Dostoiévski Contra o Palácio de Cristal
O ano de 1863 foi trágico para o escritor Dostoiévski. Perdeu a mulher e o irmão. Além disso, com a censura czarista ordenando o fechamento da sua revista, foi obrigado a assumir todas as dívidas e os encargos familiares do irmão morto. Envolvido por este cenário abrumador e triste, oprimido pelas circunstâncias e pelo regime, ele pegou a pena para atacar o Iluminismo e todo e qualquer projeto dos progressistas da sua época de virem a constituir no futuro uma sociedade justa e igualitária - o Palácio de Cristal.
Vara Pavlovna tem um sonho
A jovem Vara Pavlovna era dada a ter sonhos generosos. Num deles, imaginou a humanidade inteira organizada como no Palácio de Cristal - o enorme pavilhão de vidro que fora construído em Londres para abrigar a Exposição Mundial de 1851. O espetacular edifício fora erguido no Hyde Park com um milhão de pedaços de vidro e ferro para mostrar ao público todas as preciosas formas, fossem artesanais ou industriais, que o engenho humano alcançara até aquela época (*). Como não podia deixar de ser, o belo e elegante prédio virou símbolo modernista das esperanças de um futuro promissor, das coisas maravilhosas que os homens poderiam fazer desde que tomassem o rumo certo. No sonho de Vara, as multidões percorriam o interior da exposição em êxtase, cantando "vivendo como reis". Como o mundo poderia ser feliz se as máximas da razão e o sincero desejo de progresso imperassem sobre os poderes do obscurantismo e da irracionalidade! Este também era o desejo do filósofo russo N. G. Chernichévski, autor do Shto delat?, "O que fazer?", livro escrito em 1863 e que causou furor na história das idéias na Rússia do século XIX, um manual do inconformismo revolucionário, verdadeiro evangelho da geração dos narodnikis, os populistas, no qual Vara era a heroína.(**)
(*) Quem coordenou a obra foi o príncipe Albert, consorte da rainha Vitória, que esperava exibir com o palácio a exuberância do império britânico, durante a Exposição Mundial de 1851. Depois ele foi remontado no Sydenham Hill, onde permaneceu até um incêndio ocorrido em 1936.
(**) Em 1902, Lenin inspirou-se em Chernichévski, recorrendo ao mesmo título de O que fazer? para escrever uma orientação política aos seus partidários na luta contra o czarismo.
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O Palácio de Cristal, imagem da sociedade perfeita
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O subterrâneo contra o palácio
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Crianças pobres da Rússia
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Foi contra este otimismo, esta aposta num futuro bem melhor, guiado pelos valores mais altos da razão, que Fiódor Dostoiévski ergueu-se. No ano seguinte, em 1864, ele deu uma resposta às expectativas generosas de Chernichévski. Publicado em série na sua revista
O Tempo, o escritor tentou, por um meio oblíquo e tortuoso, dissuadir a todos de haver qualquer esperança benfazeja para com a humanidade. Para tanto, recorreu a uma espécie de livro de memórias, intitulado
Zapiski iz podpolya, "As confissões do subterrâneo", registro monologado no qual um obscuro burocrata retirado faz uma exposição das suas observações sobre a existência em geral e uma crônica da sua vida mesquinha, medíocre e má. Para ele não havia ilusões. Não passavam de "ilusões douradas" a ambição de poder melhorar o comportamento e o sentimento do homem. Não havia nenhuma certeza, como afirmavam muitos filósofos, de que o ser humano era vocacionado para o bem e para a obediência à razão. E isso se devia a que no íntimo de cada ser humano existia um mundo oculto e sombrio, que, ao manifestar-se, ao vir à superfície, desmanchava num só gesto todas as miragens que poderíamos ter sobre construir-se, no futuro, uma sociedade perfeita.
Portanto a Utopia Socialista de Chernichévski, suprema encarnação das aspirações mais elevadas da humanidade, era uma enorme perda de tempo. Assim, para ele, a menção ao Palácio de Cristal era algo blasfemo, pois ele abominara aquela construção, "identificando nela uma monstruosa encarnação do materialismo moderno, a versão contemporânea do deus da carne, Baal" (Joseph Frank, Dostoievski,
la secuela de la liberación, México, 1993, pag. 364). Assumindo-se como um reacionário, Dostoiévski posicionou-se não só contra o seu conterrâneo Chernichévski, mas igualmente opôs-se à longa tradição filosófica racionalista que deitava raízes nos tempos dos gregos. De certo modo, sob o ponto de vista da subjetividade, a revolta niilista do subterrâneo contra o palácio, pregada por Dostoiévski, pode ser entendida como uma das metáforas da luta do inconsciente frente às imposições da consciência, do ego irracionalista, contra os ditames do superego moldado pela razão.