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CULTURA E PENSAMENTO

Virgilio, o poeta do império

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» Virgilio, o poeta do império (parte II)
 
No retorno à Itália da vitoriosa campanha final de Otávio contra o seu rival Marco Antônio (33-30 a .C.), na luta que ambos travaram pelo controle do poder, foi que o poeta Virgilio finalmente pode ser apresentado aquele que seria o todo-poderoso do Império Romano. Naquela ocasião, nos doces ares de Nápoles, ofertando-lhe o seu poema Geórgicas, selou-se uma produtiva amizade entre ambos. A lira do poeta nos anos seguintes se transformou num excepcional instrumento dos interesses do estado e da família Júlia, da qual Otávio dizia descender por parte do seu tio-avô Júlio César.

A Restauração de Otávio: o Principado

Turno implora pela vida frente a Enéas
Com o povo eufórico na rua, sentido o calor dos aplausos da multidão, um dilúvio de urras, as tropas do jovem C.Julius Caesar Octavianus (como Otávio passara a se autodesignar como herdeiro testamentário do conquistador da Gália), marcharam pelas ruas de Roma em 13 de agosto de 29 a .C. em merecido triunfo. Durante três dias seguidos a plebe, embevecida, pôde ver passar a sua frente os magníficos troféus trazidos do Egito pelo general M. Vipsanius Agrippa (62 a.C – 12), amigo pessoal e homem de confiança do novo César. Além das proas de alguns barcos do derrotado Marco Antônio, arrastavam os tesouros expropriados do reino da falecida rainha Cleópatra, que doravante pertenceriam ao patrimônio do sobrinho-neto de César. Num dos carros, num sarcófago, vinha a efígie da odiada estrangeira que se suicidara, picada por uma víbora no seu Palácio em Alexandria.

Extintos os rumores da festa, Otávio, M. Vipsanius Agrippa e mais C. Cilnius Mecenas (70 a. C. – 8), um ricaço que admirava as artes, retirados, longe das fanfarras e da exaltação do povo – foi o historiador Dion quem registrou - se entregaram à tarefa de erguer um novo tipo de poder político em Roma, algo que não fosse a monarquia (derrubada quatro séculos antes) nem uma ditadura (ainda que disfarçada como a de Júlio César, que culminou no assassinato dele no interior do Senado, vitimado por uma conspiração republicana, em 15 de março do ano 44 a .C.). Todavia, somente aos poucos, o novo quadro pretendido pelos três amigos começou a tomar forma, sem fugir ao lema por eles adotados logo após a vitória em Actium: "Republica Conservata".

Num primeiro momento, o jovem homem-forte se decidiu por se apresentar ao Senado como alguém preocupado em restaurar integralmente os privilégios vigentes em épocas passadas: "Recebei de novo a vossa liberdade e a Republica", disse ele aos presentes, "tomai posse do exército e das províncias submetidas, e governai vós mesmos conforme tem sido o costume", disse-lhes.

Esse "Tomem!Governem!" causou comoção. Seguramente bem poucos dos pais conscritos (como os senadores eram chamados) que lá estavam poderiam imaginar que alguém que naquele momento tinha por detrás de si 250 mil homens que compunham então as 27 legiões, aureolado pela vitória, pudesse voluntariamente abdicar da autoridade. Sensibilizados pelo gesto cavalheiresco, naquela mesma sessão, ocorrida em 13 de janeiro de 27 a .C., os senadores concordaram em ceder-lhe plenos poderes.

A solução encontrada foi o Principado: um regime no qual Otavio, alçado como primeiro cidadão, concentrava um conjunto de magistraturas (consulado, tribunato e censório) que, dando-lhe imperium militiae e imperium domi, isto é, poderes civil e militar, faziam dele o virtual monarca sem coroa do império, sem que por isso as veneráveis instituições republicanas se vissem derrogadas. Conciliaram o passado com o futuro.

Otávio então comentou na ocasião: "Oxalá fique a república sã e salva nos seus fundamentos e colha eu da empresa o fruto que desejo, ser considerado o fundador do melhor regime, levando comigo, ao morrer, a esperança de que os alicerces que lancei à Republica permanecerão sem desvio." (Suetônio "O Divino Augusto", 28)

Celebrando o Passado

Otávio Augusto (63 a .C – 14)
Roma estava exausta,horrorizada pelo sangue derramado nas perseguições e as cruéis proscrições ditadas pela política. Quando Otávio empalmou o cetro ele pôs fim a meio século de contendas civis, entremeadas por ferozes campanhas militares contra uma infinidade de reis estrangeiros e chefetes bárbaros. Pela primeira vez foi possível fechar as portas do Templo de Juno, local em que as romanas erguiam preces em favor dos filhos e maridos que lutavam longe de casa., pois agora, com ele, a paz tornou-se obrigatória, dentro e fora de Roma (Otávio, doravante com o título de Augustus, implantou a Pax Romana, proibindo que nações aliadas ou submetidas travassem guerras).

O prédio-símbolo favorito dele passou a ser a Ara Pacis, erguido no ano 9 , no Campo de Marte, na entrada da cidade, devotado à deusa da Paz, verdadeira jóia da arquitetura romana.

Além disso, as lacerações civis, as guerras travadas entre Sila e Mário, entre César e Pompeu, e, depois, as que ele se envolvera contra M.Brutus, G.Cassius Longinus e Antônio, degradaram os costumes e a vida política. Época difícil, que Titus Lucretius Carus, o famoso poeta Lucrécio, definira na introdução do De Natura (Da Natureza) como patriae tempus iniquum, "os tempos iníquos da pátria".

Era, portanto, o momento de dar um basta na desordem social e na desmoralização da classe política. Que se voltasse então para o passado, ao reconcerto das decências e virtudes antigas dos patriotas republicanos, de L.Junius Brutus e de L.Quincius Cincinatus, época em que, assim imaginavam, o vício e a corrupção ainda não fizera estragos na virtude cidadã, como se dava no presente, enquanto o plantel de senadores era selecionado convocando-se para sua composição os antigos nomes das casas aristocráticas. E, como se fora um restaurador armado de versos para assumir essa tarefa de estado através da literatura, é que convocaram Publius Vergilius Maro, ou simplesmente Virgilio. Neste ambiente de reconstituição do antigo e de exaltação patriótica é que se gerou a "Eneida".

O poeta, por seu lado, era há algum tempo um especial devedor dos favores de Otávio. Quando as forças de M.Brutus e G.Cassius, os assassinos de César, haviam sido derrotadas pelo triúnviros em Filipos (batalha travada em setembro de 42 a.C.), ocorreu na Itália uma vasta operação de desapropriação de terras daqueles que apoiavam os vencidos.

Virgilio havia herdado um sítio em Mântua, sua cidade natal, para onde ele aos 25 anos se decidira retirar em ócio produtivo, a villa de Posilipo, que transformara num hortulus epicurista, uma Arcádia distante das paixões, das pestes e da política, situada justamente na área em que os veteranos dos vitoriosos receberiam terras. Ameaçado de expropriação, o poeta recebeu apoio do amigo C.Asinio Pollione, um lugar-tenente de Otávio na região, que impediu que ele viesse a perder a propriedade. O que todavia não o embaraçou de relatar nas éclogas das Bucólicas os padecimentos daqueles seus vizinhos que se viram sem nada e se desesperaram.

De certo modo, ao dar o poema a Otávio e atender-lhe o desejo de que ele compusesse um épico, Virgilio deve ter imaginado quitar a dívida para com o novo César que lhe assegurara a manutenção do seu pequeno paraíso mantuano.

(*) A Eneida está dividida em doze livros e 9.826 versos, o tempo da diegese, dos acontecimentos narrados, ocorre a partir da queda de Tróia, estendendo-se depois de mil aventuras até o duelo final entre Enéas e Turno, rei dos rútilos.

Roma camponesa

Virgilio lê seus poemas para Otávio Augusto
Bem ao oposto da Grécia, de vocação marítima e comercial com larga população urbana, os romanos se orgulhavam de ser camponeses. Mais de um século antes de Otávio Augusto desencadear sua política em favor de uma volta ao campo e às coisas da agricultura, M.Porcio Cato, o afamado censor Catão (234-149 a .C.), cujo nome virou sinônimo de conservadorismo, já havia chamado a atenção do patriciado para as magnificências e tranqüilidades do mundo rural ("Tratado sobre a Agricultura"), posição em que foi seguido por outra celebridade romana, M.Terentius Varro, o Varrão (116 -27 a .C.), um prolixo autor que entre outras coisas deixou um importante ensaio no gênero ("Sobre a Agricultura", 37 a.C.).

Para eles, o mundo autêntico de um romano orbitava ao redor da quinta e da vila, habitações com seus pomares, vinhedos, olivais, trigais, gado manso e ativas abelhas, cercado por jardins com ciprestes e arbustos aparados por diligentes jardineiros encarregados de embelezar a natureza, tudo administrado no principio de "vender tudo, não comprar nada", para assim alcançar a completa autonomia da propriedade e a independência do seu senhor.

Subjazia no ideário agro-pastoril do Princeps - desde que assumira como censor-chefe de Roma - a idéia de que a cidade era uma forja de desregramentos e loucuras e que somente uma longa estadia no campo, quisera fosse permanente, poderia servir como um elixir purificador para que os cidadãos pudessem vir a recupera a austeridade e a castidade perdidas. Sendo pois que houve total afinidade dele com as duas obras anteriores de Virgilio: as Bucólicas e as Geórgicas (esta dedicada a Mecenas, ambas compostas entre 37 e 29 a .C.).

Seguindo a tradição do poema utilitarista herdado dos gregos - de Hesíodo ao criador da poesia pastoral Teócrito -, tratam-se de versos que relatam cenas do campo, diálogos de pastores, temas voltados ao ensino do cultivo da terra e qual a época e o clima certo para que as sementes fosse jogadas nos sulcos: o que fosse pertinente às práticas agrícolas (cultivo de árvores, das videiras, do gado e atenções para com a apicultura), e que tivesse a haver com elas. Mas não foram todavia esses poemas que levaram ele a consagração histórica mas sim o famoso épico que ele engendrou, ao longo de vinte anos, para dignificar perpetuamente a família Julia, da qual Otávio Augusto dizia descender.

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