|
Pascal e os perigos da imaginação
Ao herdarem o espólio de um pensador, seus parentes mais próximos seguidamente terminam por mutilar ou adulterar seus manuscritos, suprimindo passagens que consideram comprometedoras à memória do falecido. Felizmente este trabalho de estrago não muito inocente não foi cometido pela irmã do filósofo francês Blaise Pascal, Gilberte Périer, que não só se responsabilizou pela integral edição dos Pensamentos, em 1670, que eram anotações feitas pelo pensador, como nos legou, como sua biógrafa, um candente testemunho dos tempos da infância dele como também da dolorosa doença que o vitimou. Ele e René Descartes, nestes últimos três séculos e meio, dividiram os sentimentos dos franceses em relação a qual caminho existencial e filosófico tomar.
|
|
|
|
Blaise Pascal (1623-1662)
|
Até nossos dias, A vida de Pascal, editada na Holanda, em 1684, é fonte obrigatória sobre a formação do atormentado sábio. Blaise Pascal, geômetra, matemático, inventor da machina arithmetica, em 1640-1642, pertenceu aos primórdios do movimento racionalista europeu, ao século XVII, contemporâneo dos esforços de Francis Bacon, Descartes, Spinoza, Maleblanche e Leibniz para encontrar um novo método científico. Desconfiados da escolástica e da herança medieval, que teimava em sobreviver, acreditavam os pensadores daquele século que a verdade poderia ser obtida por meio de um método, que seria a verdadeira ferramenta do cientista. Descartes, por exemplo, autor do famoso "Discurso do Método", pensava poder desenvolver um que fosse útil para todas as ciências e aplicado universalmente, "inclusive para os turcos" como afirmava. Pascal, que teve um encontro com ele em 1647, quando tinha apenas 24 anos, discordava. Para ele cada verdade tinha, por assim dizer, seu próprio método.Mas a oposição dele aos filósofos contemporâneos se dava num outro campo. Pascal reprovava nos cientistas e livres-pensadores do seu tempo o crescente agnosticismo e ateísmo deles. Os libertinos, como eram denominados muitos dos homens-de-letras, mais e mais afastavam de Deus. Eram descrentes que Ele pudesse influenciar nas questões mundanas e éticas mas igualmente no próprio ato da Criação! No máximo, lamentou ele, recorriam ao Todo-Poderoso "como um piparote para pôr o mundo em movimento", uma força mecânica sem alma, como ele acusou Descartes de o fazer. Enquanto seus colegas afirmavam a razão, ele teimava em ser partidário da piedade.
Pascal foi uma das exceções entre os sábios da sua época, mais inclinados ao ceticismo e ao descompromisso com a religião. Como narrou sua irmã, era um homem profundamente comprometido com a fé, atingindo às raias da beatice. Um caso de raro de um espírito místico com poderosa vocação científica. Esse homem, que era dado a fantasias religiosas de toda espécie, surpreende-nos na anotação nº 82 dos Pensamentos quando investe contra a imaginação (entendida como "a possibilidade de evocar ou produzir imagens independentemente da presença do objeto a que se referem). Naquele parágrafo não só a denomina como "senhora do erro e da falsidade" como a ofende chamando-a de "velhaca", pois "empresta o mesmo caráter ao verdadeiro e ao falso". Não era, pois, sem motivos que Aristóteles e os gregos denominavam a imaginação de phantasia (fantasia).Sua indignação contra a imaginação aumenta porque, além de nos induzir sistematicamente ao equívoco, ela não deixa, um instante sequer, de portar-se como se fora "senhora do mundo". Tanto ela nos seduz, que a maioria dos juízes, dos médicos e dos advogados recorre a uma simbologia bem própria para com ela nos impressionar e fazer com que nós, crédulos, acreditemos que as profissões que exercem têm um grau de precisão que na realidade nunca tiveram. O martelo e a toga do magistrado, o estetoscópio do doutor e a pilha de códigos que cerca o bacharel, nada mais são do que fetiches, idênticos aos usado pelo xamã, para nos fazer acreditar que a justiça está sendo cumprida, que a cura está a caminho ou ainda que nossa demanda será a vencedora. Apenas estímulos usados por eles para alimentar nossa fantasia de que as coisas irão dar certo. Os chefes de estado, por igual, largamente deles se socorrem, fazendo anunciar sua presença de maneira espalhafatosa, com "as trombetas e os tambores marchando à frente" para nos fazer lembrar que não são homens comuns, mortais como os outros. Sua expectativa é que, com aquela parafernália toda, ao ouvirmos o rufar do tarol e as clarinetadas que anunciam a sua chegada, já nos preparemos, psicologicamente, para um ato de submissão ao pretenso grande homem que se avizinha.
|
|
|
|
Máquina de calcular de Pascal, 1647
|
Pascal, nesta sua hostilidade contra a imaginação, reproduzia os temores de Spinoza, que chegou ao extremo de aplicar os princípios de Euclides em sua Ética, num esforço de tentar enquadrar os sentimentos morais em figuras geométricas. Ambos temiam que a imaginação turvasse a razão a ponto de impedi-la de vislumbrar o tal método para se chegar a verdade, que era uma espécie de cálice do Santo Graal, procurado pelos cruzados da filosofia e da ciência.Pascal via a imaginação não como uma das portas sensitivas pela qual a sabedoria pudesse entrar, mas como uma tática enganadora utilizada pelos sentidos em sua "guerra contra a razão". Conflitado entre a carolice e a investigação científica, atormentada pelos efeitos causados pelo conhecimento científico sobre a fé, foi tomado por uma profunda sensação de terror perante a solidão do homem no mundo. O que, de certo modo o levou a definir-se, ele e os demais homens, como um "caniço pensante", segundo um dos seus ditos mais conhecidos. André Saurès entendeu-o como o maior dos maiores, alguém que foi simultaneamente "le poète, le saint et le savant, l'homme qui voit, l'homme qui sait, l'homme qui pense" ( o poeta, o santo e o sábio, o homem que vê, o homem que sabe e o homem que pensa). Por ter abraçado o jansenismo, uma seita católica dissidente da Igreja francesa, teve, em 1657, sua obra Provinciais colocada no index pelas autoridades religiosas. Sua irmã ainda o acolheu em sua agonia final. Cólicas terríveis devastavam aquele gênio devoto. "Não vos apiedeis" disse ele a Gilberte, "a doença é o estado natural dos cristãos..."
|