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Goya, o pintor das mil caras (parte II)
Nascido em Fuendetodos, aldeia da província de Saragoça, em 30 de março de 1746, capital de Aragão, Francisco de Goya aos treze anos já adentrava no atelier de José Martinez Luzán, para fazer da profissão de pintor o seu destino e consagração. Ainda que rejeitado pela Real Academia de Bellas Artes de Madri, e após uma proveitosa viagem à Itália no ano de 1770, ele abandonou em definitivo a província. Graças ao empenho de Francisco Bayeu, seu cunhado e mestre, alcançou chegar-se à Corte, na capital. O grande Velásquez, morto em 1660, tinha em fim um sucessor a sua altura.
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O Dois de Maio, madrilenos atacam os mouros de Murat (Goya)
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Outro momento artisticamente excepcional se encontra em dois outros quadros seus, ambos pintados no mesmo ano de 1814, ocasião em que os exércitos franceses já haviam evacuado da Espanha. Reproduzem cenas vivas dos acontecimentos de maio de 1808, presenciadas por ele, ocasião em que a multidão de Madri enfrentou o exército ocupante. No "El 2 de mayo de 1808 em Madrid", data do famoso levante antifrancês, vê-se um feito impressionante: o momento em que um esquadrão de mamelucos e couraceiros - tropa de choque trazida por Murat à Espanha -, e que estava a trote pelas ruas da cidade, faz carga sobre os civis madrilenos na famosa Porta Del Sol.Num desassombro de coragem, os civis atracam-se com os soldados e suas montarias a quem ferem com punhais, paus e lanças, enquanto um outro popular, com escopeta, dispara contra um mouro. Armados com cimitarras, surpresos com a ousadia, eles as brandem contra a massa enfurecida que os acomete de todos os lados. Os madrilenos parecem estar a participar de uma luta contra touros. No chão um mameluco está estendido e um civil também, ambos mortos. É um quadro em que predomina o movimento, a ação apresentada como um redemoinho formado por braços empunhando punhais e sabres, um flagrante de uma batalha urbana travada como se o pintor estivesse ali mesmo como testemunha, olhando tudo com uma poderosa lente, captando cada detalhe. O quadro "Los fusilamientos del 3 de mayo", por sua vez, tela que complementa a primeira, uma das suas composições mais conhecidas, cuja imagem circulou pelo mundo, denuncia a represália dos franceses contra os participantes da insurreição do dia anterior. Os prisioneiros, uns 400 deles, foram levados para as proximidades dos muros da cidade e, tendo uma a colina do Príncipe Pio, há duzentos metros do Palácio de Liria, sede do Ducado e Alba, como anteparo das balas extraviadas, terminaram fuzilados em grupos de dez. Era um local não muito distante da morada de Goya. O pelotão fatídico dos infantes alinha-se à direita. De nenhum soldado francês é mostrada a face. Trata-se de uma máquina desumana de executar em série.
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Os fuzilamentos de Três de Maio (Goya)
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No solo do terreno plano repousa uma grande lamparina que lança uma luz sobre os patriotas amontoados e colocados em frente aos seus executores, praticamente equilibrando-se em cima dos cadáveres dos que já haviam tombado. Nenhuma das vítimas sequer mereceu uma venda nos olhos, pois se trata de um ato de repressão e não de julgamento. É a vingança fria do invasor contra os tumultos do dia anterior. Aguardando a vez, desesperados, outros madrilenos formam uma fila que aguarda o momento de enfrentar os chumbos. O centro da tela é dominado pelo civil anônimo com camisa branca que abre seus braços em cruz, expressão do martírio da população comum e da própria Espanha, ocupada por Napoleão. Quadro esse que se tornou metáfora universal da violência desencadeada contra os que lutam pela liberdade. (*)(*) O Levante de Dois de Maio por igual serviu a que Francisco de Paula Martí, autor dramático contemporâneo de Goya, encenasse Madri em julho de 1813, uma peça de muito sucesso intitulada "El dia dos de mayo de 1808 em Madrid y murte heróica de Daoíz e Velarme", estreada no Teatro do Palácio.O pintor Manet nele também se inspirou na composição do seu “O Fuzilamento de Maximiliano”, entre 1867-69.
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Os bruxos no ar (Goya, 1797-8)
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Tal fora um acompanhante da crônica policial, são inúmeros os quadros e gravuras de Goya sobre a atividade dos assaltantes da Espanha, gente daninha, predadora, cruel e assassina, que era o tormento dos viajantes das estradas inseguras de então, cuja ação e modo de vida serviu de inspiração para muitos letrados e artistas do romantismo, antes ou depois dele (como foi o caso "Dos Bandidos" de Schiller, peça de 1780, a "Carmen" de Prosper Mérimée, de 1845). Impressionantes também são as cenas de canibalismo, temática que prolifera ao longo do seu trabalho, tanto aqueles cometidos por primatas dentro de cavernas como o canibalismo mitológico de Saturno, tela tida como a mais aterradora de Goya e uma das mais chocantes da história da arte em todos os tempos.Muitas outras pinturas e gravuras dele testemunham a queda dos desgraçados: o pobre garroteado, outro preso aos ferros, o réu frente ao tribunal do Santo Ofício, a vampirização de um homem por bruxos, uma extração de dentes, a tola crendice feminina, a dureza invernal da gente do campo, etc... Cético, descrente das projeções do sobrenatural, num dos Desastres, o de nº 69, desenhou um esqueleto esgueirando-se do túmulo trazendo nas mãos apenas uma folha escrita com a palavra "Nada". Para espanto do grupo que estava ao seu redor, a morte era somente um grande silêncio.
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