Erasmo e a reconciliação
"O povo corre para as igrejas como a um tetro para divertir-se. Então é preciso levantar-se dinheiro para o grande tributo do órgão, por multidão de meninos...Neste meio tempo nada de bom é ensinado." - Erasmo - "..ad veram Theologiam", 1519
Religião e Dinheiro, misturados, em qualquer tempo ou época inspiraram sempre suspeitas. E não sem motivo, pois uma, a Religião, associa-se às coisas do espirito, à fé e à pureza, o outro à materialidade, à safadeza e à corrupção. Cristo, como é sabido, desconfiava do sonante. Ainda quando ele aconselhou a um jovem abastado a desfazer-se dos bens em favor dos pobres, mesmo assim, como ele comentou com seus discípulos, acreditava ser mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico alcançar o Reino de Deus (Mateus, 19).
Redobrou sua posição em manter a fé longe do argentário quando expulsou os que mercadejavam nas cercanias do Templo em Jerusalém e, em seguida, em resposta a uns fariseus e herodianos que lhe inquiram sobre a legitimidade dos imposto exigido pelos romanos, ao mostrar-lhes um denário com a face do imperador, conclamou-os, afastando-o de si, que o devolvessem, que dessem "a César o que é de César, e o que é de Deus, a Deus"( Mateus,22).
Martim Lutero, um rude monge alemão que se tornara doutor em teologia, mais de mil e quinhentos anos depois desses episódios relatados no Novo Testamento, de certa forma, não viu mal nenhum em rejeitar veementemente a comercialização de indulgências que estava sendo praticada na sua época com a autorização papal. Quando Tetzel, um representante do arcebispo Albert de Brandeburgo e do Banco Fugger, aproximou-se das propriedades de Frederico o sábio, o príncipe-eleitor da Saxônia e suserano do doutor, visando o escuso e nefando negócio de perdoar os pecados em troca de dinheiro, Lutero foi a luta. Sentiu-se um Cristo, empunhando um cajado contra os vendilhões.
Ao afixar no dia 31 de outubro de 1571, nas portas da igreja do Castelo de Wittemberg, em Augsburg, suas "95 teses", provocou o maior racha na história da Cristandade Ocidental. O argumento central de Lutero, de raiz paulina, era simplíssimo. Ninguém estava autorizado na Terra, nem padre nem papa, a salvar fosse quem fosse. A Salvação era um atributo exclusivo de Deus. Nem mesmo as boas ações adiantavam. Sequer esmolas ou confissões arrependidas. Como poderia o Onipotente, policiando um universo infinito, levar em conta os gestos de caridade ou sincera constrição de um ou outro dos crentes? Logo, traficar perdão em nome de Deus era no mínimo obsceno.
O Papado, porém, reagiu a Lutero como faria um chefe de corporação ofendido em seus privilégios. Em 1520, Leão X, um descendente dos Medici (um glutão, de quem Voltaire disse "ter Deus no estômago... e o dinheiro extorquido das indulgências nos seus cofres e nos da sua irmã"), expediu uma bula excomungando-o. Foi o início do desastre. Ao ter a Cúria permitido, ao longo dos séculos, que a Igreja-estado mantivesse ligações incestuosas com o Dinheiro, fez por contribuir para que parte da sua imensa construção medieval, estocada por Lutero, ruísse para nunca mais se compor. Erasmo, o grande humanista, ainda tentou uma apaziguação, apostando numa reforma do clero pela brandura. Aquela altura porém, por detrás do monge doutor bramia uma Alemanha em pé de guerra, indignada contra o bispo de Roma.
Agora aproveitando-se do clima geral de concórdia existente na Cristandade celebrando o Jubileu de Cristo, Católicos e Luteranos, depois de cinco séculos de turras e desaforos, decidiram reconciliar-se, assinando na mesma Augsburg, o epicentro da vulcânica reforma, a Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação, harmonizando suas concepções sobre a Salvação. Causa de toda a discórdia anterior. É uma homenagem tardia a Erasmo. Porque não o ouviram então?