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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Goya e a Espanha do seu tempo

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» Goya e a Espanha do seu tempo (parte II)
» Goya e a Espanha do seu tempo (parte III)
» Goya e a Espanha do seu tempo (parte IV)

 
Como nas tantas histórias encantadas conhecidas, arábicas ou persas, foi de certo modo através dos tapetes que Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), artista até então desconhecido na Espanha, chegou às portas da Corte de Madri no ano de 1774. Começava assim, com o seu amparo técnico às artes das tapeçarias, uma das mais prolíferas e espantosas carreiras artísticas de um grande mestre das cores e do desenho, tido por alguns críticos como o primeiro dos pintores modernos dos tantos que a Espanha gerou.

Tempos Extraordinários

Francisco de Goya ( 1746-1828)
Goya, em sua vida adulta, transcorrida entre os anos de 1766 e 1828, ano da sua morte, conheceu tempos extraordinários. Uma época marcada por violentos e contraditórios acontecimentos na qual Tradição e Iluminismo, Absolutismo e Liberalismo, Inquisição e Tolerância, Revolução e Reação, Império e Nacionalismo, Colonialismo e Independência, Barroco e Classicismo, Academicismo e Romantismo, travaram batalhas formidáveis, verdadeiramente titânicas, para a conquista da hegemonia sobre a Europa e o Novo Mundo bem como sobre os destinos dos povos.

Ainda que poder declinante, periférico, o Império Espanhol – o maior de todos em extensão - viu-se cenário daqueles embates todos, quando não foi palco vivo das desavenças que abalavam o Mundo Ocidental até os seus fundamentos, fazendo que a obra artística do gênio do pintor refletisse tudo aquilo.

Ele já era homem maduro quando chegaram as notícias de que o povo de Paris, insurgido em 14 de julho de 1789, havia tomado de assalto a fortaleza da Bastilha, símbolo do despotismo de Luís XVI, dando início "a guerra das cabanas contra os palácios", confronto que se espalhou por larga parte da Europa. Acontecimento extraordinário que circulou de boca em boca visto que o Conselho de Castela, assustado, decidira impor a censura prévia à imprensa e, um pouco depois, em fevereiro de 1791, determinou inclusive a proibição de toda a venda de jornais que não fossem os oficiais.

Era Goya já sexagenário e bem surdo ao saber dos levantes ocorridos no Novo Mundo, quando os antigos vice-reinos espanhóis da Américas (Nova Espanha, Nova Granada, Peru e Prata) foram sacudidos pelos gritos de independência, que desde 1810 iriam arrastar a Coroa da Espanha para uma longa guerra - travada desde a meseta mexicana até a bacia do rio da Prata - contra os caudilhos republicanos insurgentes (San Martin, Bolívar, Sucre, Iturbide), que somente culminou quinze anos na derrota do exército real em Ayacucho, no Peru, e na aceitação do fato consumado: Madri perdera a maior parte do seu império americano.

O impacto do Iluminismo na Espanha

Gaspar de Jovellanos ( Goya, 1798)
Ainda que por muito tempo absorta em si mesmo, distanciada das coisas da Europa pela cordilheira dos Pirineus e pelo ultraconservadorismo da sua Igreja, a Espanha do rei, dos padres e dos camponeses, das touradas e do flamenco, por ser sede de um império mundial, não ficou a margem da contundência das idéias que estavam provocando ebulição nos meios cultos e nas cortes mais avançadas dos reinos vizinhos.

O Movimento Iluminista, que tomara fôlego desde a França, estava patrocinando uma mudança radical das mentalidades. Os homens deviam ser despertados da sua longa letargia mental e da subordinação que devotavam à tradição e aos costumes. Começar a ousar, a pensar por si mesmos com total autonomia, sem recorrerem a nenhuma outra autoridade senão que a autorizada pela Razão.

Na época de Goya a população espanhola pouco ultrapassava os 10 milhões de habitantes, conquanto que Madri tinha talvez uns 150 mil moradores. A Igreja Católica, por sua vez, dispunha de uma quantidade enorme de sacerdotes, frades e freiras, calculadas em 200 mil pessoas (três vezes mais do que a França e duas vezes mais do que a Itália), e altamente desproporcional ao país. Havia ainda uns 400 mil chefes de família da fidalguia que controlavam as terras, sendo que os aristocratas formavam em geral uns 10% da população dominando os 22 mil pueblos que compunham as comunidades espalhadas pelo país.

Segundo a opinião de um embaixador francês daquela época "na Espanha o povo baixo tem um gosto vil; se dedica sobretudo às proceissões, corridas de touros e ao amor na sua forma mais brutal. A burguesia está descontente e sobre de um empobrecimento geral. O clero é ignorante e a nobreza morre de fome num solo somente cultivado pela metade." ("Goya" de Rose-Marie e Rainer Hagen, 2003, p.27).

O Estado que era entendido pelo Absolutismo como um meio de reforçar o poder do monarca, ainda que à custa dos sacrifícios dos súditos, foi percebido desde então como um poderoso instrumento para auxiliar o povo a sair da miséria. Era uma ferramenta a ser utilizada pelo soberano para executar políticas filantrópicas e solidárias, um magnífico agente da reforma política, social e econômica, exigida pelos novos tempos, que tinha por meta implantar a felicidade de todos, ainda que os procedimentos por ele empregados fossem autoritários. Nascia assim, sob a égide do pensamento de muitos filósofos do século XVIII, o Despotismo Ilustrado, com a função de impor o esclarecimento das coisas, mesmo que de cima para baixo, para afastar os súditos, homens e mulheres, daquele clima opressivo criado pela pregação religiosa carola e sem fim e pelo mandonismo senhorial exercido pela nobreza, visto que um povo de beatos jamais alcançaria a ilustração.

Os ilustrados de Carlos III

A Revolta contra Esquilache, 1766(Goya)
Em Madri, coube a Carlos III (reinou entre 1759-1788), terceiro filho de Fernando V com a bela Isabel de Farnese, assumir a bandeira das reformas para arrancar a sociedade espanhola do arcaísmo a que ela parecia estar condenada. Uma série de ministros dele (os ilustrados Marquês de Esquilache, Aranda, Campomanes, Floridablanca, Wall y Grimaldi), entre 1760 e 1790, foram os executores, por vezes contraditórios, do que podemos denominar de política espanhola do esclarecimento.

Entre elas estava a dinamização das indústrias e do crescimento material e tecnológico, estimulada pela proliferação de Sociedades de Economia (a primeira foi fundada pelo conde de Campomanes, em 1775), estimulo à dignidade do trabalho com valorização do artesão, impulso a que a fidalguia decidisse melhor a produtividade das grandes propriedades ao tempo em que retirava da pequena nobreza o privilégio de não ter que trabalhar(*), projeto de colonização nas terras abandonadas da Igreja (que Pablo de Olavides tentou levar à prática), a fundação de hospitais e hospícios, a melhoria do ensino superior, a limitação dos poderes da Igreja Católica, a diminuição da autoridade dos Tribunais do Santo Ofício e, como conseqüência, uma maior tolerância para com a as opiniões divergentes.

Chegaram ao ponto, os reformistas, de determinar pela Pragmática de 2/04/1767 a expulsão da Companhia de Jesus (inimiga jurada dos Iluministas, acusada de fomentar a rebelião popular da "capa e do sombreiro", também conhecida como a Revolta de Esquilache, eclodida em Madri em 1766), ao tempo em que procuraram inutilmente acelerar a integração dos ciganos como súditos com direitos equivalentes aos demais espanhóis, desde que deixassem de falar o caló, seu idioma peculiar, e abandonassem a vida nômade (Pragmática de 1783).

(*) Denunciando o absurdo da pequena nobreza preferir empobrecer ao invés de ir trabalhar, Goya lançou-se na feitura de algumas gravuras numa das quais um jumento olha para o álbum dos seus antepassados, todos burros igual a ele ( Hasta su abuelo, Capricho nº 39, de 1797-8).

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