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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Goya e a Espanha do seu tempo (parte II)

Leia mais
» Goya e a Espanha do seu tempo (parte I)
» Goya e a Espanha do seu tempo (parte III)
» Goya e a Espanha do seu tempo (parte IV)

 
Como nas tantas histórias encantadas conhecidas, arábicas ou persas, foi de certo modo através dos tapetes que Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), artista até então desconhecido na Espanha, chegou às portas da Corte de Madri no ano de 1774. Começava assim, com o seu amparo técnico às artes das tapeçarias, uma das mais prolíferas e espantosas carreiras artísticas de um grande mestre das cores e do desenho, tido por alguns críticos como o primeiro dos pintores modernos dos tantos que a Espanha gerou.

A suspensão das reformas

"Os sonhos da razão produzem monstros" (Goya, 1798)
Reforma essa que se petrificou e até reverteu por efeitos dos pavores gerados pela Revolução de 1789, pois então ficou explícito que as propostas progressistas dos iluminados fatalmente promoveriam uma insurreição em massa, acompanhada por banhos de sangue, como acontecia na França naquela época, a "França pestilenta", segundo o bispo Menendez de Luarca, o que contribuiu para que o a elite espanhola, tomada de pânico, acreditasse que o tradicionalismo e o imobilismo social e religioso do reino era um mal menor perante a fúria dos jacobinos. Os monges inquisidores lhes assumiram então como menos nocivos e sanguinários do que os comissários guilhotinadores de Robespierre. Frustração essa que provavelmente serviu de inspiração indireta a conhecida gravura de Goya "Os sonhos da razão produzem monstros" (1798).

Além disso, para uma reforma iluminista poder deitar raízes ela deveria contar com a existência da presença de uma classe média empreendedora, com profissionais liberais de relevo e gente do negócio e da indústria. Algo que visivelmente o país não dispunha.

Por isso, pelos destemperos dos acontecimentos de Paris, pelo radicalismo crescente da revolução, os políticos reformistas e os humanistas espanhóis, que, afinal, sempre foram minoritários, pagaram um preço alto: o banqueiro liberal Cabarrus (cujo conselho resumia-se no dito "Poucas leis, deixai fazer e observar") foi confinado pela Inquisição, mesmo destino teve Mariano Luis de Urquijo, tradutor de Voltaire, seguido do escritor e ensaísta Gaspar de Jovellanos, um asturiano amigo de Goya, desterrado para a ilha de Maiorca entre 1800 e 1808, Pablo de Olavide, por sua vez, que fora detido por “heresia”, teve que fugir para o exterior, enquanto que, reforçados pela retomada da censura geral, os tribunais do Santo Ofício voltavam à plena atividade, apoiados por manifestações públicas dos seus familiares que saiam às ruas com seus capuzes pontudos e com tochas na mão para esconjurar os demônios vindos de fora que queriam tomar conta da sua Espanha.(*)

A política antiiluminista então adotada no reino de Carlos IV (1788-1808), sucessor de Carlos III, visou principalmente os livros. As alfândegas receberam ordens terminantes de impedir que qualquer volume vindo do exterior pudesse vir a entrar no território peninsular. A Espanha tradicionalista, fidalga e carola, procurava assim calafetar qualquer possível abertura que viesse a colocá-la em perigo. Novamente tudo indicava que a velha sociedade parecia novamente reproduzir a vitória que tivera nos séculos anteriores, na época do Renascimento, quando os teólogos reacionários aliados aos inquisidores esmagaram a influencia do humanismo erasmista entre a elite acadêmica espanhola, no século XVI.

(*) A Inquisição criada pelos reis católicos Fernando e Isabel em 1478 para estabelecer uma política de uniformização da fé nas áreas recém conquistadas dos mouros,levada a cabo primeiramente pelo cardeal Torquemada, foi uma das instituições mais nefastas da história ocidental. Por meio dos Tribunais do Santo Ofício e de Autos-de-fé, a Igreja e o Estado perseguiram e submeteram aos tormentos por mais de três séculos a todos a quem considerava ser uma ameaça étnica ou religiosa, particularmente os judeus e os mouriscos. Tornou-se símbolo da intolerância e da opressão oficial, procurando sufocar todo o pensamento e a criatividade da sociedade ibérica.Apesar dos liberais das Cortes de Cádis tentarem sua supressão em 1812, somente foi de fato encerrada em 1843, após 365 anos de funcionamento.

Pão e touros

Corrida de touros (Goya- Divertimento espanhol,1825)
Reagindo contra tal maré tradicionalista e reacionária, circularam panfletos e outros escritos de jovens inconformados com o retrocesso, denunciando aquela situação de retomada da ditadura monárquico-católica sobre o pensamento ilustrado. Numa delas, Marchesana, um ex-estudante de Salamanca, no seu chamamento "A la nación española", escreveu:

"Já não é tempo da nação sacudir o intolerável jugo da opressão sobre o pensamento?Não é tempo para que o governo suprima um tribunal de trevas que envergonha até mesmo o despotismo?...Igualdade, humanidade, fraternidade, tolerância, espanhóis, este é em quatro palavras o sistema dos filósofos que alguns perversos os fazem olhar como se fossem monstros."

Num outro libelo, intitulado ao modo de Juvenal, "Pan y toros" (Pão e touros), escrito por Leon de Arroyal, em 1793, denunciando o obscurantismo que novamente baixou sobre as terras espanholas, reduzindo a população à sobrevivência básica e à diversão nas arenas, concluiu que:

Haya pan y haya toros, y más que no haya otra cosa. Gobierno ilustrado: pan y toros pide el pueblo. Pan y toros es la comidilla de España. Pan y toros debes proporcionarla para hacer en lo demás cuanto se te antoje in secula seculorum. Amen

.(Há pão e há touros, e não há mais outra coisa.Governo ilustrado: pão e touros pede o povo. Pão e touros é a diversão da Espanha. Pão e touros deves lhes proporcionar enquanto e coloquem antolhos pelos séculos que ainda haverão de vir. Amém)

Letras e Tintas

Os pequenos cavaleiros, reunião de pintores espanhóis (desenho em lenço atribuído a Martínez del Mazo ou a Velásquez)
Afastada de muito longe do tempo da Idade do Ouro das letras espanholas (entre 1500 – 1660) - contemporânea à expansão e apogeu do império ultramarino, que então contou com um Cervantes (+1616), um Garsilaso de la Vega (+1616),um Góngora (+1627), um Lope de Vega (+1635), um Quevedo (+1645), encerrando-se com Saaveda Fajardo (+1648) e a publicação do Idea de un Príncipe - a época de Goya mostrou-se pobre em obras significativas. Aquela grande literatura que legara à cultura ocidental, personagens como o cavaleiro louco Don Quixote, o esfaimado pícaro Lazarillo de Tormes, e o infatigável conquistador de mulheres Don Juan, não deixara sucessores à altura.

Tanto assim que nomes de escritores, poetas , ensaístas e eruditos, contemporâneos de Goya, tais como Nicolas F. de Moratín(+ 1780), o padre José Francisco de Isla(+1781), José Cadalso (+1782), Nicasio Cienfuegos (+ 1787), Tomás de Iriarte (+1791), Juan Pablo Forner (+ 1797), d. José Cerda y Rico (+1800), Félix Maria Samaniego (+ 1801), o já citado Gaspar de Jovellanos (+1811), Juan Meléndez Valdés (+1817), hoje só são lembrados pelos historiadores e estudiosos da literatura hispânica. De certo modo isso é a demonstração sociológica de como as artes de um modo geral se articulam com a situação material e política das nações, pois a mediocridade das letras contemporâneos ao grande pintor combinou com a decrepitude do império, abalado por guerras perdidas e por derrotas irrecuperáveis, além da estagnação econômica generalizada.

Situação que veio a se agravar ainda mais com a crise política provocada entre os monarcas espanhóis Carlos IV e seu filho Fernando, o Príncipe das Astúrias, envolvendo Napoleão Bonaparte, o que acarretou a invasão da península pelas forças francesas em 1808, desastre que se estendeu até 1814.

O mesmo poderia se dizer da pintura. O último grande nome espanhol das palhetas tinha sido Diogo Velásquez, falecido em 1660, quase um século antes do nascimento de Goya. Os temas e as cores que foram celebres, vivas e audazes, nos tempos dos Habsburgo, los Austrias (1504 – 1700), como muitos preferem chamá-los na Espanha, pareciam ter esmaecido na época dos Bourbon (iniciada com Felipe de Anjou, em 1700). Este esvaziamento dos talentos de certo modo obrigou a Corte a buscar artistas franceses (Miguel Ângelo Houasse e Jean Rance, Louis Michel van Loo) e italianos (Giacomo Amiconi, Corrado Giauinto, Antônio Rafael Mengs, Giovani Baptista Tieopolo). Muitos deles, além de retratarem o monarca e seus familiares e inúmeras cenas de caçadas, se dedicaram à feitura de cartões para que servissem como modelo para a fábrica de tapetes Santa Bárbara que Filipe V mandara fundar para suprir a demanda nacional. Foi para ela que o nome de Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828), então um jovem artista aragonês, nascido em Saragoça, foi indicado, tendo produzido um número considerável deles entre 1775 e 1791. Aquele foi o primeiro passo para que ele viesse ocupar o lugar vazio deixado por Velásquez de Pintor Del Rei.

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