em combates memoráveis no Piemonte e na Lombardia durante sua campanha de 1796-7, tomando Milão, onde mandou hastear a bandeira republicana tricolor (verde-branca-vermelha), Napoleão incendiou a imaginação italiana como ninguém mais o fizera até então. “Guerreiro invencível”- disse dele o poeta Ugo Foscolo na sua ode a Napoleão - , “Venceu e a Itália gritou sua liberdade”. Foscolo viu no general francês o punhal de Bruto erguendo-se contra a tirania de César (o imperador austríaco) No ano de 1797, Bonaparte fundou entre tantas outras, a República Cisalpina (formada pela Lombardia e partes dos estados pontifícios), até que a rebatizou como a República Italiana, situação que durou até 1804. Ação esta que fez com que ela se tornasse o futuro embrião do Estado Nacional Italiano. Ainda que bem depois, em 1815, Napoleão fosse derrotado, o sincero desejo de reconquistar a autonomia, a semente do nacionalismo havia sido deixada encravada fundo na alma de muitos italianos, particularmente dos que habitavam as regiões do Norte: os da Lombardia e do Veneto, devido a situação de ocupação que eles lá viviam, sendo súditos do monarca de Viena (o Sacro Império Romano- germano, cujo soberano era o imperador austríaco, havia assegurado “seus direitos” sobre boa parte do norte da Itália desde o Tratado de Rastatt, de 1714). Por outro lado, o culto a uma idéia de uma comunidade unida em torno de uma mesma língua, religião e cultura, cujo arremate final conduziria à formação de um inquebrantável Estado-nacional, já começara a ser celebrada pelos intelectuais românticos, ainda no século 18. Foi sobre esta base que sedimentou-se o principio político dos revolucionários de 1789 preocupados em constituir uma nação unida e soberana que espelhasse a vontade geral popular, substituindo as antigas divisões e hierarquias feudais que ainda pairavam na geográfica política da Europa. O mito do estado étnico, como observou Ernst Cassirer, foi a principal contribuição do romantismo político e sua manifestação mais radical deu-se durante a Revolução de 1848, não sem motivos chamada de “a Primavera dos Povos”, que tornou-se a sementeira da futura formação dos estados da Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, e, claro, da Itália.
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