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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Prevendo o colapso europeu

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Nietzsche: síntese da sua importância
Prevendo o colapso europeu
 
Nietzsche, porém, foi profético em suas previsões a respeito do futuro mais imediato da civilização européia. Foram inúmeras as passagens ao longo da sua obra em que ele prenunciou o advir do dilúvio para a Europa, que de fato se desencadeou em 1914 com a Grande Guerra e, novamente, em 1939, com a Guerra Total, como por exemplo estas linhas extraídas do prólogo do Wille zur Macht (Vontade de potência): "A civilização européia agita-se desde muito sob uma pressão que vai até a tortura, uma angústia que cresce em cada década, como se quisesse provocar uma catástrofe: inquieta, violenta, arrebatada, semelhante a um rio que quer alcançar o término do seu curso, que não reflete mais, que teme até refletir."

Ou ainda, dando seguimento a mesma percepção, quando assegurou que "haverão guerras como jamais se viu no passado", concluindo que "o tempo para a pequena política tinha passado, o próximo século (o século XX) trará consigo uma luta pelo poder em escala mundial – será a compulsão pela grande política."

Em seqüência a Schopenhauer, uma das mais reconhecidas influências, ele também não depositava esperanças numa ascensão da humanidade propiciada pela tecnologia ou pelo progresso social. Para ele, como para o célebre pessimista, mesmo a prosperidade alcançada pela industrialização não removia a sensação miserável da condição humana que acompanha o homem do princípio ao fim da sua existência.

Pode-se até conjeturar que ele não viu na melhoria geral das condições de vida das populações urbanas do final do século XIX uma das razões, a seu ver perigosas, dos filisteus virem "a invadir tudo", a tomar de assalto os espaços antes ocupados pelos eleitos.

Os fracassos de Nietzsche

Residência de Nietzsche em Weimar (Arquivo pessoal)
Nada, porém, do que politicamente defendeu sustentou-se. A democracia, as propostas igualitárias dos socialistas, a emancipação feminina, o cuidado com as expressões das minorias étnicas, mesmo que pouco importantes sob o ponto de vista cultural, terminaram por se impor, pelo menos a partir da segunda metade do século XX.

Se Nietzsche, vivo ainda fosse, andasse nas ruas de uma megalópole do nosso tempo, à vista da permanente exposição dos horrores estéticos de uma sociedade de massas, ele seguramente teria uma síncope. Cidade para ele era Turim, onde um estilo arquitetônico aristocrático conseguia conviver com um parlamento eleito por burgueses.

Nada mais distante do seu ideal de respeito ao bom gosto clássico do que predomina nas nossas avenidas, tomadas por néons ordinários e painéis de publicidade, ou o que se vê pendurado nas paredes de uma galeria de arte dos nossos dias. Imaginem só aquele pobre solitário que adorava ir para as montanhas dos cantões suíços ter que caminhar em meio a turba citadina de agora?

Exatamente é esta sua defesa intransigente do individualismo, ainda que de raiz elitista, aristocrática, é o que fascina muita gente. Lê-lo agora, como muitos o fizeram em tempos anteriores, é um refúgio e um consolo frente a um mundo padronizado, monotonamente igual.

Por outro lado, simultaneamente ao predomínio político e dos valores culturais do homem-massa, se é que podemos assim chamar, nota-se uma furiosa idolatria à celebridade, à personalidade famosa, aquele que de alguma forma conseguiu escapar do terrível anonimato a que a imensa maioria está condenada. Poderíamos arriscar entender a celebridade de hoje como um erzats do super-homem de Nietzsche?

Porque então ainda Nietzsche?

Então, se tudo o que ele disse não se confirmou ou não se assentou no século que passou, qual o motivo da sua presença quase que constante nas livrarias e nas teses dos intelectuais de hoje? Antes de tudo as suas qualidades como escritor. Nietzsche é um dos grandes nomes da literatura mundial.

Mas Giles Deleuze aponta ainda uma outra razão. A modernidade iluminista provocou com seu extraordinário desenvolvimento uma forte suspeita sobre seus fins últimos. A corrosão trazida pelo próprio progresso, fez com que fosse preciso resgatar outras formas de filosofar que não as comprometidas diretamente com os ideais de infinito bem-estar. As que mantiveram distância ou desconfiança no progresso à outrance.

Se bem que Nietzsche não tenha se consagrado como poeta, apesar do extremo vigor da maioria das suas estrofes, revelou-se um dos melhores prosadores de filosofia e de crítica cultural de todos os tempos.

Ele oferece intermináveis insigths para qualquer mente curiosa e dotada de sensibilidade, além de ter abastecido o mundo literário com imagens e cenas poderosas que foram exploradas por múltiplos escritores das mais diferentes nacionalidades e procedências. E, de uma forma definitiva, original e irreproduzível, ele ensina a ver o mundo de uma maneira diferente do que a convencional.

O pensador-dinamite

Apesar dos críticos considerarem o seu ensaio derradeiro, o Ecce Homo, como uma exposição de um alucinado e não mais de um pensador coerente, encontra-se no capítulo final dele um parágrafo que mostra que mesmo tendo rumado da solidão para as trevas ele tinha ainda consciência do que o seu pensamento iria provocar no século que se anunciava.

Diz ele: "Conheço minha sorte. Alguma vez o meu nome estará unido a algo gigantesco – de uma crise como jamais houve na Terra, a mais profunda colisão de consciência, de uma decisão tomada, mediante um conjuro, contra tudo o que até este momento se acreditou, se exigiu, se santificou. Eu não sou um homem, eu sou dinamite." De fato, Nietzsche declarou guerra à tradição do pensamento ocidental.

Este livro, concentrado basicamente na figura chave do pensamento dele, o super-homem, preocupou-se em explorar todas as possíveis vertentes que influíram na construção daquela figura emblemática da filosofia e da concepção de vida de Nietzsche.

Assim, perdoe-nos o leitor por não ter-se saltado pela janela da estética ou entrado pela porta da crítica cultural que ele deixou aberta na sua obra. Contentem-se, pois, com a genealogia do super-homem tal como ele se encontra no Zaratustra. Afinal, como ele mesmo deixou registrado no prefácio do Ecce Homo: "Entre os meus escritos, meu Zaratustra está sozinho. Com ele dei à humanidade o maior presente que ela jamais recebeu."

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