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CULTURA E PENSAMENTO

Camus contra Sartre: o fim da revolução (parte II)

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» Camus contra Sartre: o fim da revolução (parte I)
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Em outubro de 1951, deu-se em Paris a publicação de um livro que abalou a esquerda francesa. Tratava-se do ensaio de Albert Camus intitulado “O Homem Revoltado” , uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789. Entre outras coisas, provocou o fim da longa amizade que Jean Paul Sartre mantinha com ele.

A traição dos intelectuais

Irritava-o ainda o estrabismo dos intelectuais comprometidos com a esquerda que eram incapazes de formular sequer uma só crítica ao regime soviético. Podia-se ser rebelde contra tudo, menos contra Moscou! O que lembrava o sermão em forma de livro de Julien Benda, La Trahison des Clercs, "A Traição dos Clérigos", de 1927, que falava do abandono deles aos princípios da razão, seduzidos e apaixonados pelas religiões terrenas ( as ideologias), que abraçavam.

O desacerto de Camus com o socialismo milenarista, com os apocalípticos que viam sinais da crise derradeira do capitalismo a cada dobrar de esquina, vinha de mais longe, do final da guerra.

Ainda que ele fosse um dos homens-chave do célebre Combat, o jornal da Resistência, que chegara a façanha de vender 300 mil exemplares ainda 1943, numa França ocupada, rapidamente o autor da "A Peste" atinou, já em 1944, que a Resistência não iria desembocar na Revolução Socialista ambicionada por muitos militantes, particularmente pelos maquisards de esquerda. Acreditava sim numa Revolução Democrática que impusesse novos relacionamentos sociais e humanos mas nada que dirigido ou controlado pelos comunistas.

Em busca de uma Terceira Via

Porque então, ensimesmou, ao invés da pregação a favor da revolução violenta, não encontrar uma solução de compromisso entre "a liberdade e a justiça"? Uma sociedade onde houvesse liberdade para que todos tivessem as mesmas oportunidades e onde qualquer um fosse respeitado nos seus direitos mais comezinhos (de certo modo, ao pensar assim, ele antecipou-se de longe à teoria da Terceira Via de Anthony Giddens e de Tony Blair, já devidamente sepultada).

Afinal, que se encontrasse um denominador comum entre a economia coletivista e a política liberal, e que, fundamentalmente, os socialistas, este "proletariado de bacharéis", parassem de se imaginar como seres ungidos divinos da reforma social. Que calçassem as sandálias da humildade. Daí entender-se o titulo do seu provocativo artigo “A Democracia: exercício de modéstia", 1948.

Que aqueles aventureiros da dialética – muitos dos personagens dos "Mandarins" de Simone de Beauvoir -, cessassem de clamar pela revolução em abstrato, atingida pelo cálculo, feita por gente ressentida que só conduzia ao domínio "do rancor e tirania", e voltassem a ser de carne e osso como todo mundo.

E, acima de tudo, resistissem a tentação de praticar massacres e de querer hastear a bandeira da liberdade no centro dos campos corretivos e de trabalhos forçados, visto que o Estado que ambicionavam, fosse por influencia de Marx, Hegel ou Nietzsche, desandava num "Estado terrorista". Entre outros motivos porque "Os nossos criminosos...são adultos, e o seu álibi irrefutável é a filosofia que pode servir para tudo, até para transformar os assassinos em juízes." (O Homem Revoltado- Introdução).

Atrás da revolução relativa

Buscassem, pois, a revolução relativa, sem matanças, sem rios de sangue escorrendo pelas ruas, e sem as abomináveis justificações pelas mortes em massa. Sartre acreditava que era possível, purgando a água suja do stalinismo, salvar-se a criança dentro da bacia do socialismo. Camus, desencantado, enxergava sentando bem no meio dela um pequeno monstro, parido pelo terror revolucionário.

"O poder é triste no século XX" concluiu ele. Quanto Camus morreu num estúpido acidente de automóvel, em janeiro de 1960, Sartre, no necrológico, o considerou um dos grandes moralistas da tradição literária francesa, mas nunca mais tinham se aproximado.

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