Heidegger
e a Filosofia da Irrupção
Por mais que Heidegger tentasse manter a filosofia num campo próprio, sem seduzir-se pela ciência ou pela sociologia, de alguma forma deixou-se permear, ainda que por um curto tempo, pela política. Afinal numa Europa dividida entre Hitler e Stalin não poderia ser diferente.
A Filosofia da Irrupção
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Hitler, cavaleiro andante
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Afastado da reitoria de Freiburg em abril de 1934 e preterido da "abadia" do mosteiro científico que pretendia instalar em Berlim, a
Dozentakademie, fracassada sua incursão pela política, Heidegger refluiu para a filosofia. Desejou preservá-la como um espaço especial, colocando-a à disposição do "espírito da irrupção" que estava ocorrendo na Alemanha com a ascensão do nacional-socialismo. Para tanto era preciso uma nova metafísica - "uma nova experiência fundamental do
seyn" (neologismo heideggeriano para dizer da experiência vivida, daquilo que já foi experimentado e incorporado ao ser). Hitler, para Heidegger, era o guia-mestre que por meio da audácia arrancara o povo alemão da caverna (a barafunda e o
Kulturpessimismus da República de Weimar), trazendo-o para a claridade e a plenitude do
völkisch Staat, do Estado
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A face da filosofia da irrupção
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nazista. Heidegger aprofunda então seus estudos sobre dois paradigmas do novo regime, os poetas-filósofos Hölderlin e Nietzsche, querendo estabelecer uma ponte, em suas conferências sobre a dupla, entre a literatura anti-racionalista - elegendo-os como pilares da Nova Ordem -, e a situação de euforia e mobilização coletiva em que se encontrava o país. Porém, nuvens se acumulavam no horizonte, ameaçando e cerceando o espírito da irrupção: ao oeste, a América bramia a técnica, ao leste, a URSS era uma intimidação econômica.
Um Diagnóstico do Tempo
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O homem puro contra a técnica
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A era moderna caraterizava-se, segundo ele, pela derrubada do poder do espírito (entendida como "a morte de Deus", como o colapso da metafísica clássica, ou ainda o impotência da teologia, etc.). E isso deu-se em razão do que? Porque o espírito no nosso tempo fora capturado pela razão instrumental, deixando-se tomar de assalto ou ser seduzido pela "inteligência calculadora" - expressão de interesses em geral espúrios (sejam ideológicos ou lucrativos). Além disso, colocou-se à disposição de uma
Weltanchauung, de uma visão de mundo marcadamente ideológica (o liberalismo, o marxismo), ao mesmo tempo em que - tanto a versão marxista como a positivista - voltou-se quase que exclusivamente para as coisas vulgares, terrenas, como a regulamentação e o "domínio das condições de produção material". A crítica de Heidegger à modernidade, que ele via como uma espécie de doença dos tempos, indutora da desumanização do homem, retoma assim as antigas bandeiras do romantismo (valorizando a intuição, o sentimento, o desprendimento, o "verde" da vida) contra a razão (planejamento, previsão, interesse, utilidade, precisão, o "cinza", enfim), ressurgindo como uma confirmação, em linguagem mais rebuscada e obscura, da célebre frase de Goethe ("Cinza é o conhecimento, verde é a árvore da vida").
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