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A Cidade Globalizada
Com a demolição do Muro de Berlim em 1989 o mundo habitado tornou-se mais parecido, assumindo cada vez mais uma identidade em comum. A idéia de constituir-se uma cidade só para toda a humanidade, porém, remonta a séculos atrás, aos tempos de Platão e de Santo Agostinho. Descortina-se hoje, cada vez mais com maior nitidez, a formação de uma cidade universal globalizada, fazendo com que o planeta inteiro fique cada vez mais igual em seus usos e costumes.
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Nova Iorque, capital do mundo globalizado
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"Quem conhece uma cidade, conhece todas, porque todas são exatamente semelhantes, tanto a natureza do lugar permita."Thomas More - Utopia, 1516 Roma, a Urbs Mundi, enfim sucumbiu. No mês de agosto do ano de 410, as hordas do godo Alarico submeteram a antiga capital dos Césares ao saque. Por três dias seguidos um vendaval bárbaro açoitou suas ruas e templos sagrados anunciando o fim de uma era. Iniciava o que Gibbon chamou de "a pavorosa revolução". Os sábios pagãos daquela época culparam o cristianismo, recém confirmado como religião oficial do império, pela desgraça que os abateu. Não se governava um império, disseram eles, dando o outro lado da face para o espalmar acintoso da mão do inimigo. A nova religião desarmara e enfraquecera o espirito combativo dos romanos. Indignado com a crítica a nova fé que ele abraçara Agostinho, o bispo de Hipona, dedicou treze anos da sua vida, de 413-426, a edificar um colosso teológico-literário: "A Cidade de Deus" (De Civitate Dei). O livro foi uma versão cristã do "A República" de Platão. Quem verdadeira capitulara frente aos germanos, assegurou ele, era a Roma terrena, habitada pelos ímpios, "dominada pela paixão de dominar", que ainda confiava nos seus deuses penates, nos protetores pagãos do domus, celebrados por Virgílio. Havia, porém, uma outra Roma, esta sim inconquistável, a Roma de Deus, povoada pelas almas dos puros e dos santos que o cristianismo conseguira converter e salvar.
Em busca da Nova Jerusalém
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A Roma dos homens, não a de Deus
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Desde que a Roma pagã ruíra nas mãos dos bárbaros, a idéia de erguer-se uma Nova Jerusalém, uma cidade da igualdade e da justiça, fascinou não só os utopistas medievais como os filósofos e planejadores sociais contemporâneos. Atendendo aos mais variados pretextos, ao sabor das mais diversas ideologias, eles se dedicaram a erigir a tão sonhada urbe "onde o leão deitaria ao lado do cordeiro" : a cidade universal de Deus na terra. Karl Marx, por exemplo, apesar de negar-se a "fazer receitas de sociedades futuras", acreditava que a história indicava a constituição de uma possível cidade universal socialista governada pelo proletariado, formando uma grande confederação mundial de convertidos à propriedade coletiva, emancipando assim o homem do inferno de se "ver explorado por outro homem". A sua coesão seria mantida pela solidariedade e camaradagem, bem acima das mesquinharias nacionais, formando "uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o desenvolvimento de todos".
Se a queda de Roma em 410 inspirou "A Cidade de Deus" de Agostinho, a queda da Bastilha, tomada pelo povo francês em 1789, representou o mesmo para "O Capital" de Marx. Tanto para um como para outro, tais acontecimentos espetaculares eram sinais evidentes de que ruíra um velho mundo, uma ordem arcaica, precisando-se instituir-se uma outra, inteiramente nova. A do santo cristão seria implantada no céu pelas almas puras que daqui partiriam , a de Marx se faria na terra, construída pelas mãos calosas do homem.
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