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Dickens e Twain
O Negócio das Conferências


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Charles Dickens no palco, lendo

Em 1867, recém-encerrada a guerra da secessão americana, Charles Dickens, o mais bem sucedido escritor inglês do século XIX, no auge da fama, realizou sua segunda viagem aos Estados Unidos, país onde estivera vinte e cinco anos antes. E, tal como da primeira feita, o público americano o acolheu com fervor apaixonado. As conferências de Dickens, triunfantes, superaram qualquer expectativa. O prestígio dele continuava absoluto, intacto, mesmo tendo transcorrido um quarto de século das apresentações que fizera em 1842. Numa delas, em Boston, na platéia lotada, acompanhado daquela que seria sua esposa, encontrava-se Mark Twain. Ao ver o desempenho do novelista inglês no palco, decidiu-se ali mesmo entrar para "o negócio das conferências."

Dickens na América


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O órfão Oliver Twist e o malvado Sikes

Desembarcando no porto de Boston em 19 de novembro de 1867, Dickens logo instalou-se no Parker House Hotel, que foi sua base de onde saía para suas sensacionais conferências no French Theater. Logo no primeiro dia, uma multidão esperou por 12 horas na rua a possibilidade de assistir o mestre dos mestres da novela inglesa. Dickens, naqueles tempos, era bem mais popular entre os americanos do que Shakespeare, e seus heróis "Oliver Twist" e "David Copperfield" eram personagens bem mais conhecidos do que "Hamlet" ou "MacBeth". Dickens surpreendeu-se, pois apesar de terem transcorridos vinte e cinco anos, o seu prestígio e popularidade não só estava intactos como haviam aumentado ainda mais. O público americano demonstrava estar intimamente ligado à fraseologia que ele empregava e tinha completo domínio das tramas das obras dele. Da primeira vez que ele estivera nos Estados Unidos, Dickens causara um certo mal-estar, pois não poupara desaforos lançados contra os editores americanos que simplesmente pirateavam seus livros sem dar-lhe um dólar sequer. Mas aquela altura, um mar de simpatia o cercava, todos o paparicavam, e Dickens resolveu baixar as defesas. Fosse em Boston, Nova York ou na Filadélfia, a multidão o adorava.

Mark Twain na platéia


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Mark Twain como conferencista

Nas suas memórias (*), que ele começou a registrar em 1904, Mark Twain observou que ele devia duas coisas definitivas à presença de Dickens em Boston naquela ocasião. A primeira delas é que ao visitar seu amigo Charley Langdon, em dezembro de 1867, instalado num hotel com parte da sua família, Twain conheceu a irmã dele, a jovem Olívia, que mais tarde viria ser a sra. Clemens (o nome de batismo de Twain era Samuel Clemens) - "uma mocinha suave, tímida e linda". Naquela noite ele os acompanhou ao Auditório Stenway, onde se davam as "leituras" de Dickens. Twain saiu empolgado, decidido a abraçar aquele "negócio de conferências". Mais ainda aferrou-se à idéia quando descobriu que o novelista embolsara a impressionante soma de 200 mil dólares, apenas naquela temporada americana.

(*) The autobiography of Mark Twain (org. p/Charles Neider, 1958)





 
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