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Camus contra Sartre: o fim da revolução
Em outubro de 1951, deu-se em Paris a publicação de um livro que abalou a esquerda francesa. Tratava-se do ensaio de Albert Camus intitulado "O Homem Revoltado", uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789. Entre outras coisas, provocou o fim da longa amizade que Jean Paul Sartre mantinha com ele.
Nos calores da Guerra Fria
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Albert Camus ( 1913-1960)
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"A democracia não é o melhor dos regimes. É o menos mau. Experimentamos um pouco de todos os regimes e agora podemos compreender isso. Mas esse regime só pode ser concebido, realizado e sustentado por homens que saibam que não sabem tudo, que se recusem a aceitar a condição proletária e nunca se conformem com a miséria dos outros, mas que recuse, justamente, a agravá-la em nome de uma teoria ou de um messianismo cego."
Albert Camus, novembro de 1948Entornando um copo de vinho com Albert Camus num daqueles bons cafés de Paris, Sartre comunicou ao amigo que em breve sairia uma crítica bem pesada na sua revista Les Temps Modernes, contra o seu último livro L'Homme révolté, o Homem Revoltado. Haviam se encontrado na rua vindo para um destino comum, uma manifestação contra a ditadura franquista na Espanha. Nunca mais o fizeram. O ensaio de Camus, aparecido em 1951, provocara um desconcerto geral em meio à esquerda francesa ao tempo em que vendeu quase 70 mil exemplares, editados pela Gallimard, ao longo de 1952. E não era para menos. Naqueles tempos quentes da Guerra Fria, com Mao Tse tung recém chegando ao poder em Pequim e os norte-americanos ameaçando explodir a Coréia, e quiçá a China Popular, com bombas atômicas, como era o desejo do general MacArthur, o famoso escritor deu-se ao desplante de repudiar a revolução, denunciado-a como a parteira dos absurdos e da arbitrariedade do Estado Policial moderno. Foi um pandemônio.
O petardo lançado então contra ele – intitulado "Albert Camus ou a alma rebelde" (Temps Modernes, maio de 1952) -foi estrondoso. Sartre, alegando razões de amizade, passara a ingrata tarefa para um dos seus próximos, um tal de Francis Jeanson, um jovem desconhecido que destratou Camus em vinte páginas.Ele, chocado com a agressividade do artigo, respondeu em carta à Direção. Sartre então entrou na liça, em defesa de Jeanson. "Nossa amizade" escreveu ele, "não era fácil, mas vou sentir a falta dela. Se você a quebra hoje, é, sem dúvida, porque ela devia um dia ser quebrada.... também a amizade é totalitária: é necessário o perfeito acordo ou o corte de relações." Nove anos de boa convivência entre os dois evaporaram-se em outras trinta páginas do Les Temps, nº 82, de agosto de 1952, que teve duas tiragens esgotadas quando público intelectual soube da “guerra literária" entre os dois maiores nomes da literatura francesa de então. Na verdade, o acusatório de Camus não era tanto contra a revolução mas sim contra sua inoperância, denunciando-lhe a inutilidade da sua razão de ser.
O sem sentido da revolução
De que servira à França, indagou, ter tido três outras revoluções desde 1789, todas elas sangrentas, se os escandinavos e os ingleses, sem muitos tumultos , conduzidos pelas políticas de socialistas moderados, tinham atingido um alto padrão de vida, bem superior ao dos franceses?A crítica de Camus aos destemperos e exageros das revoluções não pararam por ai, visto que acreditava que os seus líderes quando no poder, mais tarde ou mais cedo, se tornavam repressores ou heréticos... policiais ou loucos! Porque, quis saber ele, Prometeu, com suas esperanças de regenerar o mundo, terminava como César, tiranizando as instituições? O danoso daquilo tudo é que os admiradores das insurreições de massa feitas em nome da liberdade logo adotavam uma política de crimes justificados. Prendiam, interrogavam, confinavam e, em nome de um profundo amor pela humanidade, fuzilavam. Convictos de que aqueles a quem despachavam da vida eram ervas daninhas que precisavam extirpar do jardim socialista para que, mais tarde, no futuro, no amadurecer da planta, ela vicejasse com todo o vigor. Enquanto isto, os campos de concentração e o tiro no pescoço eram os herbicidas que eles, ainda que a contragosto, se viam obrigados a espargir.
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