Os Fanáticos do Imperador
O livro
Corações sujos, de Fernando de Morais, restaura as ações da Shindo Renmei, a até então esquecida seita nipo-fascista que, entre 1945-46, por não aceitar a derrota do Japão na guerra, aterrorizou boa parte da comunidade japonesa em São Paulo. Além do livro ser um grande achado jornalístico, descreve, com a agilidade e presteza de sempre do autor, como o véu ideológico que cobre os militantes pode, contra todas as evidências, repudiar a realidade mais evidente.
Memória e Ideologia
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A explosão nuclear foi minimizada pela Shindo Renmei
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Os estudiosos da mente humana sempre se impressionaram com a capacidade que homens e mulheres têm para selecionar e guardar aquilo que os impressiona, que os convêm ou os interessa, manifestando indiferença pelo restante. O cérebro funciona pois como um enorme filtro seletivo, descartando o que lhe parece inconveniente e desinteressante, ressalvando e guardando na memória aquilo que lhe agrada. O mesmo pode-se dizer dos adeptos das ideologias. O século XX foi pródigo em produzir grandes movimentos de idéias e ideais, os mais extremados, os mais arrebatadores, que mobilizaram milhões de adeptos em todo os cantos do mundo, gerando comportamentos muito próprios em seus militantes. As ideologias políticas, porém, não se limitaram a dar aos homens uma visão de mundo (o que Hitler chamava de
Weltanchauung), mas também, desde que os acontecimentos lhes fosse politicamente adversos, cegaram-nos para eles. Rejeitar a realidade, mesmo a mais evidente, foi um dos traços mais espantosos e inexplicáveis do comportamento ideológico do século que passou. O caso da seita japonesa Shindo Renmei, que atuou em São Paulo nos anos 40, encaixa-se perfeitamente neste caso de negação absoluta do real.
A Dor da Derrota
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O general MacArthur, em posição informal, ao lado do imperador Hiroito
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Nos dias seis e nove de agosto de 1945, aviões norte-americanos lançaram duas bombas atômicas sobre o Japão, contra quem os Estados Unidos estavam em guerra desde dezembro de 1941. O efeito foi devastador. As cidades de Hiroxima e Nagasaki, num par de minutos, deixaram de existir. Estimaram-se as baixas em 150-200 mil pessoas, incineradas pelo calor desprendido da explosão nuclear e pelos efeitos da radiação. Simultaneamente a este desastre de dimensões humanas sem precedentes, a União Soviética destruía as forças japonesas remanescentes que ocupavam a região da Manchúria chinesa. Atacado por terra, mar e pelo ar, tendo seu território e a sua população submetida ao cerco e aos aterrorizantes bombardeios, só restou ao outrora todo-poderoso Império do Sol Nascente aceitar render-se. Não foi uma decisão fácil. Em seus 2.600 de história, o Japão jamais sofrera uma derrota sequer, mantendo seu arquipélago a salvo de todas as invasões. Assim, foi um espanto geral quando os súditos japoneses ouviram pelo rádio, no dia 15 de agosto de 1945, a voz do imperador Hiroito, tido como um deus-vivo, o descendente da divina deusa do Sol, Amaterasu Omikami, explicando-lhes a necessidade, sem mencioná-la explicitamente, de uma capitulação incondicional.
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