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Hegel e a ascensão do Mundo Germânico
Escritor notoriamente obscuro, o filósofo George W.F. Hegel, nascido no ano de 1770 em Stuttgard, na Alemanha, se fazia melhor entender quando proferia lições. Graças a isso, seus alunos da Universidade de Berlim que as freqüentaram permitiram que as anotações de classe deles, logo em seguida a morte do mestre, ocorrida em 1831, fossem publicadas em livros: um deles com o título de Vorlesungen über die philosophie der Geschichte ("Lições sobre a Filosofia da História Universal"), assegurando que as Nações Germânicas, sucessoras do Império Romano, tinham como missão levar a liberdade ao mundo.
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O despertar da Germânia (tela de C.Köhler, 1849)
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Numa ocasião anterior, o filósofo, então com mais de 40 anos de idade, rejeitara o convite que lhe fizeram para vir assumir a cátedra de filosofia da Universidade de Berlim Na segunda oportunidade, renovada a proposta em 1818, ele aceitou-a, mudando-se então de Heidelberg, onde lecionava, para a capital da Prússia. A posição que ele assumiu era politicamente estratégica, somente alguém de confiança do rei Frederico Guilherme III (1797-1840) poderia ter assento fixo naquela instituição, que recém fora fundada por Wilhelm von Humboldt, em 1810, particularmente a filosofia, disciplina formadora das elites funcionais e burocráticas do estado prussiano. Ele atingira a celebridade no meio acadêmico com a publicação do livro Phenomenologie des Geist ("A Fenomenologia do Espírito"), em 1807, obra dificílima mas arrebatadora, um dos marcos do idealismo alemão daquela época. Nas suas lições, suas idéias foram expostas com mais clareza e melhor entendimento o que tornou possível entrever a sua filosofia da história. Nelas, Hegel separou a história ocidental em três macro-momentos por assim dizer: o primeiro deles fora dominado pelo Mundo Grego, o segundo pelo Mundo Romano e o terceiro e último pelo Mundo Germânico, ao qual ele dedicou especial atenção.Mais de dez anos haviam passado entre a edição da "Fenomenologia" e as primeiras lições ministradas, e muito a Europa mudara desde então. O filósofo chegou a ver Napoleão do alto de uma sacada em Iena quando o imperador marchava para a batalha em que prostrou a Prússia, em 1806; todavia quando das aulas em Berlim, o corso, derrotado em Waterloo, em 1815, estava confinado na Ilha de Santa Helena, no meio do Atlântico Sul, preso como se fora Prometeu acorrentado. O que poderia extrair-se disso? Como tantos outros filósofos antes dele, Hegel adotou nas "Lições" uma cronologia da história que apontava para a existência de uma marcha do espírito que, periodicamente, se materializava num povo ou numa cultura. Num primeiro momento ele aparecera como grego, em seguida como romano, agora chegara a vez dos germanos. Havia algum tempo que pensadores, particularmente alemães, tinham a firme crença de que a civilização mediterrânea (isto é, a greco-romana-bizantina) entrara em declínio para não mais despertar e que, doravante, eram os "povos nórdicos" quem conduziriam a tocha do Ocidente. O filósofo Leibniz chegou a usar esse argumento frente ao czar Pedro I, o Grande, em 1698, para convence-lo a abrir uma academia de ciências em São Petersburgo. Os ares da civilização, deixando as praias quentes do Mediterrâneo, sopravam agora para a outra parte do hemisfério, para os lados da Germânia. É bem possível que Hegel entendesse a derrota definitiva de Napoleão em Waterloo, imposta por uma coligação de exércitos anglo-prussianos, como uma confirmação do fim da era latina e sinal da ascensão de um novo império: o do mundo germânico. Seja como for, ele foi categórico em associar a modernidade à hegemonia dos seus conterrâneos sobre o Ocidente.
Os germanos em meio aos romanos
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A Germânia vigilante no rio Reno
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Povo bárbaro, vivendo na periferia das fronteiras do Império dos Césares, separados dele pelos rios Reno e Danúbio, os germanos num primeiro momento importaram tudo dos romanos: especialmente cultura e religião. Quando durante as grandes invasões se apropriaram de boa parte do território ocidental, se converteram em massa ao cristianismo, fundindo então o mundo temporal ao espiritual, sem fazerem distinções. Ainda que rudes e ignorantes, eles injetaram sangue novo no corpo carcomido e corrompido das instituições que outrora faziam parte do domínio romano. Em meio às ruínas de um estado decadente, quando não em farrapos, e uma igreja cristã ainda claudicante, os germanos trouxeram consigo algo palpitante: um "Espírito Livre". Talvez resquício das folganças da vida em meio às florestas da Teutônia, onde as decisões eram tomadas em assembléias nas clareiras dos bosques, à sombra das árvores. (*)Esta situação encaminhou-se então para a formação do Império Carolíngio, quando Carlos Magno estruturou a Monarquia Feudal e deu respaldo ao Papado, selando uma aliança entre a coroa e a mitra, na qual uma dava apoio à outra. Ocorre que tal aproximação do Estado com a Igreja engendrou uma dura servidão aos povos europeus, submetidos a um duplo jugo estabelecido pelo trono de César e pelo altar de São Pedro. Foi preciso esperar-se a Reforma liderada por Martim Lutero ("O Sócrates do Mundo germânico"), para que o espírito livre dos antigos germanos voltasse a predominar. Serviram as 95 Teses de Lutero, afixadas nas portas da catedral de Wittenberg, como um soar do clarim para a revolta dos príncipes germânicos contra o despotismo do imperador e dos crentes comuns contra as injurias e imoralidades da igreja romana. A Alemanha sacudira a canga a que estivera submetida. É perante um novo estado racional, despido do passado despótico, orientado no sentido da ética e da justiça, que as consciências deviriam então se submeter. (*) O Barão de Montesquieu era um dos que acreditavam que a liberdade chegara às áreas ocidentais do antigo império romano trazida pelos ares mais soltos das florestas da Germânia. Isso é que explicava os franceses tornarem a palavra affranchi (derivada das tribos franco-sálicas originadas da Francônia alemã), sinônimo de liberdade, de independência.
A antiga Monarquia Romana que ainda sobrevivia na Monarquia Universal de Carlos V, secara. A dissolução dela, acelerada pela insurgência de Lutero, abriu caminho para a constituição dos estados livres germânicos, cada um deles tendendo à independência, ainda que mantendo mútuas inclinações (que iam da amizade às declarações de guerra).O espírito germânico, liberto da servidão, recuperado frente a si mesmo, torna-se então "o espírito do mundo moderno", cujo fim era alcançar a "verdade absoluta", como "autodeterminação absoluta da liberdade". Todavia, isso lhe trouxe encargos. A simbiose do Germanismo com o Cristianismo obrigou as nações alemãs a alimentar "os portadores do principio cristão", cabendo a elas "promover a liberdade espiritual". A nova era que se abria em frente, depois de desmontar o antigo edifício da tradição e dos costumes, tratou de cultivar o pensamento, procedendo na reconstituição dos estados segundo as novas normas. A vida pública passou a organizar-se com a consciência de acordo com a razão, sendo que os direitos precisavam ser legitimados em bases de princípios racionais, para melhor realizar a liberdade do espírito. Observe-se que no orgulho étnico exaltado por Hegel, particularmente no seu discurso inaugural na cátedra de filosofia, pronunciado em outubro de 1818, não havia nenhuma nota de ardor imperialista, pois no entendimento dele a Alemanha devia se expor aos olhos do universo como exemplo da autonomia conquistada, como a nação onde o povo e o seu rei uniram-se para por um fim na tirania exercida pelo invasor francês. Era esse espírito livre dos germanos que se manifestaria agora através da filosofia tornada ciência; uma força intelectual que desafiando a religião era capaz de abarcar o todo. Apoiada pelo estado, ela poderá então dar vazão "ao livre império do pensamento", ao lado do governo do mundo real. Era pois pelas mãos dos germanos, pela aliança da Filosofia com o Estado, que a humanidade finalmente se emanciparia.
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