Os Filósofos e as Máquinas
A desconfiança da presença das máquinas e suas funções não partiu, como muitos pensam, de trabalhadores ignorantes ou de gente do campo. A fobia à maquina e ao que ela representa, como a racionalização da produção e demais implicações, foi também muito comum entre pensadores e outros consagrados homens de letras.
Platão contra a Calculadora
"Não sentir entusiasmo pela ciência e pela tecnologia não é apenas tolice - é suicídio."
Carl Sagan, 1996
Consta que Platão, certa vez, advertiu seriamente dois dos seus discípulos por terem se socorrido de um aparelho que lhes permitira realizar, em pouco tempo, um cálculo geométrico. Advertiu-os de que recorrendo a um artificio técnico - a utilização de algo mecânico - "rompiam e deterioravam a dignidade de tudo o que existia de excelente na geometria", rebaixando-a do sublime abstrato às coisas sensíveis e materiais. Recorrer à técnica era associar-se ao vulgar, ao comezinho e ao banal.
Esse é um clássico exemplo do misoneísmo, do enorme preconceito que os homens sábios de então moviam contra as coisas novas e práticas, contra o que poderia se identificar com o trabalho manual e aplicação tecnológica. Segundo Pierre-Maxime Schul, que historiou a relação dos filósofos com as máquinas, esse bloqueio contra a tecnologia foi um poderoso inibidor psicológico, além, naturalmente, da difusão da
escravidão, que fez com que a economia daqueles tempos pouco conseguisse ir mais além da estagnação permanente. Mas as possibilidades da máquina, ou de um engenho tecnológico qualquer, vir a mudar o mundo já estava subentendido no dito de Arquimedes "dai-me uma alavanca que eu erguerei o mundo".
Preconceito contra o Trabalho
A existência da escravidão, praticada em todo o mundo antigo e depois estendida às Américas, tornava o trabalho indigno aos olhos dos homens livres, daí todas as tarefas a ela associadas parecerem-lhes degradantes. Mentalidade essa que, na cultura ocidental, só começou a se desfazer nos princípios do Renascimento, quando a vida ativa - apreciada pelos mercadores, descobridores e aventureiros - começou a ofuscar a vida contemplativa, tão a gosto de Aristóteles como dos monges cristãos. O homem verdadeiramente livre vivia para o ócio, enquanto o negócio era entregue à gente inferior, aos comerciantes ou aos escravos. Logo nenhum homem livre poderia atentar seriamente em dedicar-se às maquinas ou as melhorias produtivas em geral. Arquimedes, morto em 212 a.C., foi uma honrosa exceção em todo o mundo antigo.
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O espelho exagonal de Arquimedes, usado na guerra
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