"O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase dizer a caricatura, do velho mundo burguês, sentimental, católico, devoto, explorador, aristocrático - apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo moderno e democrático - preparar a sua ruína."
Eça de Queiroz
Eça de Queiroz
O Voltaire de Portugal
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Eça de Queiroz (1845-1900)
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Não houve o que fosse de moderno que o doutor Carlos da Maia não instalasse no seu novíssimo consultório em Lisboa. Formado na Inglaterra a peso de ouro pelo avô abonado, ele viera com a pretensão de mudar as coisas em Portugal. Tudo novo, tudo científico, correto, lustroso, batuta. Coisas de assombrar os pacientes e embasbacar os charlatães. Mas qual o quê! Mal correra o tempo e ele já se enfastiava daquilo tudo. Deu-se a sair com os amigos, impagáveis, estroinas, gente de muito discurso, de muito rompante verboso, que muito do mundo queriam transformar, pelo menos de boca para fora.
O desalento da sociedade portuguesa
Não demorou para que tudo o desinteressasse, a ele e aos amigos, que, no final, desistiram. O país era intransformável! Assim Eça de Queiroz, por meio do doutor Carlos da Maia, assinalou sua própria trajetória, sua e de toda a chamada Geração de 70, os jovens intelectuais portugueses que, no impulso da Comuna de Paris de 1871, haviam declarado guerra à existência catatônica, carola e bocó, em que Portugal vivia.
Pensaram eles em dar uma sacudida naquele bolor medieval que, como um véu sufocante, cobria o país da Ponta de Sagres ao sul, ao Minho no norte. Eça, um Voltaire da sua época, resolvera combater aquele estado de coisas com a pena e com sarcasmo. Para tanto fundou com Ramalho Ortigão, o jornal "As Farpas", como também foi um destacado ativista nas tão censuradas Conferências do Casino, feitas em 1871 (representaram a ruptura definitiva dos novos escritores com a geração passada).
O riso e o sarcasmo
Na melhor tradição de Rabelais, escolheu o riso como o melhor cutelo para abater o parasitismo, o beatismo e o cretinismo, que tomara conta do país. Para qualquer pessoa de bom censo, para qualquer português ilustrado daquele século, era irritante, quando não escandaloso, ver ao seu redor a explosão das inovações, das idéias e das novas tecnologias, enquanto que Portugal parecia estar jogado às moscas, bestificado, contemplando um Atlântico que há muito não era dele, povoado de padres e de mulheres rezadeiras, todos de preto. E, diga-se a bem de Eça que ele tentou e tentou - a sua volumosa obra, jornalística e novelesca, assegura isso.
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