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O fracasso da revolução alemã
Todavia, este distanciamento dela, como se fora uma torre de marfim em meio aos embates da época, seria uma compreensão limitadora e equivocada dos estudos futuros da Escola e sua contribuição, visto que foi exatamente o debruçar dos seus integrantes sobre a realidade, atuando sobre a contingência e tudo aquilo que fosse preocupação moderna, é que fez com que suas pesquisas mais avançassem.O próprio surgimento da instituição se dera num contexto de malogro da revolução alemã. A extrema esquerda, fosse por meio do Spartakusbund, da Liga Espartaquista ou do Partido Comunista, seu sucessor, havia tentado por três vezes a insurreição geral para tomar de assalto o poder ; em 1919, em 1921, e finalmente em 1923. Em todas elas o putch , o golpe, redundou num desastre, fazendo com que a esperança dos revolucionários de fazer Berlim uma nova São Petersburgo ou Moscou, tão cara aos marxistas naquele momento, refluísse. Os levantes apenas expuseram a impotência deles e provocaram, como reação, a formação de uma extrema direita cada vez mais aguerrida e radical. Pelo menos entre os intelectuais reunidos ao redor do Instituto, o marxismo somente poderia servir teoricamente para ser usado dentro dos gabinetes de estudo. E o proletariado alemão ao invés de chegar ao poder - como Marx, Engels, e outros social-democratas esperavam - virou para eles num objeto de pesquisa universitária. Foi somente nos anos trinta – época da ascensão de Hitler e Stalin - que o Instituto finalmente desabrochou, em parte graças ao trabalho intenso de Max Horkheimer que, substituindo Grünberg, assumiu sua direção em 1931. A proposta dele consagrou-se como a Kritische Theorie (Teoria Critica da Sociedade), que é uma forma "secularizada" e adaptada às circunstâncias modernas do conceito de apreensão da totalidade.
O Instituto e sua revista
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Cartaz dos espartaquistas (1919)
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O órgão de difusão do Instituto foi a Zeitschrift für Sozialforschung (Revista de Investigação Sociológica), publicada entre os anos de 1932 e 1939. A maioria dos números foi editada no exílio quando, transferido para Nova York desde 1934, e vinculado à Universidade de Columbia, o Instituto anglicizou sua denominação para International Institute of Social Research. Procurando aproximar Marx com Freud, e por vezes de Heidegger, num gigantesco trabalho de interdisciplinaridade e síntese, praticamente não existiu área da fenomenologia social da qual seus integrantes não tivessem sua curiosidade despertada. Entre 1930 e 1950 trataram de tudo: de filosofia, de economia, de sociologia, da cultura de massas, da psicologia autoritária, da estética, de cinema, da música, da tecnologia, da ideologia, da acumulação do capitalismo, do desemprego, da literatura, do autoritarismo, do fascismo e, claro, da psicanálise e dos efeitos da repressão sexual. Todavia, apesar do pano de fundo marxista e neo-hegeliano do qual se diziam herdeiros, sua contribuição mais duradoura foram as observações criticas, negativas, de nítida influência heideggeriana, feitas às esperanças despertadas pelo Aufklärung, o Iluminismo, e pela desconfiança que manifestaram quanto à racionalidade em geral. Um tanto como resultado das devastações provocadas pela tecnologia durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, e os grandes massacres que se viram, Horkheimer e Marcuse vão ser os primeiros teóricos de esquerda a buscar no Iluminismo, ou a perversão dele, a fonte inesgotável dos problemas contemporâneos.
Indisposição contra a modernidade
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A metrópole, nova opressão da tecnologia moderna (cena do filme Metrópolis de Fritz Lang, 1927)
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Um tanto que seguindo a tradição romântica de contestação ao racionalismo, afirmaram que a sociedade moderna, ao conquistar a natureza por meio da tecnologia, provocara um empobrecimento geral dos seres humanos, submetendo-os ao que Goethe denominara de o domínio da "cinzenta teoria".No lugar da religião convencional emergiu o culto ao progresso que, a lá Fausto, tudo sacrifica em nome de uma racionalidade cientifica supra-humana. Herbert Marcuse chegou inclusive a cunhar uma nova designação para defini a sociedade que emergia: a Sociedade Unidimensional, alertando para que não confundíssemos conformismo social (que é a resignação bovina da maioria) com a felicidade humana. E, por igual, foi o que mais chamou atenção para um outro dos tantos efeitos da tecnologia sobre o restante da sociedade, afirmando que "ela serve para instituir formas novas, mais eficazes e mais agradáveis de controle social e coesão social". Em suma, em vez de ter emancipado os indivíduos, a versão tecnológica do Iluminismo lentamente foi tecendo ao nosso redor amarras, todas elas colocadas a serviço de uma pseudo-racionalidade alienada. Por fim, no que toca a posição deles em favor de um "marxismo apolítico" - pelo menos foi o caso de Horkheiner e Adorno – ela não deu frutos práticos, visto que os fez empacar ideologicamente. Não só isso, no livro Dialética da Ilustração que escreveram a quatro mãos, num recuo a Schopenhauer, desligaram-se do próprio iluminismo, assumindo uma posição profundamente pessimista sobre o desempenho da razão. Ocorre que nenhuma concepção teórica resiste muito tempo ao descolamento com as forças sociais vivas da sua época. Se é um fato que existe uma razoável autonomia intelectual em relação às classes sociais, aquilo que os alemães chamam de freischwebend, uma situação "livremente flutuante", ela não resiste aos impactos do tempo. Pairar sobre as coisas é um tanto como habitar uma ilha isolada, pensando em não aderir a nada, leva ao estiolamento ideológico, ao apartamento as coisas mais palpitantes e ativas da vida política e social do meio em que se vive.
Distanciando-se da prática
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T. Adorno
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Quando da explosão estudantil de 1968, muitos dos textos dos membros da Escola foram reutilizados pelas lideranças rebeldes como arsenal teórico na luta contra a ordem social e econômica que consideravam iníqua. Houve então uma verdadeira ressurreição da Teoria Crítica (justamente por não fazer parte do arsenal do marxismo ortodoxo nem do radicalismo liberal) usada como um aríete contra o capitalismo e contra o conformismo social europeu do período que sucedeu os anos da reconstrução e do Wirtschaftwunder, o milagre econômico dos anos cinqüenta. Foi o momento em que Herbert Marcuse, com 70 anos, um tanto esquecido dando aulas na Universidade de San Diego, na Califórnia, viu-se promovido a mentor da rebelião da juventude ocidental. Então alcançou o estrelado e fama internacional, sendo que seus livros Eros e Civilização e O Homem Unidimensional, apesar de redigidos numa difícil prosa freudo-heideggeriana, tornaram-se os raros best-seller de filosofia e ciências sociais a rodarem pelo mundo, entre 1967 e 1970. Em Berlim, atendendo ao convite de Rudi Dutschke, o líder da radical SDS (Sozialistischen Deutschen Studentenbund), Marcuse, como se fora uma versão alemã de Sartre, deu conferências na Universidade Livre sobre O Fim da Utopia, em meio a um clima de contestação e aberta insurgência do meio estudantil. Horkheimer, todavia, aquela altura da vida, carregando as cicatrizes da perseguição e do exílio, queria distancia com aquela agitação toda, comportando-se um tanto como Lutero quando se viu inadvertidamente como principal referência da Revolta dos Camponeses de 1525. O filósofo acreditava que a situação social das décadas que se seguiram à derrota alemã de 1945 mudara substancialmente do que era nos anos 20 ou 30. Não havia mais aquele domínio direto da classe de empresários e de donos de industria e de bancos, substituídos que foram por diretórios administrativos controlados por gerentes ou comissões dirigentes. Os indivíduos assim como as classes sociais começavam a se integrar, superando os históricos antagonismos de luta de classes que haviam gerado o marxismo clássico e que patrocinara a Revolução russa de 1917. Ainda que sua posição fosse por uma "teoria crítica da sociedade", ela não deveria desempenhar a função de porta-voz da agitação social nem de tarol para acelerar as mudanças ou por um fim nas injustiças. Havia uma enorme diferença entre apontar os problemas sociais e querer resolvê-los pela revolução. Devia-se, isto sim, preservar-se o campo da liberdade duramente conquistado, defendendo-o contra o hitlerismo e o stalinismo. A Europa Ocidental era uma ilha liberal, tanto no espaço como no tempo, "cuja submersão no oceano da violência significaria também o final desta cultura a qual pertence a teoria crítica" (Prefácio da nova edição da Teoria Crítica, coletânea de ensaios escritos entre 1932 e 1941, assinado por ele em abril de 1968). Toda a antiga linguagem de contundência e de inconformismo – escreveu ele após reproduzir um longo trecho radical de Otto Kircheimer – pertencia a uma época morta. Estava datada, só teve validade naquelas circunstâncias que historicamente já haviam desaparecido, e que, portanto, não tinha potencialmente nenhuma contribuição mais a dar para o futuro. Deste modo ele distanciou definitivamente o seu trabalho teórico anterior de qualquer contestação da realidade capitalista em que os estudantes viviam naquele momento de tensão, paixão e fúria. Horkheimer aquela altura da vida - um setuagenário em meio ao redemoinho da agitação e tumulto sem fim que cercava as universidades européias e as alemãs - era um veterano cansado das batalhas de outrora e considerava inútil e sem sentido voltar a sacudir as armas da Teoria Crítica como ele fizera nas décadas passadas. Para ele, o rompimento do nexo entre a teoria e a práxis como entendiam os marxistas, havia se dado de modo irremediável. Assim, o último suspiro do marxismo alemão-ocidental, como se fora um fole perfurado, exauriu-se em meio a agitação estudantil esquerdista vinte anos antes do colapso do comunismo. Nisso antecipou e prenunciou o levante popular e pacífico de 9 de novembro de 1989 ocorrido na Alemanha Oriental que pôs a baixo o Muro de Berlim, enterrando para sempre o marxismo dogmático que ainda predominava por lá, e com ele o regime comunista do leste europeu. Como epitáfio do ardor de outra é interessante reproduzir um dos seus últimos parágrafos, presente no mesmo prefácio acima citado, antes de Horkheimer recolher-se para o lado das sombras da aposentadoria e ir falecer em Nuremberg, em 1973: "Proteger, preservar e, onde for possível, ampliar a liberdade efêmera e limitada do individuo face à ameaça crescente a essa liberdade", assegurou ele, "é uma tarefa muito mais urgente que sua negação abstrata, ou o pôr em perigo essa liberdade com ações que não tem esperança de sucesso". Ainda assim, a Escola tinha um herdeiro que não desistira de tudo: Jürgen Habermas.
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