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A Tragédia Grega



Medéia, a mulher dos feitiços

Encenação e temática

Atribui-se ao teatrólogo Tespis (cerca 536 a.C.) a criação de uma antagonista em relação ao coro, mas desconhecemos qual era a sua função original. Frínico (cerca de 512 a.C.), mais tarde, colocou em cena um ator representando vários papéis inclusive os femininos. Foi somente com Ésquilo que os principais cânones da encenação foram estabelecidos, a começar pela adoção de dois atores: o protagonista e o deuteragonista.

Para Buckhardt a limitação do número de atores na maior parte das representações teatrais deveu-se à questões de ordem técnica. Eram escassos os hypocrites que possuíam a voz sonora e a postura soberba necessária para tornarem-se audíveis, impondo sua presença para uma platéia que podia chegar até seis mil pessoas. O helenista H. D. F. Kitto refuta tal argumentação indicando que o número de atores, maior ou menor, devia-se às intenções dramáticas do autor. Com Sófocles deu-se a adição de mais um ator, o tritagonista, que, seguindo Kitto, entende-se, sociologicamente, como fruto da necessidade de refletir a dinâmica que o individualismo adquire na sociedade ateniense cada vez mais democratizada. É evidente que tal aumento da dimensão da individualidade refletia uma possibilidade dramática mais intensa, permitindo definir com mais precisão os conflitos de caráter, de personalidade e até das posições políticas de cada um. Basta lembrarmos de Antígona, de Édipo, de Orestes, de Prometeu, de Fedra, de Hipólito, e mesmo de Medéia, cujas caraterísticas pessoais fizeram com que se consagrassem como personalidades universais.

O Declínio do Coro

Com o passar do tempo verificou-se uma significativa diminuição da atividade do coro. Entendendo-se que ele representava simbolicamente a coletividade arcaica - vestígio da vida antiga marcada pelo coletivismo tribal - o coro ficoiu cada vez mais desfocado e deslocado na vida urbana. Hegel, o filósofo que dedicou notáveis observações em seus estudos sobre a tragédia, viu a crescente polarização entre o protagonista e o coro uma afirmação hipostasiada da relação social: o conflito entre o herói aristocrático e a comunidade plebéia. Esse enfrentamento favorecia e destacava dramaticamente o herói na medida em que ele era a exclusiva vítima de um destino ingrato e cruel, atraindo para si as atenções do auditório.

O Enredo Trágico

Parece que só em seu início a tragédia preocupou-se com a temática contemporânea. Frínico abordou a "Tomada de Mileto" em 492 a.C. e, como lembrou um assunto desagradável para os atenienses, ele foi multado em mil dracmas. O próprio Ésquilo iniciou sua carreira de vencedor dos concursos trágicos com a peça "Os Persas". Tudo nos leva a crer que abordar assuntos extraídos da atualidade trazia problemas para os autores, fazendo então que procurassem inspiração nos velhos mitos e lendas conhecidos por todos. Nesse sentido não havia originalidade, pois as histórias eram de domínio público. Esse é um dos aspectos que marcam a profunda diferença entre o teatro clássico e o moderno. Atualmente o público moderno é atraído pela novidade do enredo, que ser surpreendido. Para os atenienses, pelo contrário, eram os efeitos dramáticos que o autor obtinha extraídos de um velha e sabida história é que importavam e não o enredo. Isso explica por que temos, na mesma época, a mesma história teatralizada por autores diferentes, sendo que cada um ao seu modo, selecionava um aspecto específico da história, dando mais ênfase ao que considerava como o mais adequado aos seus propósitos dramáticos.

Na "Orestéia" de Ésquilo, por exemplo, Electra aparece como um personagem absolutamente secundário, apenas um elemento de reforço ao drama vivido pelo seu irmão Orestes. Com Eurípedes, Electra adquire outra dimensão, sendo a protagonista, a autora intelectual, da terrível vingança que levou sua mãe Cliptemnestra à morte, enquanto que o seu irmão Orestes, é visto apenas como o instrumento do seu ardil. Sabe-se que o público permitia algumas alterações na história original. Na lenda, por exemplo, Édipo não se cegou, morrendo tranqüilamente em seu leito. Sófocles, porém, deu-lhe o destino de um pobre cego, auto-exilado e abandonado por todos. De resto, o público ateniense sempre deu demonstrações de arraigado conservadorismo, o que explica o insucesso de Eurípides, o mais "avançado" de seus teatrólogos. A constância desse autor em problematizar abertamente o contemporâneo e apresentar às injustiças cometidas (basta lembrarmos as filípicas de Medéia contra os Homens em geral e o ideal do guerreiro em particular) fez com que ele fosse considerado pelos seus contemporâneos, apesar dos louvores de Aristóteles, como um autor menor (e um eterno derrotado nos concursos teatrais).

O Mito como Inspiração


Máscara de um jovem
A possível explicação da extraordinária quantidade de peças produzidas pelos três grandes clássicos da dramaturgia grega (ao redor de trezentas, das quais só nos restaram 32), deveu-se à riqueza temática das histórias míticas gregas. Todas elas estreitamente vinculadas à cultura coletiva. De certo modo as lendas e as narrativas que envolviam os heróis e as famílias ilustres formavam um imenso reservatório abeberado sem parar pelos poetas.
Os aspectos técnicos


O mapa físico do teatro grego

O antigo teatro grego, construído sempre em forma circular devido ao simbologismo mágico e perfeito da circunferência, compunha-se de três grandes partes: 1) a Orquestra, em geral uma espaço circular bem em frente à platéia de onde o chefe do coro, o koriaphaios, dirigia-se aos presentes explicando o que iriam assistir; 2) o Proscênio (em frente a cena), a parte decorada do tetro, onde os atores (Hypocrates) faziam a sua encenação (divida em três entradas), onde os cenários se alteravam: 3) O Auditório, o Kolia, em forma semicircular que envolvia a orquestra e o proscênio. Era dividido em dois setores (Diazoma), sendo que o que estava mais próximo do espetáculo era chamado de Proedria, reservado às autoridades e aos convidados mais eminentes, e onde se sentava o mais honorável dos espectadores - o Elefthereos Dionyssos, o sumo sacerdote de Dionísio.

O espetáculo utilizava-se de uma série de recursos mecânicos para auxiliar o efeito dramático pretendido pelos poetas, destacando-se: 1) o Aeorema, era uma espécie de trapézio em que um deus (Theos ex machiné), era descido até o cenário para resolver uma trama aparentemente sem solução. Simbolizava uma espécie de chegada da justiça reparando os desacertos dos homens procurando estabelecer uma concórdia geral; 2) O Periactoi, eram dois pilares colocados nas extremidades do cenário que giravam ao redor de um eixo ajudando a mudar o fundo da cena; 3) O Ekeclema, uma plataforma suspensa na qual se colocava o corpo das pessoas mortas, porque nunca se representava em frente ao pública a morte ou o suicídio dos personagens.


Uma persona, a máscara do ator
Os atores, sempre homens, apresentavam-se com Personas, com máscaras, não revelando sua verdadeira identidade (daí serem chamados de hypocrites). A idade, o sexo, a importância social e o estado espiritual de cada personagem vinha, por assim dizer, "escrita" na máscara. Ela tinha que ter uma expressão (tristeza, alegria, pavor, etc..) claramente identificada pelo público, sem pairar nenhum dúvida sob qual tipo de emoção o personagem se encontrava dominado naquele momento do ato.

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