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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Virgilio, o poeta do império (parte II)

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» Virgilio, o poeta do império
 
No retorno à Itália da vitoriosa campanha final de Otávio contra o seu rival Marco Antônio (33-30 a .C.), na luta que ambos travaram pelo controle do poder, foi que o poeta Virgilio finalmente pode ser apresentado aquele que seria o todo-poderoso do Império Romano. Naquela ocasião, nos doces ares de Nápoles, ofertando-lhe o seu poema Geórgicas, selou-se uma produtiva amizade entre ambos. A lira do poeta nos anos seguintes se transformou num excepcional instrumento dos interesses do estado e da família Júlia, da qual Otávio dizia descender por parte do seu tio-avô Júlio César.

O Épico Romano

Enéas fugindo de Tróia (tela de F.Barocci, 1598)
Ao revés de Homero que antes relatou uma guerra para depois concluir sua narrativa com uma aventura no mar, Virgilio preocupou-se por primeiro as deambulações de Enéas, o seu herói, nos sete anos que vagou entre ondas e ilhas para lá e para cá a sabor dos caprichos dos deuses, para encerrar a "Eneida" com um duelo feroz entre o guerreiro troiano e seu inimigo Turno, o rei dos rútulos, em combate mortal pelo domínio do Lácio.

Na verdade o poeta romano estabeleceu uma relação muito próxima com Homero, alterando ou mudando todavia o que lhe pareceu necessário a dar maior dramaticidade ao seu canto épico. A intenção política dele foi estabelecer um passado glorificante a cidade imperial, associando-a a heróica Tróia, ao tempo em que celebrava a ascensão de Otávio Augusto como o clímax de uma longínqua linhagem de heróis e governantes que, começando na cidade de Príamo, passava pelos primeiros reis da cidade e pelos generais conquistadores de terras estrangeiras, até alcançar o sobrinho-neto de César, o Princeps, seu amigo e protetor que naquele momento em que ele compunha suas estrofes era o senhor absoluto de Roma.

Enéas, após padecer tal como Ulisses um sem fim de naufrágios e desgraças, caçado impiedosamente pela deusa Juno, desembarca por fim na Hespéria (no Ocidente, na Itália). Ali, depois de travar batalhas memoráveis, lançará as bases do que viria a ser um poderoso império, trazendo paz para o mundo, protegendo os bons e castigando os maus.

Este cortejo de sucessos foi-lhe predito pelo pai Anquises a quem ele encontrou nas profundezas do Averno, na morada dos mortos, guiado por Sibila, sacerdotisa de Apolo, onde a alma dele se encontrava na companhia de tantos guerreiros nobres, heróis magnânimos e poetas pios, convivendo todos nos Campos Elíseos.

"César Augusto", disse-lhe a alma do pai, "filho de um deus, que de novo há de instituir nos campos do Lácio, onde outrora reinou Saturno, a Idade do Ouro e há de estender o império até os garamantes e os indianos, até a terra que jaz além dos astros e da rota do sol e do ano, onde Atlas, que sustenta o mundo, faz girar sobre os ombros a abóbada presa às estrelas brilhantes" (Eneida: Livro VI).

A família Júlia, por sua vez, de quem Otávio Augusto se dizia herdeiro por parte de César, originava-se por sua vez de Julo ou Ascânio , o jovem filho de Enéas, que quando criança fora carregado pelo herói para fora das muralhas de Tróia em chamas. Adulto, foi-lhe companheiro de armas e fundador de Alba-Longa e antepassado longínquo de Rômulo. Portanto, se Roma era a Nova Tróia, nas veias de Otávio Augusto corria o sangue de um herói mitológico.

Na sua construção imaginária da protofundação de Roma, Virgilio substitui o fratricídio cometido por Rômulo contra Remo, pelo impressionante duelo final entre Enéas e Turno. Roma resulta pois de uma merecida conquista dos troianos sobre os rútulos e não de uma infeliz dispute entre irmãos: ela descende de Marte, o deus da guerra, e não dos órfãos protegidos da loba.

Virgilio e Mecenas, conforme o poema se construía (entre 29 -19 a.C.), se alternavam na recitação dele para Otávio Augusto, que muitas vezes convocava uma seleta de amigos da corte para ouvi-los.(*) O poeta ainda quis fazer uma viagem derradeira pelas ilhas gregas para verificar certos detalhes no local para melhor concluir o feito, todavia tiveram que trazê-lo de volta à Itália agonizante. Morreu de febre aos 51 anos, em Brindisi, um porto do sul da península no dia 21 de setembro de 19 a .C., não sem antes ter pedido ao imperador para destruir a obra (não se sabe bem o motivo, provavelmente ele, um perfeccionista, sentiu-a longe de estar concluída ou suficientemente revisada). No que, felizmente para as letras, não foi atendido.

(*) S. Aurelio Propercio (50 a.C.-15 a.C.), por igual famoso autor de versos, depois de uma dessas audiências, impressionado com o que escutara, registrou a sensação escrevendo o poema:

Cedite, Romani scriptores, cedite, Grai! / Nescio quid maius nascitur Iliade (Cedei, autores Gregos, e cedei Romanos! / Nasce algo inda maior do que a Ilíada). Eram os versos da Eneida que ele ouvira pela primeira vez. (Francisco E. de Oliveira Souza - "A reinvenção de Roma", Jornal de Poesia)

Bibliografia

Buchan,John – Augusto. Lisboa:Editora Aster,s/d.

Grimal, Pierre – A Civilização Romana. Lisboa: Edições 70, 1988.

Lucrécio Caro, Tito – Da Natureza.Porto Alegre: Editora Globo, 1962.

Martins, Oliveira – História da República Romana.Lisboa:Guimarães Editores, 1987.

Nack-Wagner – Roma.Barcelona: Editorial Labor, 1966.

Paratore, Ettore – História da Literatura Latina. Lisboa; Fundação C.Gulbenkian, 1987.

Suetônio – O Divino Augusto, Lisboa: Livros Horizonte, 1975.

Vergílio – Eneida. São Paulo: Atena Editora, 1966.

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