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CULTURA E PENSAMENTO

Camus contra Sartre: o fim da revolução (parte III)

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» Camus contra Sartre: o fim da revolução (parte I)
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Em outubro de 1951, deu-se em Paris a publicação de um livro que abalou a esquerda francesa. Tratava-se do ensaio de Albert Camus intitulado "O Homem Revoltado" , uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789. Entre outras coisas, provocou o fim da longa amizade que Jean Paul Sartre mantinha com ele.

O efeito Koestler

Para Ronald Aronson, um estudioso norte-americano do panorama do existencialismo francês daquela época, o fator que muito impulcionou a virada de Camus para um anticomunismo mais radical deveu-se a presença de Arthur Koestler, um refugiado húngaro que passara a freqüentar a troupe que cercava Sartre e Simone e que alcançara a celebridade com um livro que antecipou os começos da guerra fria: Darknes at Noon (Do zero ao infinito), aparecido em 1941, que relatava a capitulação ficcional de Bukharin durante os Processos de Moscou ( 1936-38), seguido de um outro intitulado Le Yogi et le Commissaire ( "O Ioga e o Comissário"), de 1945, onde denunciava caminho violento tomado pelos comunistas.

A .Koestler ( 1905-1983)
Koestler era o exemplo vivo do intelectual renegado, um ex- agente comunista que durante a prisão na Guerra Civil da Espanha, desiludido com a causa, assumira uma posição crescentemente anticomunista, efeito que levou ao escritor franco-argelino, seu amigo recente, a afirmar que "comunismo = assassinatos".

A influência dele sobre Camus fez por acelerar a sua mutação. O romancista que fora um militante do Partido Comunista na sua Argélia natal (1936-38), um ativista da Resistência, o tão admirado homem engajado de Sartre, começou a se desengajar no após-guerra, procurando um outro caminho que não o levasse a aliar-se ao comunismo, como Sartre terminou fazendo.

Em verdade, a postura que ele assumiu era um tanto irreal ou mesmo utópica devido a dimensão das forças em crescente colisão, a do Bloco Capitalista-Ocidental contra o Bloco Comunista do Leste. Rivalidade que envolveu o mundo e o ameaçou durante anos com um apocalipse atômico. Naquela situação era impossível haver "uma terceira posição" que conseguisse permanecer eqüidistante deles.

Tenha-se em conta o medo que a Guerra da Coréia indiretamente provocou na população parisiense, entre 1950 e 1952. Muitos passaram a temer que com o acirramento do confronto no extremo-oriente, os soviéticos em represália à intervenção norte-americana comandada pelo general MacArthur, poderiam invadira a França. Francine, a mulher de Camus, confessou à Simone de Beauvoir que, se tal acontecesse, ela se veria obrigada a matar seus dois filhos e se suicidar, pois não poderia suportar viver "sob os vermelhos". Os alunos de Simone, por sua vez, juram fazer um "pacto de morte" pelo mesmo motivo. A geração que sobreviera a Hitler não queria entregar-se a Stalin. Este pois era o clima que cercou a polêmica.

Seja como for o desentendimento entre os dois, entre Camus e Sartre, teve uma conotação universal resumindo os conflitos da inteligência ocidental no século XX ( pelo menos desde 1917).

Afinal, ao longo do século XX, todos os seres pensantes foram chamados a se colocarem a favor ou contra o comunismo, da mesma forma que ocorrera quatro séculos antes no Ocidente por ocasião da Reforma Religiosa nos começos do século XVI. Fato que dissolveu o Partido dos Humanistas da época do renascimento, forçado a abraçar a ortodoxia católica ou a dos protestantes.

Nem o afeto e admiração recíproca que ambos sentiam um pelo outro resistiu à pressão da Guerra Fria. Camus somente tinha olhos para os crimes de Stalin e para os desatinos da esquerda, enquanto Sartre insurgiu-se contra a guerra colonialista que a França movia primeiro na Indochina (1945-54) e depois na Argélia (1956-1961) e também contra os Estados Unidos que lhe dava apoio.

O resultado disso é que Camus tendia a silenciar frente aos desmandos e atrocidades praticadas pelo colonialismo, enquanto Sartre, ao contrário, fechava os ouvidos para a denúncia dos campos forçados soviéticos, ao Processo Slansky, à "conspiração dos médicos", ao fuzilamento dos trabalhadores alemães alçados contra os soviéticos em Berlim, em 1953.

Somente afastou-se dos comunistas em 1956, com o famoso ensaio Le phantome de Stalin ("O fantasma de Stalin"), escrito em repúdio à invasão da Hungria pelo Exército Vermelho.Numa entrevista ao L'Express anunciou "Eu estou rompendo, com pesar, mas totalmente, meus laços com meus amigos escritores soviéticos que não denunciam (ou não podem denunciar) o massacre na Hungria. Nós não mais podemos qualquer amizade com a facção dominante da burocracia soviética."

Envolvidos na Guerra Ideológica do Século, Camus e Sartre terminaram mergulhando fundo nela pondo fim a uma das mais produtivas amizades intelectuais da literatura francesa do século XX.

Bibliografia

Aronson , Ronald – Camus e Sartre: o fim de uma amizade. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2007.

Beauvoir, Simone – A Força das Coisas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,1995.

Beevor, Anthony – Paris after liberation: 1944-1949. Londres: Penguin Books, 1994.

Camus, Albert – O Homem Revoltado . Lisboa:Livros do Brasil, s/d.

Cohen-Solal, Annie – Sartre: 1905-1985. Porto Alegre: LP&M, 1986.

Furet, François – O Passado de uma Ilusão. Ensaios sobre a idéia comunista no século XX.São Paulo: Editora Siciliano, 1995.

Levy, Bernard-Henri – O Século de Sartre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

Lottman, Herbert – Albert Camus. Paris: Seuil, Paris, 1978.

Lottman, Herbert – Rive Gauche.Paris: Points, 1984

Mounier, Emmanuel – Malraux, Camus, Sartre, Bernanos. Paris: Point, 1970.

Rowley, Hazel – Tête-à-Tête: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

Sartre, Jean-Paul – Situações IV . Lisboa: Europa-América, 1972.

Thody, Philip – Sartre: uma introdução biográfica .Rio de Janeiro: Bloch, 1974.

Todd, Olivier – Albert Camus: una vida. Bacelona: Tusquets, 1997.

Winock, Michel – O século dos intelectuais. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000)

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